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O Irã não é apenas uma narrativa de conflitos.

Entrevista com a professora e pesquisadora de jornalismo para a paz, Cilene Victor
Cilene Victor [Arquivo pessoal]
Cilene Victor [Arquivo pessoal]

O Irã é tema recorrente nos jornais e mídias de todo o mundo, inserido em conflitos políticos globais. Pouco se discute sobre sua população e história. Um país carregado de estereótipos e conceitos que foram construídos ao longo do tempo.

Cilene Victor, jornalista, professora e pesquisadora, encontrou no Irã base para sua pesquisa sobre jornalismo de paz e humanitário, esteve no país e lá descobriu novas narrativas e um Irã pouco citado nas mídias.

Em entrevista ao Monitor do Oriente Médio, Cilene Victor fala da construção dessas narrativas midiáticas em temas delicados como islamofobia e terrorismo.

Qual foi o objetivo de sua viagem ao Irã?

Em 2018, fui uma das organizadoras de um livro sobre terrorismo, ao lado de Roberto Chiachiri e Mustafa Göktepe, uma iniciativa do Centro Cultural Brasil-Turquia e, no Programa de Pós graduação da Universidade Metodista, iniciei a orientação da mestranda Lilian Sanches, que também pesquisava sobre o tema. Ao longo da orientação, percebemos nos documentos analisados uma visão estereotipada dos países muçulmanos, em especial o Irã.

Naquele mesmo ano, decidimos fazer uma viagem ao país persa, o que aconteceu no ano seguinte. Havia muita discussão sobre islamofobia e como é que se constrói essa ideia do terrorismo associado ao Oriente Médio e como parte da imprensa ocidental constrói este ideal. Fui como pesquisadora, trabalhando com a temática do Jornalismo Humanitário de Paz.

É importante salientar que a paz tem sido tratada de forma muito estreita, muito reducionista. Minha ida para o Irã foi em busca de novas narrativas. Chegamos lá um dia depois do tuíte de Donald Trump ameaçando atacar o país. Essa experiência foi singular porque vivemos bem essa forma de narrativa. Mas, no Irã, vimos um clima de total tranquilidade da população no mesmo momento em que a mídia ocidental fazia toda uma pressão relacionada a uma possível guerra, quando na verdade não era nada disso.

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Como foi a experiência de pesquisadora no Irã?

Foi excelente. As universidades iranianas não ficam em nada atrás das nossas universidades ou das que visitei em outros países. Geralmente, as pessoas têm uma ideia do Irã como um país atrasado por causa do embargo imposto pelos Estados Unidos. Mas lá, as universidades possuem uma enorme estrutura de laboratórios, de tecnologia e um corpo docente e discente com perfil internacional.

Qual a presença das mulheres iranianas na área acadêmica?

Participei de um evento em Teerã que era só com mulheres pesquisadoras, todas doutoras. Uma pesquisa da Forbes mostra que nas engenharias no Irã, diferentemente daqui no Brasil e, inclusive de países desenvolvidos, 70% das cadeiras de uma faculdade de engenharia são ocupadas por mulheres. Aqui, em curso de engenharia mulher é um pequeno grupo. No Irã é a maioria.

Mesmo para mim, que viajo bastante, confesso que fiquei muito surpresa com tudo o que vi no Irã. Todo país tem suas contradições, não trabalhamos com o ideal de que o país seja perfeito, maravilhoso. A mesma coisa vale para o Brasil, que está longe de ser um país maravilhoso, ou a França, Alemanha, do mesmo jeito. Mas é preciso entender que o Irã é completamente diferente do imaginário. O Irã não é representado midiaticamente, mas sim intensamente sub-representado por grande parte da mídia ocidental.

A mídia tem um papel relevante na imagem que temos do Irã?

Na verdade, ela apenas reforça, pois a mídia não é a única esfera pública, temos a escola, a universidade como exemplos. A questão é que a mídia é uma das mais potentes e importantes esferas públicas. É ela que vai fazer as pessoas terem contato com a realidade, com assuntos políticos, internacionais. Muitas vezes, não estamos diante do mundo, mas de um mundo midiaticamente representado. Nunca estou diante do Irã, estou diante do Irã midiaticamente representado.

E é essa sub-representação que deve ser observada na raiz da islamofobia, do mesmo modo que a mídia acaba legitimando esse preconceito que vem de fora para dentro das redações. O ápice da islamofobia é caracterizar todo muçulmano como terrorista. E aí quando ocorre uma situação, por exemplo, um mal-estar diplomático ou uma violação de direitos internacionais, como no caso da ameaça dos EUA de bombardear o Irã, você tem a opinião pública justificando uma invasão, um ataque ou guerra. Isso é muito presente no jornalismo de torcida, uma característica do jornalismo de guerra, de conflitos. Parte das pessoas passa a dizer e compartilhar nas mídias sociais que os Estados Unidos têm de invadir o Irã ou que o Irã tem de revidar, e acaba se limitando a essa questão sem estudar onde está a origem disso tudo.

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O que fazer para barrar esse tipo de narrativa?

Infelizmente, há a questão da língua. É importante que os pesquisadores iranianos consigam publicar mais em inglês ou espanhol, por exemplo, uma vez que poucos falam farsi [persa]. Uma grande referência hoje é o professor Mohammad Marandi da Universidade de Teerã, um especialista na relação Irã- Estados Unidos. Quando Soleimani foi assassinado e alguns jornais o identificaram como terrorista, seguindo a narrativa de Trump, o professor Marandi, ao ser entrevistado por alguns veículos estrangeiros, foi categórico: “uma pessoa não é terrorista porque o presidente dos Estados Unidos assim o deseja”. Ele acentuou que a temática do terrorismo não é simplista, demanda uma abordagem multifacetada, com observadores, especialistas no assunto.

Agora temos o trabalho do Monitor do Oriente Médio, que deve estar presente nas universidades, na formação dos jornalistas que vão cobrir essas temáticas. Algumas outras iniciativas estão surgindo, mas ainda é uma história de narrativa única e falta muito. Por outro lado, o Irã também tem de abrir um pouco mais para estrangeiros, pois não é fácil o visto para o país, claro que já mudou bastante e eu mesma já o consegui duas vezes. Nesse sentido, temos iniciativas para citar, como a Conferência Internacional de Estudos de Paz, em Kish, organizada pelo Centro Internacional para o Desenvolvimento da Paz, Cultura e Racionalidade, que tenho o privilégio de representar na América Latina. Essa conferência envolve todas as áreas, esporte, jornalismo, comunicação, filosofia, cultura, entre outras. Isso ajuda bastante a reduzir esses estereótipos em relação ao Irã e é aberto para pessoas do mundo inteiro.

O que isso tem a ver, por exemplo, com o terrorismo?

Tem a ver com o papel da pesquisa, do jornalismo, da investigação, com a urgência do jornalismo humanitário e de paz. À medida que fomentamos e não refutamos a representação estereotipada do Oriente Médio na mídia ocidental, nesse caso específico dos iranianos, xiitas, em especial, continuamos vendo chefes de Estado, como aqui no Brasil, transformando um substantivo em adjetivo, um povo, uma cultura, em um adjetivo negativo, sinônimo de radicalismo. Quantas vezes o presidente brasileiro usou a palavra ‘xiita’ como algo negativo?

Quando nós construímos essa narrativa em relação a um povo, nós de alguma forma legitimamos o preconceito. E este vai dar origem, obviamente, à islamofobia, que é fomentada pelos discursos de ódio e rapidamente associa o Islã ao terrorismo, os muçulmanos ao terrorismo. Assim é que se chega a representar, por exemplo, os iranianos de uma forma que justifique um ataque dos Estados Unidos.

Qual foi a importância de sua ida ao Irã?

A maior riqueza foi essa possibilidade de compartilhar com os meus alunos da graduação ao doutorado essas novas visões e narrativas sobre o Irã, sobre sua história e seu povo. Porque os países não são apenas os governos, nas suas políticas internas e externas. Por exemplo, quando falamos do Brasil e de seus encantamentos e riquezas, não estamos falando de um governo e sim de uma história e de uma cultura, assim como no Irã. Acredito que o que eu trouxe de lá foi principalmente isso.

A mídia está longe de abordar o Irã além dessa narrativa dos conflitos e isso vale para as mídias de esquerda também, acho que abordar o Irã única e exclusivamente do ponto de vista de resistência e de combate aos Estados Unidos é abafar também toda riqueza do país, seu povo, sua história, sua cultura. Novas narrativas são formas de resistência porque contribuem para derrubar as sub-representações. Isso não tira a legitimidade da luta, da resistência, mas amplia os olhares. Esse é um dos caminhos para falarmos em novas narrativas.

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