Portuguese / Spanish / English

Middle East Near You

A geoeconomia das vacinas e o desgoverno anticientífico

CoronaVac: Anvisa autoriza importação de 6 milhões de doses da vacina Thumbnail
CoronaVac: Anvisa autoriza importação de 6 milhões de doses da vacina [Foto Divulgação]

No final do mês de abril, o país alcançou a triste marca de 400 mil mortos pela pandemia do coronavírus. Concomitante a este número absurdo, o Senado inaugurou os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19. Após uma batalha política e outra jurídica, os trabalhos foram instaurados tardiamente, apesar de ser um instrumento regimental perfeito. Dificuldade semelhante se deu na definição do relator, com a base do governo Bolsonaro tentando bloquear o senador alagoano Renan Calheiros (MDB/AL).

O desgoverno contra a ciência

O genial Barão de Itararé acerta novamente. “De onde menos se espera é de onde não sai nada mesmo”. Infelizmente, as políticas de saúde do “desgoverno” são o reflexo do conjunto de forças que deram base à vitória eleitoral de 2018. O pior do país se agrupou em torno de um candidato que se afirma “patriota”, mas tem um governo entreguista. Sua aliança mais popular é com as empresas de difusão da Teologia da Prosperidade e do neopentecostalismo. Além de difamar o brimo Eesho – o profeta Issa – essa indústria do farisaísmo usa e abusa do legado do palestino Jesus para afirmar um conjunto nefasto de crenças, como: duvidar da ciência, negar a solidariedade e defender o colonialismo israelense .

Apostando na mobilização da própria base ideológica, apelidada de “gado bolsonarista” nas redes sociais, o governo de Bolsonaro conseguiu a proeza de “ideologizar” a pandemia, ter quatro ministros da saúde no período (ao menos até o momento em que concluímos o artigo), deixar de disputar a corrida mundial pelas vacinas e, ainda por cima, difundir o chamado “tratamento precoce” sem base científica alguma. Seria uma tragédia se não fosse previsível, com o desdém para a vida alheia e a ausência de empatia coletiva, o que beira a uma condição de sociopata.

LEIA: Bolsonaro diz que espera “sinalização” do povo para “tomar providências” contra lockdown

O Poder Executivo daquela que já foi a 7ª economia do mundo e hoje despenca para 12ª, contando com mais de 6.157 militares em postos na administração federal ou autarquias , simplesmente fracassou no “combate à pandemia”. A soma de militares entreguistas, com a extrema direita aliada do sionismo e os ultraliberais que defendem o modelo chileno como forma de submissão de toda a nossa sociedade é nefasta, mas ao menos traz uma “virtude”. Apresenta-nos a “verdade efetiva”, materializando um dos conceitos-chave de Nicolau Maquiavel. Esta condição irrefutável é a extrema fragilidade da instituição militar brasileira e de como uma “força armada que se dedica a fazer política, não serve para a política e menos ainda na guerra”. Se o vírus fosse uma potência invasora, teria tomado Brasília, as cidades mais importantes e possivelmente os generais que tomam vacina escondido do presidente que quase foi expulso do Exército, assinariam um vergonhoso acordo de rendição.

A vergonha é do tamanho da tragédia. Nem Bolsonaro, Paulo Guedes, os parasitas financeiros que desconhecem os fundamentos das finanças islâmicas e seus milicos de ocasião jamais comandariam uma epopeia como a Batalha de Argel para conquistar a independência diante dos odiados colonialistas franceses. Mesmo na derrota, não seria uma dimensão heroica como na Batalha de Maysalun, em que a inteligência britânica demonstrou o que todos já sabiam: “não se pode confiar em cruzados”. Heroica resistência como em Gaza sob cerco sionista desde 2007, ou a derrota do invasor como no Sul do Líbano. Nada disso é realisticamente possível diante de um comando tão inepto. Se não fizeram um plano de contingência para um vírus, conseguiriam aplicar uma Estratégia Nacional de Defesa contra uma potência invasora? É de duvidar muito.

Outra fragilidade apresentada é na infraestrutura instalada e a capacidade de produção em setores sensíveis ou estratégicos. O Brasil vem recuando na sua condição industrial na área químico-farmacêutica, o que exibe uma dependência de fornecedores externos. Pela lógica do Sistema Internacional, quem tem impõe as condições para quem não tem. Ou então pode, legitimamente, dar preferência para sua população em detrimento das demais. Tudo era previsível, de manual, e a experiência da h1n1 demonstrou a necessidade de ser ágil e poder dar combate a um vírus invasor.

A postura do desgoverno foi ainda pior. Enquanto a covid avançava, aumentavam os estoques de cloroquina ! Se não fosse o empenho dos e das trabalhadoras do Sistema Único de Saúde (SUS) e do quarto setor (pesquisa e desenvolvimento) atuando diretamente no Instituto Butantan e da Fundação Oswaldo Cruz, simplesmente não teríamos vacina alguma!

LEIA: Bolsonaro e a “cloroquina” sionista

A geoeconomia das vacinas e medicamentos

Para além das mazelas políticas brasileiras após o golpe jurídico-parlamentar e midiático de abril de 2016, estamos diante de um embate que ultrapassa a geopolítica, chegando às raias da chamada geoeconomia e projeção geoestratégica . Pelos manuais de relações internacionais, incluindo as versões resumidas e de verve positivista distribuída nas escolas militares nacionais, o limite da geopolítica se dá nas fronteiras físicas, ou no limite da projeção oceânica. Com a capacidade científico-tecnológica em constante expansão, a geoestratégia é o jogo de forças e projeção de poder para além das determinações geofísicas. Já a geoeconomia, embora de maior determinação geográfica, implica na defesa e na expansão das cadeias de valor mais importantes para o regime de acumulação de determinado período histórico.

Independente de quais são as matrizes, todas as sociedades do planeta precisam ter acesso a recursos de energia, alimento e saúde. Ou os países alcançam a autossuficiência total ou parcial em setores estratégicos, ou precisam ter um volume enorme de excedentes de poder para impor termos de troca favoráveis para bens essenciais. Na década de 1990, com a vitória na Guerra Fria pelos Estados Unidos, os “estrategistas” nacionais ficaram ainda mais preguiçosos, apostando na desindustrialização e a integração econômica subordinada aos circuitos do capitalismo globalizado. A manufatura industrial fincou raízes na Ásia continental, e dois países com superpopulação viraram o jogo internacional. Primeiro a China e depois a Índia, afirmando sua condição de potência. Se o Estado chinês e o Hindustão pararem de vender os Ingredientes Farmacêuticos Ativos (IFAs), simplesmente a humanidade pode colapsar pela falta de componentes básicos para a produção de vacinas e medicamentos.

E o que faz o governo Bolsonaro ao longo de 2020? Além de criar tensão com os laboratórios farmacêuticos e possíveis fornecedores (como a Pfizer e o consórcio Covax Facility, organizado pela OMS), provoca a China afirmando um estúpido discurso Anti-BRICS. É insano. O Butantan avançou nas negociações com a empresa Sinovac, apesar do Ministério das Relações Exteriores, sob os despropósitos do tardiamente demitido Ernesto Araújo. E, até o presente momento, a Coronavac equivale a cerca de 80% das vacinações até abril de 2021. Logo, sem a vacina sino-paulista, não teríamos praticamente nada.

Para superar a dependência

A Segunda Guerra Mundial deixou uma lição para as potências e para os países com vontade própria. Autossuficiência energética deve ser uma meta permanente, sendo ou não exequível. Simples assim – é fundamental. No século XXI, assim como no início do século anterior, a integração forçosa das economias capitalistas expande o potencial pandêmico. Todo país precisa ter acesso a fontes seguras ou capacidade industrial para a produção de vacinas, medicamentos e insumos da cadeia químico-farmacêutica e médico-hospitalar. Investir pesado na economia política da saúde é garantia de soberania e, antes, de sobrevivência. A mentalidade entreguista e colonizada dos aduladores do criminoso Bibi Netanyahu jamais defenderia o povo brasileiro.

LEIA: O “pária mundial” e o atraso nas vacinas do Brasil

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

Categorias
ArtigoÁsia & AméricasBrasilChinaOpinião
Show Comments
Show Comments