Portuguese / Spanish / English

Middle East Near You

Caso de brasileiras prostituídas em Doha desencadeia Operação Harem BR de tráfico de mulheres

Polícia Federal efetua mandado de busca e apreensão em investigação de esquema de tráfico de mulheres, em São Paulo, 27 de abril de 2021 [Divulgação/Polícia Federal]
Polícia Federal efetua mandado de busca e apreensão em investigação de esquema de tráfico de mulheres, em São Paulo, 27 de abril de 2021 [Divulgação/Polícia Federal]

Ontem (2), uma reportagem do Fantástico, da TV Globo, divulgou áudios de Rodrigo Otávio Cotait, que mostram como funcionava seu esquema de tráfico de mulheres. Ele foi preso durante a operação Harem BR da Polícia Federal junto a outros suspeitos, como o empresário libanês naturalizado brasileiro, Wissam Nassar, acusado de contratar menores de idade.

As prisões foram efetuadas pela Polícia Federal de Sorocaba (SP) na semana passada, 27 de abril; o grupo acusado de tráfico internacional teria explorado mais de cem brasileiras, incluindo menores de idade. A operação Harem BR, que efetuou as prisões, foi um desdobramento da operação que investigava um grupo de estelionatários que praticava fraudes na internet através da clonagem de cartões de crédito. Nessa operação foram descobertas compras de passagens aéreas para duas mulheres que viajaram para Doha, no Catar. Ao serem descobertas, elas relataram que eram vítimas de exploração sexual e cerceamento de direitos. Além disso, há indícios de que a quadrilha tenha utilizado documentos falsos para as viagens das vítimas. Os criminosos vão responder pelos crimes de tráfico de mulheres, favorecimento de prostituição de vulneráveis e falsidade ideológica.

A polícia afirma que Rodrigo Cotait, de 44 anos, era responsável por escolher brasileiras para negociá-las em outros países. Para se aproximar, ele usava sua agência de modelos e acordos com sua marca de maquiagem. A Justiça Federal autorizou a quebra do sigilo das redes sociais, aplicativos de mensagens e do celular do Rodrigo. Em áudio ele afirma “exportar mulher” para Estados Unidos, Oriente Médio, Austrália, Singapura, China, Nova Zelândia, Europa e Bolívia.

LEIA: O governo libanês proíbe viagens do Brasil ao Líbano e vice-versa – uma análise política

“As meninas que viajam comigo vêm todas na minha casa. Só mando viajar produto de exportação que tem meu selo de qualidade”, diz ele.

Em um outro áudio pelo whatsapp, Cotait fala com uma sócia sobre um pedido, que dizia ser de um tipo de viagem VIP. “Tem um outro tipo de viagem que é assim: é família real do Oriente Médio. Eles querem meninas até 22, 23 anos. Tem que ser magra e alta. Esse tipo de viagem dá muito dinheiro.”

Um dos suspeitos de contratar menores de idade é o empresário Wissan Nassar, segundo o R7, ele é libanês naturalizado brasileiro e dono de um shopping em Ciudad del Este, no Paraguai.

“Eu faço isso pra ele faz três anos, amor. Nunca deu um problema, eu já abordei menina menor, consegui levar. Demora um tempo, tem todo um sigilo, confidencialidade, não abre nome do cliente. Isso demora dois meses”, diz Rodrigo sobre Nassar.

Nassar, conhecido como “Willian da Pioneer”, teria sido cliente há três anos de Rodrigo, e chegava a gastar 200 mil reais por mês para manter relações sexuais com jovens, ele preferia influenciadoras digitais e youtubers.

Ele chegou a enviar a Rodrigo uma lista com nomes de 44 adolescentes e jovens famosas na internet, solicitando que fossem aliciadas. O agenciador chegou a reclamar que a exigência de meninas com dois ou três milhões de seguidores dificultava o processo.

“Ele tava me pedindo ultimamente umas meninas tipo 2 milhões de seguidores, 3. Eu falei: William: quando é assim, esquece, filho, eu não vou fazer, meu. Não dá. Não tem como eu chegar numa menina dessa aí com minha marca de make e falar de putaria, você tá maluco. Tem que ser menina desconhecida, que ninguém nunca ouviu falar na vida, aí eu faço pelo meu individual, que é fechado, nem tem meu nome. Meu Deus, não sei que fim vai levar isso aí não viu”, disse William, segundo uma transcrição feita pela PF.

A cantora de funk Mc Mirella teria sido uma das vítimas do empresário quando ainda era menor de idade, ela foi aliciada mas o crime não foi concretizado. A cantora testemunhou como vítima da quadrilha. “A Mirella consta como vítima, testemunha porque essa quadrilha contratou ela, tentou levá-la, houve realmente essa situação, mas não se concretizou”, declarou a advogada da cantora, Adélia Soares.

A modelo brasileira conhecida como Núbia Oliiver foi apontada como sócia e aliciadora do esquema. “Te passei umas meninas aí para te ligarem. Essas eu sei que são do Rio [de Janeiro]”, afirmou a modelo em conversa com Cotait. “Você acha que R$ 10 mil a gente consegue cobrar? Aí a gente dá R$ 5 mil para ela e divide R$ 5 mil”, perguntou Rodrigo. “Só não usa meu nome, porque como a gente é mais conhecida, não gera fofoca, enfim”, respondeu Núbia.

O Fantástico narrou o depoimento de uma das vítimas que foi enviada para Doha, no Catar.

“Em Doha eu ficava muito tempo sozinha, uma mulher do grupo que mora lá na Europa controlava nossos passos por telefone. O motorista da equipe é que me levava até os clientes, diziam que era preciso ser assim para evitar problemas com a imigração”, diz a vítima. Em outro áudio, Cotait diz que “a gente põe um pouco de medo na menina, o motorista, porque tem menina que se sente muito atrevidinha, põe as asinhas de fora”.

Mesmo com as provas, Rodrigo, que foi preso em seu apartamento de luxo em São Paulo, negou o crime. “Eu sou um homem solteiro, recebo muitas mulheres no meu apartamento. Eu não me considero um fora da lei, um bandido”, disse ele. Outras cinco pessoas foram presas, três no Brasil, em Foz do Iguaçu (PR), Goiânia (GO) e Rondonópolis (MT), uma em Portugal e outra na Espanha. O empresário Wissam Nassar foi preso em Foz do Iguaçu.

As investigações, que começaram em 2019, levaram a nove mandados de busca e apreensão e a oito mandados de prisão preventivas, cinco desses mandados foram incluídos na lista da INTERPOL, do Paraguai, Estados Unidos, Espanha, Portugal e Austrália, por investigados estarem fora do país.

LEIA: Mostra retrata muçulmanos de origem árabe africana

Categorias
América LatinaÁsia & AméricasBrasilCatarNotíciaOriente Médio
Show Comments
Show Comments