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Eleições presidenciais do Irã terão impacto na comunidade internacional

Comício em Teerã, Irã [Fatemeh Bahrami/Agência Anadolu]

A República Islâmica do Irã conduz sua 13ª eleição presidencial nesta sexta-feira (18), em meio a uma crise econômica agravada pela pandemia de covid-19. Enquanto think tanks e a grande imprensa ocidental já antecipam o resultado, o fato inexorável é que o pleito é imprevisível. Tornou-se evidente em 1997, quando reformistas chegaram ao poder, e novamente em 2005, com a ascensão de uma facção neoconservadora, liderada por Mahmoud Ahmadinejad.

Dito isso, há um consenso doméstico cada vez maior de que o ex-chefe do judiciário Ebrahim Raisi deve prevalecer contra seus três rivais, seus colegas principialistas Mohsen Rezaei e Seyyed Ami-Hossein Ghazizadeh-Hashemi e o tecnocrata moderado Abdolnaser Hemmati.

Quem quer que ganhe enfrentará diversos desafios cruciais, a maioria vinculados à economia. No nível macroeconômico, o maior desafio do novo presidente será reverter a filosofia neoliberal que manteve influência nas últimas três décadas. Além das batalhas ideológicas, o vitorioso deverá conduzir uma guerra contundente contra a corrupção, como parte de uma estratégia ampla para restaurar a confiança do povo. Em âmbito internacional, uma postura mais coesa deve emergir conforme aproximação com a China e, em menor grau, com a Rússia. Mesmo caso seja restabelecido o acordo nuclear assinado em 2015 com potências globais, tensões com Estados Unidos e Israel devem ser mantidas — e potencialmente se intensificar —, à medida que o Irã avança para desenvolver suas capacidades de defesa.

Uma surpresa seria a eventual desescalada com os estados do Golfo — sobretudo Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos —, ao passo que os adversários regionais de Teerã passem a aceitar a hegemonia da república islâmica na política e segurança do Sudoeste Asiático.

De muitas maneiras, portanto, a eleição de hoje pode ser considerada a mais importante desde a vitória da Revolução Islâmica, em 1979.

Uma crise econômica exacerbada pelo impasse com Washington e Tel Aviv dá indícios da gravidade dos obstáculos na trajetória de Teerã. É por isso que, em seu discurso à nação proferido antes das eleições, em 16 de junho, o Supremo Líder do Irã, aiatolá Ali Khamenei, conclamou pela participação máxima da população, como meio de construir uma resistência robusta contra a gradativa pressão internacional.

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Pouco a pouco, formou-se um quase consenso de que uma administração principialista — com apoio da maioria do eleitorado — seria melhor para tratar dos desafios iranianos em política externa. O fato não foi ignorado por algumas agências de mídia consideravelmente hostis ao Irã, que corretamente consideram as chances de coesão política como elemento fundamental para superar as dificuldades em âmbito diplomático, além de gerir a crise econômica.

No entanto, será esta eleição um ponto de inflexão político — ou mesmo ideológico — como sugerem alguns analistas estrangeiros?

Dois comentaristas filiados ao Instituto Tony Blair para Mudança Global argumentaram em artigo à revista Time que a presente eleição representa um salto de uma república islâmica a um “governo islâmico”, à medida que deverá consagrar a visão ideológica do aiatolá Khamenei. O pressuposto é que a eleição tem assim um resultado pré-determinado, com base em um projeto político maior. Parte desta suposta perspectiva, afirmam os analistas, remete a uma subjugação do caráter “republicano” para abrir caminho a um conceito vago de “governo islâmico”, segundo o qual não haveria eleições. Trata-se é claro de um absurdo retórico e fala mais da natureza ideológica do próprio Instituto Tony Blair do que de Teerã.

Desde a Revolução Islâmica, o Irã realiza eleições parlamentares, presidenciais e outras, sempre conforme o cronograma, mesmo durante a guerra contra o Iraque e insurreições internas, no início da década de 1980. O ciclo eleitoral é previsível e o comparecimento é consideravelmente alto, sobretudo para o pleito presidencial.

As últimas eleições presidenciais, em maio de 2017, produziram um comparecimento saudável de 73.3% do eleitorado, comparado a índices menores nas democracias liberais. Vale notar que a eleição presidencial dos Estados Unidos, em novembro último, logrou do comparecimento de 66%, considerado um recorde devido à disputa incendiária entre Joe Biden e o ex-presidente Donald Trump. É possível que o comparecimento hoje seja menor do que no passado, mas deve manter uma proporção suficiente para que o resultado seja incontestável.

Uma forma melhor de compreender as transformações que devem ocorrer no Irã é acompanhar as eleições através do prisma da dinâmica institucional e burocrática que molda a política do país. Pelos últimos 24 anos, desde a eleição presidencial de 1997, que levou os reformistas ao poder, a política iraniana foi definida por um intenso cabo de guerra entre reformistas e uma amálgama de facções conservadoras e de direita, conhecidas como “principialistas”.

O período entre 2005 e 2013 pode ser considerado uma exceção, ao menos em parte, quando o então presidente Mahmoud Ahmadinejad tentou — no entanto, fracassou — transcender a dicotomia política.

Sua facção principialista em particular foi desde então retratada como uma “corrente degenerada” pelo establishment nacional e Ahmadinejad foi desqualificado de concorrer às eleições desde ano pelo Conselho Guardião, que age como órgão eleitoral com poder de veto. De modo mais amplo, a disputa faccionária efetivamente ofuscou aspectos do estado, da gestão econômica à condução da política externa.

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A falta de partidos estabelecidos no Irã implica que o faccionalismo deve prevalecer como característica de sua vida política no futuro próximo, mas que a influência no cotidiano pode decair à medida que o novo governo — alinhado com o parlamento majoritariamente conservador — terá maior facilidade em formular e implementar medidas controversas.

Dentre as expectativas mais difíceis de cumprir, está o combate à corrupção que tornou-se exponencialmente um fardo à vida pública. O novo governo deve impor políticas anticorrupção como prioridade e parte de uma estratégia ampla para reconquistar a confiança popular.

O que tudo isso quer dizer para os países com vasto interesse nas eleições? A curto prazo, significa que o desafio mais contundente à nova gestão é assegurar seu êxito nas negociações em Viena, capital da Áustria, para ressuscitar o acordo nuclear iraniano — oficialmente conhecido como Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA).

Ambos os favoritos ao pleito — o principialista Ebrahim Raisi e o tecnocrata reformista Abdolnasser Hemmati — têm como princípio apoiar a restauração do acordo nuclear, abandonado unilateralmente pelo governo dos Estados Unidos, em 2018. Contudo, como esperado, se um governo conservador assumir o poder, é mais provável um maior escrutínio sobre o possível retorno de Washington ao tratado internacional.

Qualquer reivindicação das potências estrangeiras por monitoramento, por exemplo, para avaliar as capacidades de defesa do Irã, sobretudo em tecnologia balística, deve ser rejeitada rigorosamente. De fato, como argumentei no último mês, caso demorem demais as negociações ou caso as potências ocidentais tentem ampliar o pacto para cobrir áreas de segurança nacional, Teerã deve concluir que é melhor prosseguir sem um acordo formal.

O governo em fim de mandato, liderado pelo presidente Hassan Rouhani, assumiu como postura uma espécie de paciência estratégica com Israel, ao preferir ignorar reiteradas provocações. A administração porvir pode reverter essa política, ao escolher medidas de dissuasão mais expressivas e tornar mais onerosas as incitações de Washington e Tel Aviv.

Ainda há lugar para surpresas, sobretudo no que se refere às tensões entre Irã e seus vizinhos do Golfo. A tentativa de diálogo com a Arábia Saudita pode assumir um caminho mais formal em um futuro não tão distante, levando à retomada de relações diplomáticas congeladas em 2016, após a monarquia executar o proeminente clérigo xiita Nimr Al-Nimr.

De modo geral, não obstante, a política externa iraniana deve permanecer a mesma, conforme uma tradição de décadas de priorizar a consistência nos assuntos estrangeiros.

O que deve mudar — entre médio e longo prazo — é a postura dos rivais e adversários de Teerã, conforme percebem que a sedimentação de um regime mais coeso e confiante é uma escolha mais sensata do que conservar tensões sem fim e conflitos por procuração.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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