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The Guardian surpreende ao admitir erro histórico em apoiar Balfour — é o bastante?

Palestinos protestam no centenário da Declaração Balfour, promessa do então chanceler britânico em criar um estado exclusivamente judaico na Palestina ocupada, em 2 de novembro de 2017 [Mohammed Asad/Monitor do Oriente Médio]
Palestinos protestam no centenário da Declaração Balfour, promessa do então chanceler britânico em criar um estado exclusivamente judaico na Palestina ocupada, em 2 de novembro de 2017 [Mohammed Asad/Monitor do Oriente Médio]

Recentemente, o The Guardian reconheceu que seu apoio à promessa colonial britânica de estabelecer um “lar nacional ao povo judeu” na Palestina ocupada, conforme declaração do então Secretário de Relações Exteriores do Reino Unido Arthur Balfour, em 1917, representa um dos piores erros do prestigioso jornal em duzentos anos de história.

Segundo editorial, “o The Guardian concedeu apoio, celebrou e — pode-se dizer — mesmo ajudou a facilitar a aceitação de Balfour”, ao recorrer a informações falaciosas divulgadas por seu então editor e célebre apoiador do movimento sionista, C.P. Scott.

O sionismo de fato calcou parte da consciência europeia à medida que o orientalismo colonial preparou a aceitação da narrativa de um “lar judaico” desde o início do século XX e mesmo antes. A propaganda cuidadosamente elaborada pelo movimento sionista efetivamente cegou Scott e outros jornalistas aos direitos essenciais do povo nativo palestino.

A surpreendente mea culpa do periódico britânico foi divulgada durante a celebração de seu bicentenário e no contexto de examinar seus piores erros editoriais.

Scott foi responsável por sofismas racistas como: “A existente população da Palestina é pequena e muito pouco civilizada”. Na prática, o então editor-chefe do The Guardian reformulou a própria propaganda sionista e a difundiu abertamente através de um dos mais influentes jornais da época, em todo o mundo. Quando olhamos para trás, cada vez mais se parece com um espião treinado ao invés de jornalista.

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O The Guardian parecia então à mercê de um fanático sionista sem perspectiva, responsabilidade ou qualquer esforço em analisar os fatos da “informação” passada. O que o periódico britânico hoje descreve como erro de juízo foi de fato uma traição da própria profissão como um todo e da realidade. As consequências desta postura vão ainda além da editoria do jornal e seus preconceitos, em favor do sionismo e sua brutal propaganda de que não havia povo ou nação na Palestina ocupada. A promessa de Balfour ao movimento sionista foi promovida pela Europa como gesto humanitário de um “nobre branco inglês” em relação a bárbaros nativos sem esperança alguma.

Declaração Balfour [Twitter]

Tudo isso muito antes do Holocausto, quando os terríveis campos de concentração e câmaras de gás reuniram apoio do público à narrativa de “urgência” e um lar nacional judaico que tornar-se-ia em breve um estado-nação supremacista chamado Israel.

A dolorosa verdade é que o “equívoco” do The Guardian contribuiu para a criação de uma infraestrutura formal para implementar a prática de expropriação de terras e deslocamento forçado do povo palestino.

Embora a admissão de erro do jornal britânico seja um sinal de mudança na opinião pública na Europa e Estados Unidos, em particular sobre a questão palestina e a ocupação sionista, ainda não pudemos ver essa nova postura em sua política editorial. Até então, o The Guardian manteve uma linguagem bastante restrita em relação à realidade em campo na Palestina ocupada, apesar do fato de que detalhes são mais acessíveis agora do que nunca, graças às novas tecnologias — e quem precisa hoje de C.P. Scott para obter “informações”?

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Apreciamos o mea culpa, mas será mais eficaz caso acompanhado de um pedido de desculpas detalhado, ao publicar uma cronologia dos artigos desde a época até o tempo presente, que ilustraram o apoio histórico do proeminente jornal a um “lar nacional para o povo judeu”, tão logo convertido em ataques brutais contra o povo palestino perpetuados por colonos fanáticos e neofascistas, a polícia israelense e soldados da ocupação em Sheikh Jarrah e na Mesquita de Al-Aqsa. Os danos causados por tal “equívoco” ao longo de mais de um século permanecem nas raízes da tragédia do povo palestino e na violação ainda em curso de seus direitos legítimos fundamentais.

A conclusão é que os palestinos jamais foram minoria em sua própria terra e possuem uma cultura e civilização próspera e longínqua, que exige respeito. Quanto mais cedo Israel e seus apoiadores ocidentais aceitarem tais fatos — incluindo jornais como o The Guardian —, melhor será para todos, sobretudo os palestinos sob a violenta ocupação colonial.

Este artigo foi publicado originalmente em árabe pela rede Al-Ayyam, em 10 de maio de 2021

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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