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Comunidade acadêmica da UNB se manifesta contra parceria com Israel

Reitora Márcia Abrahão, ao gravar mensagem de boas vindas aos calouros do primeiro semestre de 2018. Em 19 de março de 2018 [ Beto Monteiro / Secom UnB]
Reitora Márcia Abrahão, ao gravar mensagem de boas vindas aos calouros do primeiro semestre de 2018. Em 19 de março de 2018 [ Beto Monteiro / Secom UnB]

Docentes e discentes da Universidade de Brasília produziram uma carta onde se manifestam contrários ao entendimento para colaboração sinalizado em um encontro entre a reitora, Márcia Abrahão Moura, e o embaixador de Israel, Yossi Shelley. Na carta, afirmam que a história da UNB não é compatível com colaborações que normalizem infrações aos direitos humanos e ao Direito Internacional. Além da carta, a petição “Não a colaboração da Unb com o apartheid israelense” também está recolhendo assinaturas na internet.

No dia 30 de janeiro, a reitora publicou em seu Instagram uma foto ao lado de Shelley, ela usa uma máscara com a bandeira do estado de ocupação de Israel e ele uma com o logo da universidade. Na publicação ela afirma que o encontro com o embaixador foi produtivo e foram discutidas várias possibilidades de cooperação, “entre elas, o fortalecimento da relação com empresas israelenses” através do Parque Cientifico e Tecnológico da UNB (PCTec/UnB).

Segundo, Muna Muhammad Odeh, professora associada da Faculdade da Saúde da UnB, a carta “foi uma construção conjunta objetivando demarcar nosso espaços como palestinos e palestinas integrantes da UnB”.

“Consideramos muito grave esse fato pois a reunião foi com o embaixador e visa colaboração com empresas israelenses, ou seja, é um acordo entre uma universidade, a UnB, e um estado”, afirma Odeh. Além de Muna, a carta é assinada por professores de diversas áreas da instituição, como Said Najati Sidki, do Departamento de Matemática; Elizabeth de Andrade Hazin, do Instituto de Letras, e Alfredo Feres Neto, da Faculdade de Educação Física.

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O documento direcionado à reitora Márcia Abrahão Moura, diz:

“nós, membros da comunidade acadêmica da Universidade de Brasília, palestinas e palestinas comprometidos com a causa dos direitos humanos, acreditamos que a história e a identidade da UNB não são compatíveis com colaboração com ações de estratégia de marketing para normalizar infrações ao Direito Internacional e aos Direitos Humanos, legitimando apartheid, injustiça ambiental e limpeza étnica. Por isso que pedimos para não estreitar laços de colaboração com entidades que desenvolvem tecnologias sob aquelas condições, ou mais ainda, em prol de impetrá-las e perpetuá-las, uma vez que as atitudes de tal governo não estão em congruência com a constituição brasileira de 1988, no artigo 5.º no que se refere aos direitos e deveres individuais e coletivos, que garante a todo ser humano o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade sem qualquer tipo de descriminação.”

A carta-manifesto justifica o pedido descrevendo diversas ações israelenses que contrariam organizações internacionais, e afirmam que o que resulta disso é uma “situação insustentável em que se inflige sofrimento insuportável direcionado a um povo. É racismo ambiental a serviço de limpeza étnica paulatina”.

“Obviamente se espera que um dos pontos desta estratégia é uma articulação para “comprar” a aquiescência da comunidade internacional com ofertas de parcerias, com recortes propagandísticos maquiando a realidade, para conjugar interesses de maneira a se deixar o tempo “sacramentar” o processo e normalizá-lo. Só com muita tática diplomática cínica tais práticas poderiam perdurar e a aproximação da embaixada israelense é uma destas ações táticas.”, afirma.

Os acadêmicos também relembram a atitude diferente da universidade em relação ao Apartheid da África do Sul, lembram que o que ocorre na Palestina é semelhante ao regime sul africano e apontam a incongruência entre rechaçar o que aconteceu na África do Sul, mas colaborar com o Apartheid israelense contra o povo palestino.

“Em agosto de 1991 a universidade de Brasília recebeu a visita de Nelson Mandela, líder símbolo da luta sul-africana contra o racismo institucional e por igualdade racial. Durante seu discurso, Mandela defendeu a função da universidade de “perseguir o desenvolvimento, os valores, as habilidades e as atitudes na luta pela democracia’’. E um dos companheiros de luta e vida mais próximos de Mandela, o Arcebispo anglicano sul africano Desmond Tutu aponta contundentemente que o que ocorre com os palestinos é do mesmo grau do apartheid contra o qual lutara na África do Sul13. Não há justificativas então para um rechaço ao sistema de Apartheid na África do Sul combinado com uma colaboração contra uma política deliberada, estratégica e sistemática de opressão sobre os palestinos.”

Até agora, a reitoria não se manifestou em relação a carta, apenas confirmou o seu recebimento.

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