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Líbano: sectarismo e xenofobia no país da diáspora!

Criança síria em um campo de refugiados em Beirute, Líbano, 8 de março de 2013 [Rime Allaf/Twitter]
Criança síria em um campo de refugiados em Beirute, Líbano, 8 de março de 2013 [Rime Allaf/Twitter]

O Líbano é um país sui generis no Oriente Médio e no mundo como um todo. É um estado que foi fruto das duas grandes guerras do sec XX, e que ganhou a sua independência em 22 de novembro de 1943. Líbano, assim como os atuais estados de Síria, Jordânia e Palestina ocupada (que engloba o estado sionista de Israel, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia), faz parte historicamente da Grande Síria. Com a derrota e desintegração do Império Turco-Otomano na Primeira Guerra Mundial, as potências ocidentais vitoriosas, junto com a União Soviética, criaram estados com fronteiras artificiais em todo o Levante e Oriente Médio, estados estes que atendem somente aos interesses das potências imperialistas, em detrimento dos genuínos interesses e autênticas aspirações dos povos da região. Sob esta óptica é possível entender uma miríade de fatos, entre eles, para citar apenas como exemplos ilustrativos, a Nakba Palestina e a criação da frágil e instável República do Líbano.

O pano de fundo para a instabilidade no Líbano, e em todo o Oriente Médio, estava montado com as divisões perpetradas, na região, pelas potências globais. A bem da verdade, o Líbano desde o rascunho de sua criação pela França, em 1920, sob o pomposo nome de “Estado do Grande Líbano”, nunca teve os elementos geopolíticos e econômicos suficientes para garantir a sua soberania. Desde então, este pequeno estado árabe levantino sempre esteve sob a influência de potências regionais e globais, nunca chegando a gozar de nada próximo de uma verdadeira autonomia. Esta instável e frágil situação nas terras libanesas foi a responsável pela sangria constante de pessoas para os quatro cantos do planeta, desde o final do séc XIX até os dias de hoje.

O país da diáspora

Numa cena muito breve da megaprodução do cinema norte-americano, o filme “Titanic”, clássico mundial produzido em 1997, e uma das maiores bilheterias da história da sétima arte, aparece uma família árabe, com sotaque levantino (provavelmente libanês), tentando salvar-se no naufrágio. Era uma família de emigrantes levantinos, com condições socioeconômicas desfavoráveis (ocupantes da terceira classe do transatlântico), que estava indo em direção aos Estados Unidos para tentar a vida lá. Em 1912, o ano do naufrágio do Titanic, já havia uma colônia sírio-libanesa considerável na “América” (referência comum aos EUA pelos levantinos), tendo como um dos mais destacados membros o escritor, poeta, pensador e artista plástico libanês Gibran Khalil Gibran, que emigrou do Líbano no final do século XIX.

De fato, a diáspora libanesa atinge todos os continentes do globo terrestre, chegando aos cantos mais longínquos e inacessíveis, e tendo o empreendedorismo e a intrepidez como marcas dos imigrantes libaneses e seus descendentes. Como é largamente difundido e conhecido, a maior comunidade de libaneses fora do Líbano fica no Brasil, com presença libanesa marcante também nos EUA, Canadá e Austrália. Há comunidades libanesas em praticamente todos os países das Américas. Na costa ocidental da África, em países como Costa do Marfim, Senegal e Angola, encontramos também comunidades libanesas com forte presença. Na Europa, principalmente na França e Alemanha, mas não somente nestes dois países, há importantes comunidades libanesas.

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Algumas obras literárias contemporâneas escritas em árabe abordaram o tema da diáspora libanesa em particular, e levantina em geral, com relatos que misturam ficção com realidade e fatos históricos dos primórdios da emigração levantina no final do século XIX e início do século XX. Destas obras citamos o romance “América”, escrito pelo libanês Rabih Jaber. Esta obra relata a saga de uma mulher libanesa que emigra do vilarejo de Betater, Monte Líbano (distrito de Alley), em direção aos EUA. Mostra o estrondoso sucesso conseguido por esta imigrante, que começou a vida como caixeira-viajante (outra nomenclatura para “mascate”) e terminou como grande empresária, com patrimônio respeitável. Uma outra obra neste sentido é da escritora síria Lina Howayan Al-Hassan, de título “Diamante e Mulheres”, aborda o tema da emigração libanesa e síria para a França e o Brasil no final do século XIX e início do século XX. Embora não tenha sido tratada de forma profunda, a presença da imigração sírio-libanesa em obras literárias árabes revela a importância que tal fato tem na vida de todo o Levante.

Ao abordar o tema da diáspora libanesa, tanto o povo libanês quanto as comunidades libanesas espalhadas no mundo costumam lembrar-se das histórias de sucesso e dos finais felizes. Abundam as citações de figuras proeminentes de imigrantes libaneses e descendentes que conseguiram grandes sucessos na política, na literatura, na medicina, nos negócios e nos demais diversos campos de atividade. Mas sabemos que a realidade não é feita somente de sucesso, e que histórias trágicas não são tão infrequentes assim no contexto da diáspora libanesa. No entanto, a tendência do ser humano é sempre exaltar os vencedores e bem-sucedidos; aqueles que ficam pelo caminho e que, por acaso, não tem tanta sorte, acabam sendo esquecidos, sem voz nem vez.

O Líbano que existe hoje deve muito da sua sobrevivência às inúmeras comunidades libanesas espalhadas em todos os cantos da terra. Imigrantes libaneses e seus descendentes investiram e investem generosamente desde os primórdios da diáspora em sua terra de origem. As remessas do exterior sempre tiveram um peso importante na economia do Líbano. O país, que hoje vive uma de suas piores crises políticas e econômicas de sua história, conta com a prestimosa e imprescindível ajuda das comunidades de imigrantes libaneses e descendentes. Depreende-se daí que o libanês que ficou no Líbano seria um ser humano tolerante com os não-libaneses, já que está acostumado a ouvir, desde a mais tenra idade, as heróicas histórias de conterrâneos seus no além-mar. Do povo, cujos filhos são generosa e gentilmente recebidos nos mais variados países do planeta, esperar-se-ia uma atitude tolerante e amistosa para com os estrangeiros que buscam refúgio na sua terra. Mas, infelizmente, esta não é a realidade do povo libanês, talvez desde a criação do estado libanês. De fato, duas máculas mancham toda a história do Líbano contemporâneo, com tendência ao acirramento nos dias de hoje, a saber: sectarismo e xenofobia.

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Sectarismo

Em tese, e segundo a sua constituição, inspirada em boa parte na constituição francesa, o Líbano é um estado laico e uma democracia parlamentarista, com garantia às liberdades individuais e de expressão. Mas isto é somente em tese. Na prática, desde a sua independência, o que rege a vida política, econômica e social, no país, é o tal do “pacto nacional”, acordo verbal de cavalheiros firmado entre os primeiros presidente e premiê do Líbano independente, Bechara Al-Khoury, cristão maronita, e Riad Al-Solh, muçulmano sunita. De longe, este pacto foi a mais trágica ocorrência na vida do já frágil Líbano. Foi a semente geradora das discórdias, conflitos e crises que continuam a assolar o país até hoje, contribuindo com a sangria demográfica da emigração que persiste até hoje.

O chamado “pacto nacional”, ao exaltar a convivência pacífica entre os mais de quinze grupos religiosos muçulmanos e cristãos que compõem o tecido do povo libanês, acabou consagrando o sectarismo como modo de vida do estado e povo libaneses. As consequências foram as mais catastróficas possíveis. A constituição nacional tornou-se mera formalidade. O que passou a mandar e desmandar no país foi o pacto nacional, com todas as suas ominosas consequências. Todos os cargos políticos, administrativos e militares do estado libanês passaram a ser regidos pelo sectarismo. O presidente da república só pode ser cristão maronita. O presidente do parlamento só pode ser muçulmano xiita. O premiê só pode ser muçulmano sunita. O comandante do exército e o presidente do banco central são cargos exclusivos dos cristãos maronitas. E estas regras, embora não sejam leis formais, têm uma força maior que qualquer lei no Líbano até esta hora. Outros grupos religiosos minoritários, como drusos, cristãos ortodoxos e católicos, têm cargos de menor expressão.

Uma das causas mais importantes da guerra civil libanesa, que durou de 1975 a 1990, foi o próprio sectarismo. Os muçulmanos sentiam-se injustiçados com a hegemonia cristã maronita sobre o estado libanês. Sentiam-se como cidadãos de segunda categoria, num estado que foi criado e moldado pelos franceses para atender aos interesses exclusivos dos cristãos maronitas, em detrimento dos interesses dos demais grupos religiosos do país. A grave crise política e econômica que o Líbano atravessa hoje tem também as suas origens no sectarismo.

Podemos dividir o sectarismo libanês em três períodos hegemônicos: 1) período da hegemonia maronita que durou da independência em 1943 ao término da guerra civil em 1990; 2) período da hegemonia sunita que durou de 1990 a 2005, ligada à figura do líder e premiê Rafic Al- Hariri, e que terminou com o seu trágico assassinato; 3) período de hegemonia xiita, que dura desde 2005 até os dias de hoje. Portanto, o estado cuja constituição determina a democracia parlamentarista e defende as liberdades, tornou-se tudo menos democrático e livre, uma vez que as lutas entre as diversas comunidades religiosas libanesas, muitas vezes patrocinadas e estimuladas pelo exterior, têm abortado a possibilidade de paz e harmonia. O sectarismo que assola o Líbano é, sem dúvida, responsável pelo derramamento de muito sangue inocente, e pela geração de intermináveis guerras quentes e frias.

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Xenofobia

A xenofobia, no Líbano, está intimamente ligada ao sectarismo, isto se não for filha ilegítima deste insano e arraigado fenômeno. É de estranhar-se sobejamente existir tal aberração num país marcado pela diáspora de seus filhos. O mais óbvio e lógico seria o Líbano ser um dos estados mais acolhedores e hospitaleiros para com os estrangeiros que se instalam no país dos cedros. Na terra em que as diversas instituições religiosas muçulmanas e cristãs marcam forte e milenar presença sobram rituais e faltam humanidade, tolerância e compaixão. Ali as vítimas da xenofobia são as comunidades de refugiados palestinos e sírios, que foram obrigados a deixar as suas terras em virtude da guerra.

Com a Nakba em 1948, palestinos afligidos com o terrorismo sionista buscaram refúgio principalmente nos estados vizinhos da Jordânia, Síria e Líbano. Os habitantes da Galiléia, norte da Palestina, buscaram refúgio principalmente no vizinho Líbano. Campos de refugiados palestinos foram criados do Sul ao Norte do Líbano. Desde então, os palestinos vivem como cidadãos de segunda categoria no Líbano, sem os mínimos direitos de cidadania. Nenhum descendente dos refugiados palestinos tem direito à nacionalidade libanesa. No atual governo do presidente Michel Aoun, extremista da direita cristã maronita, com caracteres fascistas, e sob o domínio do Hezbollah, milícia xiita de influência iraniana que dá as cartas nos bastidores libaneses, a xenofobia sofrida pelos palestinos atinge uma dimensão extrema.

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Desde o início do conflito iniciado na vizinha Síria em março de 2011, no contexto da chamada “Primavera Árabe”, milhares de refugiados sírios têm afluído ao Líbano, instalando-se em campos de refugiados em precárias condições. Os refugiados que, muitas vezes, tinham perdido parentes, amigos, casas, terras e bens materiais, não encontraram no Líbano um abrigo receptivo. São alvos de xenofobia e preconceito nos âmbitos governamental e popular. Em algumas cidades do Líbano, cemitérios recusaram-se a enterrar refugiados falecidos.

Ao afirmarmos que a xenofobia é a filha ilegítima do sectarismo no Líbano, não estamos exagerando ou lançando mão de recursos linguísticos de efeito. Dado que a maior parte dos refugiados palestinos e sírios são muçulmanos sunitas, isso acabou provocando ressentimento e temor dos grupos religiosos libaneses não-sunitas, principalmente cristãos e xiitas. Tanto é verdade esta afirmação, que os municípios libaneses que deram abrigo aos palestinos e sírios são municípios de maioria sunita.

Palavra final

Sectarismo e xenofobia são a origem dos males que afligem o Líbano desde a sua criação como estado independente. Não há a mínima possibilidade de o Líbano auferir de paz, harmonia e prosperidade se estes dois flagelos não forem energicamente combatidos até a sua abolição completa. É importante, neste contexto, que potências regionais e globais mantenham-se isentas em relação aos conflitos sectários libaneses.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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