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O governo libanês proíbe viagens do Brasil ao Líbano e vice-versa – uma análise política

Participação recorde Do Brasil em conferência no Líbano, 05/06/2019 [Foto Reprodução/ Lebanese Diaspora Energy]
Participação recorde Do Brasil em conferência no Líbano, 05/06/2019 [Foto Reprodução/ Lebanese Diaspora Energy]

Em mais um desdobramento da trágica crise da pandemia do covid-19, o governo libanês, na última semana do corrente mês de abril, tomou a decisão de proibir viagens do Brasil e da Índia, tanto como destino quanto como origem. Esta decisão foi tomada em virtude do fato de os dois países serem os dois principais focos da disseminação da pandemia no mundo hoje. A situação da pandemia serviu de pretexto do governo libanês tomar tal decisão. Quanto à Índia, esta decisão não afeta muito o povo libanês, uma vez que a comunidade de libaneses na Índia é ínfima, assim como a comunidade de indianos no Líbano. Já quanto ao Brasil, não podemos dizer o mesmo, uma vez que o Brasil alberga a maior comunidade de libaneses e descendentes fora do Líbano, assim como o país dos cedros tem uma comunidade considerável de brasileiros.

Numa primeira análise, podemos dizer que tal decisão traz enormes prejuízos ao intercâmbio entre libaneses e descendentes que moram no Brasil e seus parentes e amigos no Líbano. Quem quiser viajar do Brasil ao Líbano terá que fazer quarentena em um terceiro país antes de dirigir-se do Brasil ao território libanês. Evidentemente, os líbano-brasileiros que tem ligações sociais e econômicas abrangendo Brasil e Líbano tem a sua movimentação restringida e negócios prejudicados, principalmente aqueles que exigem presença física.

Mas o que dizer desta decisão do governo libanês? Foi justa e acertada? Foi necessária? Ou foi um mero pretexto para algum interesse escuso? Ou foi um capricho de uma governo que perdeu o rumo e a direção? Voltando ao início da pandemia, quando houve a explosão de casos na China e depois na Europa, o primeiro país do Oriente Médio a ser assolado pela pandemia de uma forma mais trágica foi o Irã. O Irã tornou-se o primeiro foco da pandemia no Oriente Médio e, consequentemente, o principal exportador do coronavírus para todos os países da região. O governo libanês da época (que é o mesmo governo de hoje) não tomou nenhuma medida quanto à proibição de voos e viagens terrestres entre o Líbano e o país persa.

Quando o alvo era o Irã, o governo libanês foi omisso, e permitiu que o fluxo de viagens entre o Líbano e o Irã mantivesse-se de uma forma habitual, mesmo sob a ameaça real de o coronavírus acabar instalando-se no Líbano, vindo do país persa. Foi o que acabou acontecendo. O Líbano tornou-se um dos principais focos da pandemia no mundo árabe, com elevados índices de contaminação e mortalidade. Em nenhum momento o governo libanês cogitou restringir viagens entre o Líbano e o Irã, mesmo com pressões de amplos setores da sociedade libanesa. Já no caso do Brasil, e muito tardiamente depois da explosão da pandemia, o governo libanês surpreendeu ao restringir a movimentação de pessoas entre o seu território e o território do estado que possui a maior comunidade libanesa no mundo. Como explicar esta patente e gritante contradição?

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De fato, o governo libanês, há cerca de duas décadas, vive sob o domínio da milícia armada do Hezbollah. Esta milícia constitui um estado paralelo no Líbano, possuindo mais poder e força do que o próprio estado libanês oficial, com seus três poderes. Esta milícia tem ligações assumidas com o governo teocrático dos aiatolás no Irã. O líder libanês do Hezbollah, o sayed Hassan Nasrallah, já reconheceu publicamente em mais de uma situação ser um mero soldado do estado iraniano e que todo o patrocínio e financiamento da sua milícia é proveniente do Irã. Portanto, o Hezbollah, mesmo sendo composto por libaneses e tendo sede no Líbano e atuação política e paramilitar no Líbano, na Síria e no Iraque, desde a sua fundação está a serviço dos interesses do governo iraninano e não aos interesses do estado libanês. Partindo daí, podemos entender como o governo libanês nunca proibiu vôos e viagens entre Líbano e Irã, enquanto não hesitou ao fazer isto no caso do Brasil.

Uma decisão isolada do governo libanês significa muito mais que uma medida sanitária. Num país com um governo sério e idôneo poderíamos pensar em um governo tentando proteger os seus cidadãos do terrível coronavírus. Mas este está longe de ser o caso do governo libanês atual e tantos outros que o antecederam. O Líbano de hoje é um estado falido em todas as esferas: político, econômico, social, educacional, cultural, ambiental e urbanístico. Num estado como este podemos entender como medidas tão contraditórias e controversas são tomadas, como a medida da proibição das viagens entre Líbano e Brasil. Trata-se de um estado refém, cujo sequestrador é o seu algoz, que tem nome e sobrenome e, o é que muito pior, assume seus atos de uma forma pública, sem temer condenação ou punição.

A decisão do governo libanês atual de proibir viagens entre Líbano e Brasil é a ponta do iceberg de um estado mergulhado no mais absoluto marasmo. Há menos de dois anos o governo libanês confiscou as poupanças de seus cidadãos e proibiu saques bancários com valores mais altos. Em paralelo, o valor da moeda local, a libra libanesa, sofreu uma queda livre, sofrendo uma das maiores desvalorizações de sua história. Para piorar a situação, os produtos e serviços sofreram um encarecimento assustador. Estes fatos acabaram levando milhares de libaneses à pobreza e à miséria. Enquanto isso a classe política libanesa e a milícia do Hezbollah seguem enriquecendo e prosperando com o dinheiro ilícito roubado e desviado do povo libanês, a maior vítima da milícia ligada ao governo de Teerã.

Além disso, esta decisão questionável também revela um outro fato merecedor de destaque: o descaso das autoridades libanesas para com a comunidade libanesa no Brasil. Aliás, este descaso não vem de hoje, embora em épocas de outrora houve um olhar mais próximo de governos libaneses para a comunidade libanesa do Brasil, como já aconteceu na época do premiê Rafic Al-Hariri, que foi tragicamente assassinado em 14 de fevereiro de 2005, em Beirute. A corte internacional de Haia, em meados de 2020, condenou um membro do Hezbollah como sendo o autor do estrondoso crime. O premiê Al-Hariri visitou o Brasil mais de uma vez, e procurou fortalecer os laços entre libaneses e brasileiros, com um olhar especial para a comunidade libanesa no Brasil.

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De um governo que maltrata seus cidadãos e vive sob a égide de uma milícia de ideologia teocrática iraniana, que patrocina e protege o contrabando, o tráfico de drogas e de armas, não poderíamos esperar uma atitude diferente em relação a seus conterrâneos e seus descendentes que vivem no além-mar em terras brasileiras. A proibição de viagens entre Brasil e Líbano, e vice-versa, foi mais uma das inúmeras atitudes arbitrárias e questionáveis do estado presidido pelo presidente Michel Aoun, aliado e protegido da organização paramilitar do Hezbollah, verdadeiro dono do Líbano hoje.

Tradicionalmente, a comunidade libanesa do Brasil tem ajudado muito mais a sua pátria de origem do que tem recebido atenção e ajuda desta última. Imigrantes libaneses e seus descendentes contribuíram muito para a construção do Líbano moderno. Algumas regiões do Líbano, como o distrito do Bekaa Ocidental, tiveram o seu desenvolvimento intimamente ligado a remessas e investimentos dos imigrantes da América Latina e seus descendentes, com especial destaque para a comunidade libanesa no Brasil. No Bekaa Ocidental, em várias cidades, desde residências para uso próprio, até empresas e estabelecimentos comerciais, passando por centros educacionais de respeito, tudo isso teve contribuição decisiva do dinheiro investido e remetido pela comunidade libanesa no Brasil.

Para concluir, podemos dizer que a forma como o governo libanês tem lidado com a comunidade libanesa no Brasil durante todo este período da pandemia revela a arbitrariedade e o descaso do governo do país dos cedros para com a sua maior comunidade fora do seu território nacional. Até as emissoras de televisão de outros países árabes, como os do Golfo e do Norte da África, e as emissoras árabes da Europa, têm dado mais atenção ao Brasil e às suas diversas comunidade árabes (entre elas a libanesa) do que as emissoras libanesas, que nunca se deram ao trabalho de enviar correspondentes ao Brasil ou de entrevistar membros da comunidade libanesa.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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