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Eu não falo em feminismo islâmico, falo em equidade e direitos

Entrevista com Mariam Chami, muçulmana que usa as redes sociais para desmistificar o islamismo.
Mariam Chami [Foto reprodução Instagram]
Mariam Chami [Foto reprodução Instagram]

Mariam Chami é muçulmana, brasileira de origem libanesa que usa a internet para contar curiosidades e esclarecer dúvidas sobre sua religião. De uma forma espontânea e divertida, Mariam compartilha com seus mais de 427 mil seguidores do instagram, não apenas assuntos relacionados ao islamismo, mas também sua rotina como empresária, maternidade e empoderamento das mulheres.

Com seguidores em sua maioria não muçulmana, Mariam relata em entrevista cedida ao Memo, a felicidade em poder informar e desmistificar conceitos sobre o islamismo.

Como você define o seu trabalho de influenciadora? Desde quando exerce essa função?

Comecei a atuar nesse nicho em 2019, mas estourou mesmo no ano passado. De 2019 até 2020, aumentou mil vezes os números de seguidores. O que eu acho incrível é que mais de noventa por cento do meu público não é muçulmano, não faço conteúdo para muçulmanos. É claro que muitas muçulmanas acabam se identificando e se sentido representadas quando, por exemplo, apareço em alguma entrevista, uma revista ou publicidade para uma marca. Elas se sentem representadas e o mais legal ainda que não é só as muçulmanas que se sentem representadas e sim mulheres, independente de qual religião seja.

Eu defino meu conteúdo como leve, fácil e didático e na verdade trago conhecimento para as pessoas, mas de uma forma que ela não sinta que está estudando diretamente, mas sim estudando indiretamente.

O mais legal é que essas pessoas que não são muçulmanas, estão querendo aprender, querendo mudar seus conceitos. Sinto que as pessoas estão se interessando muito pelo islamismo, querem se desconstruir. Mas não é eu que estou fazendo isso. A própria pessoa que está fazendo por ela.

Tem o apoio da sua família para isso?

Tenho, sempre tive muito apoio dos meus pais. Tenho o apoio do meu marido, graças a Deus e tenho apoio de líderes religiosos também.

Qual é a interação do seu público quando você fala sobre o islamismo?

É muito alto, as pessoas têm muito interesse, muitos questionamentos. Elas me pedem para falar, querem que eu fale cada vez mais isso. Até porque eu não falo como se estivesse pregando, pois não é meu objetivo converter as pessoas .Meu objetivo é só levar conhecimento e tentar tirar o preconceito das pessoas.

Acredito que quando você coloca o humor e de uma maneira mais leve, você se aproxima mais do seu público, as pessoas se identificam e elas aprendem sem saber que estão aprendendo.

Você já teve algum problema com intolerância religiosa na sua página.

Diariamente! Posso dizer que bem pouco, uma parcela mínima de haters. A grande maioria das pessoas são respeitosas, elas gostam do meu trabalho e elas divulgam, elas admiram. Mas sempre tem um ou outro que vai destilar o ódio.

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E como você lida com isso?

Eu agradeço. Eu falo “gente eu adoro que tenha isso, pois vocês me dão conteúdo, porque eu acabo tendo conteúdo para falar ainda mais.”

Às vezes as pessoas falam que está muito repetitivo, aí respondo dando exemplo de como nossas mães nos educam, elas falam 75 mil vezes a mesma coisa e a gente continua fazendo a mesma coisa errada e assim acontece comigo também, falo 75 mil vezes a mesma coisa. Eu posto uma coisa e explico e aí vou ver o comentário, a pessoa está falando contra o que eu acabei de explicar.

Em seu perfil você fala muito sobre empoderamento das mulheres, bem como seus direitos, existe feminismo no islamismo?

Existem mulheres que denominam feminismo islâmico. Eu não falo sobre isso. Que eu saiba, na verdade, no islamismo não tem uma denominação de feminismo islâmico. Até porque, o islã já dá todos os direitos para as mulheres, direitos que foram conquistados há pouco tempo, nossa religião já nos dava, como por exemplo, o direito ao voto, onde, dentro do islamismo, temos há de mais de 1440 anos. Aqui no Brasil, as mulheres tiveram direito ao voto em 1932. No islamismo, desde o início, a mulher pode ter direito ao divórcio, o direito de escolher seu próprio marido e de trabalhar. Ou seja, mulher tem todos os direitos que a bandeira feminista luta. Porém, algumas coisas não batem diretamente com o feminismo e o islamismo, porque o feminismo quer direitos iguais entre homens e mulheres.

Uma coisa que eu sempre uso de exemplo é uma figurinha que roda na internet, uma foto, que tem no muro e todo mundo tá querendo assistir a um jogo no estádio de futebol. Tem uma pessoa que é alta, uma pessoa que é baixa e uma pessoa de cadeira de rodas. Só que a pessoa alta consegue assistir, a baixa não, ela precisa colocar um banco para subir para conseguir ver. A pessoa que usa cadeira de rodas precisa de um acesso. Então se eu trato todos iguais não precisa colocar acesso, não preciso colocar um banquinho. Todos estarão iguais mas terá injustiça. O alto vai conseguir assistir, ter visão e os outros não.

Agora quando eu trato com equidade, aí sim, o alto não precisará de banco para subir porque ele já está na altura, o baixo vai precisar de um banquinho pra ficar na igualdade entre um alto, e o que usa cadeira de rodas vai ter um acesso com a rampa. Então assim, estou tratando todo mundo com respeito e com justiça. O islamismo ele trata dessa mesma maneira, com equidade. Mas é claro, se estamos no Brasil, se estamos em um país, onde, as mulheres não têm seus direitos, ganham menos que os homens é claro que eu vou lutar a favor desse movimento.

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