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Cecília Meireles e o encantamento árabe na biblioteca do Pavilhão Mourisco

Foto do antigo Pavilhão Mourisco (1907-1952), em Botafogo, Rio de Janeiro [Prefeitura do Rio de Janeiro/ Arquivo da cidade]

No início do século XX, a vista de Botafogo, no Rio de Janeiro, contava com um prédio que parecia não pertencer ao local, uma espécie de palácio à beira mar, com arquitetura de inspiração árabe. Conhecido como Pavilhão Mourisco, ele foi palco da primeira biblioteca infantil brasileira, um projeto ousado que aproveitou o cenário para criar um espaço de encantamento, com decoração inspirada nos contos árabes das Mil e Uma Noites. O projeto foi idealizado pela poetisa e educadora Cecília Meireles, precursora do movimento da escola nova e defensora da literatura infantil. Ela criou um espaço extremamente inovador que ultrapassou os limites de uma biblioteca e tornou-se um centro cultural.

O Pavilhão Mourisco, concebido pelo arquiteto Alfredo Burnier, foi aberto em 1907, para servir como um café restaurante, no fim da Avenida Beira-Mar, na praia de Botafogo. Ele tinha um estilo de arquitetura neoislâmico, com cinco cúpulas douradas, revestido por cerâmicas e azulejos espanhóis e colunas e teto decorados com inscrições árabes. O espaço começou a entrar em decadência nos anos 20, e estava desocupado quando abrigou a primeira biblioteca infantil pública, gerida por Cecília Meireles.

Modelagem em 3d do Pavilhão Mourisco, por Pedro Rodrigo Costa

A Biblioteca do Pavilhão Mourisco, criada em 16 de abril de 1934, se insere no contexto do movimento da Escola Nova, em que se batalhava pela renovação do ensino, com uma escola pública, gratuita e laica para todos. Com o país nesse contexto de mudanças dos educadores reformistas, Cecília Meireles assumiu grande protagonismo; assinou junto a Anísio Teixeira e outros educadores o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932; como jornalista, escrevia em defesa das reformas no Diário de Notícias,  e realizou um inquérito sobre a literatura infantil, que serviu de base para a criação da fascinante biblioteca infantil do Pavilhão Mourisco.

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Segundo a pesquisadora Jussara Santos Pimenta, autora do livro “Leitura, Arte e Educação: a Biblioteca Infantil do Pavilhão Mourisco (1934 – 1937)”, Meireles tinha grande paixão na questão da literatura infantil, ainda muito escassa no país na década de 30, além de escrever livros para criança, ela também se preocupava com o acesso,  para ela “pensar em organizar criteriosamente uma biblioteca infantil é ter de lutar, desde logo, com uma dificuldade que inutiliza esse bom propósito: a falta de livros para crianças, entre nós”.  A autora, educadora e poetisa se dedicou a isso, construindo a Biblioteca Infantil do Pavilhão Mourisco.  O projeto foi viabilizado devido a circunstâncias propícias; em 1931, Anísio Teixeira assumiu a Diretoria Geral de Instrução Pública do Distrito Federal e uma de suas iniciativas foi a criação de bibliotecas.

Vista do Pavilhão Mourisco, na enseada de Botafogo, Rio de Janeiro [Harriet Chalmers Adams/ Acervo Biblioteca Oswaldo Cruz]

A biblioteca engrandeceu o visual mágico e árabe do Pavilhão Mourisco em seu interior, com um cenário inspirado nas Mil e Uma Noites, ambientado pelo artista plástico Fernando Correia Dias, marido de Cecília na época. A decoração era um constante estímulo à criatividade, como um portal para um mundo mágico. O palco do teatro chamava-se “Caverna Maravilhosa” e tinha uma lâmpada do Aladim, a sala de música e cinema reproduziam o fundo do mar e a sala de leitura era um amplo salão, com vidraças coloridas, mesas alegres, iluminadas com postes de barro com flores, várias estantes com os livros ao alcance das mãos infantis. “Uma das coisas melhores da Biblioteca é um certo tapete mágico, que me foi oferecido, e sobre o qual estou vendo desabrocharem essas histórias encantadas em que (…) quase não acreditamos mais…”, contou Cecília em carta a Fernando de Azevedo.

A biblioteca era constituída por nove seções: livros, gravuras, cartografias, recortes, selos e moedas, música e cinema, atividades artísticas, propaganda e publicidade e a última de observações e pesquisas. Sua inauguração aconteceu em 14 de agosto, onde Cecília afirmou que o espaço seria um “local de encantamento e de pesquisa, um órgão cooperador da educação primária”. O termo “biblioteca diz muito pouco das proporções a que vai atingir a esfera de ação deste departamento. Acho que iremos denominar ‘Centro de Cultura Infantil’. Aqui vai ser o Bureau da Criança, digamos assim”, disse ela.

Em carta ao educador Fernando de Azevedo, Cecília demonstrou suas preocupações com a falta de verba da biblioteca. “Agora estou vivamente empenhada em coisas transcendentes.Uma delas é arranjar verba para os serviços da Biblioteca.Tenho certas tentações de me declarar comunista oficialmente, para ver se arranjo uma subvenção de Moscou… Porque, de outro modo, tudo está obscuro demais, embora para uma fundação lendária, instalada num pavilhão de vidro, e dirigida por uma criatura tão improvável como eu…”, escreveu em dois de maio de 1934. Além da verba própria para a biblioteca, que não era suficiente, o acervo foi constituído de muitas doações da própria Cecília, de outros educadores e de editoras.

O espaço concretizou o que tantos já sonharam, e ainda sonham, para a biblioteca ideal. Um lugar de aprendizado, prazer, construção e formação de leitores e sujeitos críticos e autônomos. Os alunos de escolas públicas iam para o local depois das aulas e lá e desenvolviam atividades escolares, de pesquisa, leitura e também o seu senso estético e artístico. A biblioteca tornou-se o local favorito das crianças e também contava com a simpatia da imprensa e público.

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O poeta Geir de Campos escreveu no Diário de Notícias, em 15 de novembro de 1964, sobre a sua experiência como frequentador da biblioteca, em 1935, segundo ele “únicos divertimentos de garoto pobre naqueles poucos meses”.

“O Pavilhão Mourisco passou a ser o meu divertimento predileto,pois, além do salão de leitura, a biblioteca tinha também um setor de manualidades (modelagem, pintura, desenho), um de brinquedos e jogos (foi onde encontrei o primeiro “mecanô”), e uma sessãozinha de cinema toda quinta-feira. O dia triste para mim era o Domingo, quando o Pavilhão não abria”, conta Campos. “Também me lembro de que qualquer dificuldade pedagógica ou disciplinar era comunicada a Dona Cecília, uma professora morena e alta, de sorriso para quase tudo, que tudo resolvia e ordenava. E vez por outra Dona Cecília tirava-se de seus cuidados administrativos para conversar com os frequentadores mirins do Pavilhão Mourisco, sobre os livros lidos ou a ler, os brinquedos brincados ou a brincar, os filmes vistos ou a ver, um pouco da vida vivida ou a viver.”

Cecília Meireles [Arquivo Nacional]

Apesar do sucesso do projeto, a biblioteca não durou e o Pavilhão Mourisco foi apagado de nossa história. Com a Era Vargas e a grande repressão ao comunismo, Anísio Teixeira foi demitido em 1935, acusado de fazer parte do Levante Comunista. O Pavilhão perdeu seu principal apoiador no governo, o que garantia a sua existência. Com a instauração do Estado Novo, em 1937, o centro foi invadido e fechado em novembro. A acusação era de haver um livro comunista no acervo, tratava-se de “As Aventuras de Tom Sawyer”, de Mark Twain, clássico da literatura americana. Cecília Meireles até tentou argumentar contra a decisão, informando que o livro era um clássico usado amplamente por escolas no mundo inteiro, inclusive Estados Unidos, França e Itália, mas não obteve resposta.

Ficou claro que era apenas um pretexto para fechar o poderoso centro que armava tantas crianças com senso crítico e pensamento livre, fatos perigosíssimos para a manutenção de uma ditadura. E também para podar Cecília Meireles, considerada comunista. O espaço antes mágico tornou-se um ponto de coleta de impostos, até ser abandonado e então demolido em 1952 para a construção do Túnel do Pasmado. Todos os livros que antes rodavam na mão de crianças foram amontoados e abandonados em uma escola na zona Sul do Rio.

Após o fechamento da biblioteca, Meireles continuou a defender a importância do livro infantil. No livro “Problemas da literatura infantil”, que reúne suas palestras de 1949, em Belo Horizonte, ela escreve: “Se em tal assunto pudesse a autora exprimir alguma aspiração, talvez fosse a da organização mundial de uma Biblioteca Infantil,que aparelhasse a infância de todos os países para uma unificação de cultura, nas bases do que se poderia muito marginalmente chamar ‘um humanismo infantil’. Na esperança de que, se todas as crianças se entendessem, talvez os homens não se hostilizassem. Isto, porém, não passa de uma aspiração, nestas páginas. Fora do outono certo, nem as aspirações amadurecem”.

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O Dia Nacional do Livro Infantil, 18 de abril, instituído em 2002, homenageia o escritor Monteiro Lobato, entretanto Cecília Meireles, que completaria 120 anos em novembro, merece ser lembrada pela sua luta em defesa da literatura infantil e pela criação da primeira biblioteca infantil brasileira. Nossa história perdeu muito com o fim do centro Mourisco; e talvez, se tivesse continuado, hoje teríamos um outro público leitor, jovens com o prazer de ler, criativos, críticos, artísticos e atuantes. Imaginar um Brasil em que essa experiência fosse replicada em todos os cantos ainda parece utópico, mas seria o melhor caminho para a formação democrática de leitores e indivíduos cultos. A experiência pioneira de uma biblioteca infantil, mesmo que “fora do outono certo”, entretanto, foi bem sucedida: inspirou bibliotecas do brasil inteiro a terem uma seção infantil e projetos educativos, influenciou completamente a história da educação brasileira. Provou a importância de um espaço pensado para crianças e com atividades que as desafiem e inspirem. E com certeza, teria crescido muito não fossem as ofensivas de um governo reacionário.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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