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França, islamofobia e violência

Entrevista com a antropóloga e coordenadora de estudos em contextos islâmicos, Francirosy Campos Barbosa

A França possui a maior população de muçulmanos da Europa Ocidental, cerca de 6 milhões. Muitos vieram de antigas colônias francesas. Porém, há um grande número dos que já nasceram no país. O islamismo é a religião que mais cresce no mundo.

Essa população tem sido alvo de políticas discriminatórias adotadas pelo atual presidente francês, Emmanuel Macron. Entre elas, está a proibição de meninas usarem seus hijabs (véu islâmico) nas escolas obrigatórias.

Porém, o que causou imensa revolta e pedidos de boicotes à França foi o apoio de Macron na disseminação de caricaturas do profeta máximo do islamismo, Maomé. Na religião islâmica é proibida a reprodução da imagem de figuras sagradas. Assim explica a professora e antropóloga Francirosy Campos, coordenadora do Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes (Gracias), em entrevista ao MEMO.

Como foi receber a notícia da decapitação do professor na França?

Essas notícias sempre vem carregadas de muita emoção, principalmente quando se trata da França. Já estava acompanhando a situação, a fala do presidente francês sobre o ensino de árabe nas escolas, as frases sobre o que ele diz sobre os muçulmanos e imaginei que algo poderia acontecer. No momento em que a França novamente faz esse discurso islamofóbico, um professor pede para os alunos muçulmanos saírem da sala se estiverem incomodados. Qualquer violência nos abala terrivelmente, e essa foi mais uma, de uma pessoa totalmente descontrolada. Acho errado falar que é uma pessoa com doença mental, pois é uma pessoa de má índole, é perverso e a perversidade tem nome e lugar. Me causou muita indignação, mas a minha indignação também é proporcional à que tenho com o Estado islamofóbico, que é a França. É uma indignação com o resultado que a islamofobia gera, porque eu acho que violência gera violência, em qualquer sociedade.

Considera que esses crimes podem ser associados à religião?

De forma nenhuma, porque a religião é completamente contrária a isso. No Islã o que é permitido é a pessoa se defender caso seja atacada fisicamente. Então, não é permitido fazer um ataque dessa natureza. Mesmo que houvesse algum tipo de penalização, haveria feito um trâmite jurídico, teológico da jurisprudência islâmica. Mas o que aconteceu foi um caso de vingança e o Islã jamais trabalha com essa pauta. Tem até uma história do Imã Ali, um dos califas do Islã. Ele lutava com alguém e essa pessoa cuspiu em seu rosto. Ele ficou com muita raiva, estava para matar essa pessoa e desistiu. Quando foi perguntado sobre porque não matou, sua resposta foi: “Não matei porque agiria pela minha raiva, por meu ego e não por Deus”. As pessoas são movidas por emoção. O que a gente vê é uma violência gratuita, é absurdo em cima de absurdo, é violência em cima de violência, nada justifica, nem uma, nem outra.

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Porque a França procura culpar o islamismo por esses crimes?

A França há muito tempo resolveu criar um bode expiatório. Se pensarmos na migração desde a década de 60, de argelinos e pessoas do norte da África, para a França, hoje essa população tem inclusive cargos de poder, tem ensino superior, formaram famílias. Enquanto os muçulmanos eram subalternos, que faziam os serviços que os franceses não queriam, eles eram tolerados. A partir do momento que esses muçulmanos viram porta-vozes e que a comunidade cresce, com mais de seis milhões de muçulmanos na França, e boa parte deles são franceses que nunca foram para países de origem árabe, então existe um medo de que a França se torne um país islâmico.

Essa ideia de laicidade francesa, de limpar o espaço público e dizer que a religião é espaço privado é tão higienizante. Isso só amplia o preconceito, a islamofobia e intolerância religiosa.

Como se dá a islamofobia?

Alguns autores apontam que ela sempre existiu, desde que o profeta Mohammed saiu de Meca para a Medina. Edward Said fala sobre a construção do outro, desse outro árabe. As pessoas acabam fazendo associação, às vezes por causa da vestimenta ou pelo sobrenome árabe. Associam que todo o muçulmano é árabe e na verdade a maior parte dos muçulmanos é de asiáticos. Fazem uma constante associação com o terrorismo, isso causado pela construção midiática. Tenho trabalhado, observado e coletado material, essa é minha pesquisa atual, a islamofobia. Recebemos relatos dos muçulmanos do Brasil pelo email [email protected] e temos recebido muitas denúncias de mulheres. A islamofobia de gênero é muito grande. Tivemos relatos de mulheres que receberam pedradas, cusparadas, xingamentos, violências de vários sentidos. É bom ressaltar que 80% das pessoas que morrem em ataques terroristas são muçulmanas. Depois do 11 de setembro, houve um crescente veto de vistos para entrar em determinados países e uma grande quantidade de mulheres de hijab que tiveram que tirar suas roupas dentro do aeroporto.

Qual o papel na mídia nessa culpabilização dos muçulmanos?

Acho que a mídia, assim como as próprias fontes históricas, contribuem de forma negativa. A gente vê poucas matérias onde realmente as pessoas queiram esclarecer o que é o Islã e o que são os muçulmanos. A mídia sempre mostra os muçulmanos de forma pejorativa, procuram mostrar o lado perverso, o lado de pessoas que não praticam a religião, mas que se dizem muçulmanas. Uma coisa que sempre me chama a atenção, por exemplo, se um homem matou uma mulher, você não sabe a religião dele. No entanto, se esse homem for muçulmano com certeza isso estará na manchete. Neste caso religião aparece e é evidenciada. Se for cristão ou cristão protestante ou qualquer outra religião, não aparece.

E até que ponto vai a liberdade de expressão?

Isso é uma grande questão, sempre tenho a pauta que a minha liberdade de expressão vai até o ponto de eu não ofender o outro, de não prejudicar o outro. É difícil? É difícil! Minha geração cresceu o tempo todo com piadinhas sobre negros, portugueses, homossexuais. Hoje, tudo isso é politicamente incorreto. Todo mundo com mais de 50 anos cresceu ouvindo essas piadas. Porém a gente sabe que isso já foi banido, então a liberdade de expressão chegou ai, a partir do momento que atinge um grupo, que afeta um grupo social, já não é mais liberdade de expressão, isso vira bulling, violência, já pode ser criminalizado sim, porque está afetando a saúde mental.

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Isso se aplica no que aconteceu na França?

Você imagina um garoto muçulmano que vive na França e dentro da sua sala de aula é exposto constantemente a piadinhas sobre o seu profeta, que ele aprende desde que nasceu a respeitar a valorizar. Então, deixa de ser liberdade de expressão e passa a ser violência, uma violência institucionalizada, violência do Estado, violência educacional. Penso que as pessoas precisam tomar parte disso. Tem uma outra coisa que as pessoas desconhecem do Islã, que não é só fazer uma piada, uma charge com o profeta, é o uso da imagem, no Islã não pode reproduzir imagens de pessoas que para o Islã são sagradas.

Qual sua opinião sobre os movimentos de boicotes que estão ocorrendo agora nos países islâmicos e arábes.

Acho fundamental, na verdade acredito que movimentos de boicotes deveriam existir para absolutamente tudo que cause violência contra o outro. E já deu um enorme resultado esse movimento. Fico imaginando se gente de todo o mundo boicotasse o sionismo, seria maravilhoso, a Palestina já estaria muito mais potente. Houria Bouteldja, ativista argelina-francesa, diz que há uma questão de classe de raça e de gênero, o que a gente vê acontecer principalmente na França, é violência contra as mulheres e violência de classe.

Precisamos de um mundo mais tolerante, respeitoso e digno. Qualquer muçulmano vai dizer que o que aconteceu na França é um ato bárbaro, mas a gente tem também que combater a barbárie do outro lado, que é a aquela barbárie sutil, a violência silenciosa, psicológica e estrutural.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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