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Apesar de enormes perdas, os palestinos alteraram o curso da história

Artista palestina Etaf al-Najili pinta uma imagem do Domo da Rocha, no complexo de Al-Aqsa, sobre os escombros da Cidade de Gaza, 24 de maio de 2021 [Mahmud Hams/AFP via Getty Images]

A Revolta Palestina de 2021 entrará para a história como um dos eventos mais influentes sobre a mentalidade coletiva dentro e ao redor da Palestina ocupada. Apenas dois outros episódios podem ser comparados com o que vimos nas últimas semanas: a Revolta de 1936 e a Primeira Intifada de 1987.

A greve geral e a insurreição de 1936 a 1939 foram eventos marcantes pois representaram a primeira expressão incontestável de mobilização política coletiva do povo palestino. Apesar de seu isolamento e poucas ferramentas de resistência, os palestinos se rebelaram em toda a Palestina para confrontar a combinação do colonialismo britânico e sionista.

A Intifada de 1987 também é crucial, como ação coletiva e sustentável sem precedentes, que uniu os territórios da Cisjordânia e Gaza, ocupados em 1967. A lendária revolta popular custou muito sangue e vidas, mas permitiu aos palestinos reconquistar sua iniciativa política e, enfim, unificar sua voz — eventualmente frustrada pela assinatura dos Acordos de Oslo, em 1993.

Para Israel, tratou-se de um presente da liderança palestina, que permitiu à ocupação suprimir a Intifada e usar a recém-criada Autoridade Palestina (AP) como tampão entre o exército israelense e a população ocupada, isto é, os palestinos oprimidos.

A história da Palestina seguiu uma trajetória trágica desde então: desunião, faccionalismo, rivalidade política e desigualdade — poucos privilegiados com enormes fortunas. Quase quatro décadas se perderam em torno de um discurso político derrotista, centrado nas prioridades de Washington e Tel Aviv, sobretudo referente à “segurança israelense” e ao “terrorismo palestino”.

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Termos antigos — porém, adequados — como libertação, resistência e luta popular foram substituídos por uma linguagem mais “pragmática” composta por vocábulos como “processo de paz”, “mesa de negociações” e “diplomacia de mediação”. Conforme esta retórica falaciosa, a ocupação israelense na Palestina foi retratada como “conflito” ou “disputa”, como se direitos humanos fundamentais fossem condicionados à interpretação política.

De modo muito previsível, o poderoso estado israelense sentiu-se encorajado como nunca e triplicou seu número de colônias e colonos ilegais na Cisjordânia ocupada. A Palestina foi segmentada em bantustões isolados e minúsculos, como na África do Sul, cada qual com seu respectivo código — Área A, B e C — e o movimento palestino dentro de suas próprias terras tornou-se condicionado a escusas arbitrárias outorgadas pelas autoridades militares de Israel, que controlam uma gestão grotescamente designada como “civil”. Mulheres dão à luz nos postos de controle militar da Cisjordânia, pacientes com câncer morrem em Gaza à espera de autorização para atravessar a fronteira nominal e obter tratamento e muitas outras tragédias tornaram-se a realidade cotidiana do povo palestino.

Com o tempo, a ocupação israelense da Palestina tornou-se uma questão marginal na agenda diplomática internacional. Enquanto isso, Israel cimentou seu relacionamento com diversos países em todo o mundo, incluindo aliados históricos da Palestina no Hemisfério Sul.

Mesmo o movimento internacional por apoio aos direitos palestinos tornou-se fragmentado, uma expressão da dispersão imposta à causa palestina. Na falta de uma voz unívoca em meio a disputas políticas prolongadas, muitos tomaram a liberdade de dar sermão aos palestinos de como resistir, quais “soluções” buscar e como conduzirem a si próprios politicamente. Parecia que Israel afinal possuía a vantagem, de uma vez por todas.

Protesto palestino nos arredores do assentamento ilegal exclusivamente judaico de Beit El, perto de Ramallah, Cisjordânia ocupada, 14 de maio de 2021 [Abbas Momani/AFP via Getty Images]

Desesperados para ver os palestinos se rebelarem novamente, muitos exortaram uma terceira Intifada, incluindo intelectuais e líderes políticos. Era como se o fluxo da história, seja na Palestina ou qualquer outro lugar, aderisse a noções fixas das academias ou fosse compelido por organizações ou indivíduos em particular.

A resposta racional era e ainda é que apenas o povo palestino pode determinar a natureza, escopo e direção de sua mobilização política. Revoltas populares não são resultado de pensamento positivo, mas circunstâncias, um ponto de virada que somente pode ser decidido pelo próprio povo.

Este mês, maio de 2021, representou este ponto de virada. Os palestinos se ergueram em uníssono de Jerusalém a Gaza, em cada metro da Palestina ocupada, além de comunidades de refugiados palestinos por todo o Oriente Médio e na diáspora ampla. Ao fazê-lo, solucionaram ainda uma equação política considerada impossível. O “problema” palestino não é mais apenas a ocupação israelense na Cisjordânia, Gaza e Jerusalém, mas o racismo e apartheid que atinge comunidades palestinas também no território considerado Israel — ocupado durante a Nakba, ou “catástrofe”, em 1948. Trata-se ainda da crise da liderança palestina e do faccionalismo e corrupção há muito entrincheirados.

Quando o Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu decidiu, em 8 de maio, liberar suas hordas de extremistas judeus com escolta policial contra fiéis palestinos na Mesquita de Al-Aqsa — que denunciavam a limpeza étnica no bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental —, buscava apenas angariar alguma credibilidade política entre o eleitorado mais chauvinista da direita israelense. Queria sobretudo permanecer no poder ou, ao menos, evitar a prisão, sob julgamento por corrupção, fraude e tráfico de influência.

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Netanyahu não previu, contudo, desencadear assim um dos incidentes mais históricos da Palestina ocupada — em último caso, um evento que desataria dilemas nacionais aparentemente insolúveis. Verdade, o ataque de Netanyahu contra a população civil de Gaza matou centenas de pessoas, incluindo crianças, e feriu milhares. A violência perpetrada na Cisjordânia e bairros árabes do território israelense matou dezenas mais. Todavia, em 20 de maio, foram os palestinos que celebraram a vitória, quando um cessar-fogo incondicional entrou em vigor, e centenas de milhares de pessoas correram às ruas para declarar seu sentimento de triunfo como um povo unido e uma nação orgulhosa.

Vencer e perder guerras de libertação nacional não pode ser mensurado por comparações macabras entre os mortos ou o grau de destruição imposto a cada lado. Caso assim fosse, nenhuma nação colonizada jamais conquistaria sua liberdade.

Os palestinos venceram porque, mais uma vez, emergiram dos escombros deixados pelas bombas israelenses, uma nação determinada a alcançar sua liberdade a todo custo. A epifania de fato foi demonstrada em diversas cenas de multidões palestinas que comemoraram com bandeiras das mais diversas facções nacionais, sem antagonismo ou exceção.

Sem dúvida, podemos asseverar que a resistência palestina conquistou uma vitória majoritária, talvez sem precedentes em sua história. É a primeira vez que Israel é forçado a aceitar que as regras do jogo mudaram, provavelmente para sempre. A ocupação já não detém mais o monopólio sobre os resultados políticos na Palestina ocupada, pois o povo palestino enfim representa uma força a ser reconhecida.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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