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Macron, Sisi e a luta por direitos humanos no mundo árabe

Presidente da França Emmanuel Macron recebe o Presidente do Egito Abdel Fattah el-Sisi, para reunião no Palácio do Eliseu, em Paris, França, 7 de dezembro de 2020 [Julian Mattia/Agência Anadolu]
Presidente da França Emmanuel Macron recebe o Presidente do Egito Abdel Fattah el-Sisi, para reunião no Palácio do Eliseu, em Paris, França, 7 de dezembro de 2020 [Julian Mattia/Agência Anadolu]

Quando o líder do governo golpista no Egito, Abdel Fattah el-Sisi, anunciou sua recente visita à França, uma onda de relatos e apelos por direitos humanos chegou às mãos do presidente francês Emmanuel Macron. Foi solicitado ao líder europeu pressionar Sisi para dar fim a todas as violações de direitos humanos cometidas pelo atual regime egípcio.

Contudo, é bastante provável que tais reivindicações tenham o mesmo resultado dos protestos feitos durante visitas de Sisi a outros países ocidentais, como Grã-Bretanha, Alemanha, Estados Unidos. Em suma, não haverá qualquer mudança nas políticas do Cairo; violações de direitos humanos continuarão como regra; e o povo egípcio descobrirá mais outra vez que as alegações ocidentais em defesa de direitos humanos a todos são uma falácia.

Os comentários de Macron durante coletiva de imprensa com Sisi confirmam o que todos já sabemos: direitos humanos não são prioridade para as potências ocidentais. Suas prioridades são econômicas e políticas, que podem ser resumidas da seguinte forma, no que concerne ao Oriente Médio: manter a assinatura de lucrativos acordos de armas, gás natural e petróleo com países da região, incluindo Egito; manter a “guerra ao terror”, eufemismo para perseguição a movimentos islâmicos, sejam jihadistas ou democratas pacíficos; impedir a migração à Europa; e preservar a superioridade militar do estado colonial de Israel.

Tais prioridades requerem o estabelecimento de regimes autoritários na região, que dominam o povo com mão de ferro e são facilmente manipulados pelo Ocidente, quando comparados com democracias que governam em benefício de seus cidadãos e não meramente a favor dos bolsos da elite no poder.

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Uma vez que compreendemos tais prioridades e as colocamos sob contexto, podemos observar que os direitos humanos não estão somente aquém das preocupações dos países ocidentais, como também não representam o menor interesse aos regimes no Oriente Médio. A governança democrática, capaz de respeitar os direitos humanos, é aquela que efetivamente representa seu povo e trabalha para alcançar suas aspirações. Isto inclui justiça e liberdade, que contradizem na prática os interesses das potências ocidentais e seus aliados na região.

Quando o jornalista saudita Jamal Khashoggi foi assassinado no Consulado da Arábia Saudita em Istambul, há dois anos, o atual presidente americano Donald Trump afirmou claramente que não revogaria acordos militares com a monarquia islâmica, a fim de manter sua confrontação ao Irã. Trump reiterou a cooperação com o reino a despeito de admitir a natureza hedionda do crime executado. Os governos ocidentais não se importam com os mortos.

O próprio Macron foi ainda mais imprudente ao comentar sobre a morte do colunista do Washington Post. Após um preâmbulo condenatório de praxe e algumas palavras sobre liberdade e direitos humanos, o presidente francês insistiu que a demanda para abandonar a venda de armas a clientes abastados, como a Arábia Saudita, era ingênua. Os poucos países ocidentais que anunciaram suspensão nos acordos militares com o reino retomaram a venda de armas a Riad conforme desvaneceram as vozes de repúdio.

As prisões de Sisi no Egito [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

As prisões de Sisi no Egito [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Não há, portanto, qualquer razão factual para que ativistas de direitos humanos voltem-se ao Ocidente para reivindicar mudanças sobre recursos oportunos. As potências ocidentais não vendem justiça, mas sim ilusões; vendem slogans; e vendem armas que concedem emprego a seu próprio povo e lucro à sua economia. Em campanha, os líderes ocidentais podem até ouvir seus eleitores, mas jamais escutam o povo torturado nos países árabes, absolutamente privados do direito de votar. Em poucas palavras, o Ocidente é egoísta; tudo que faz possui segundas intenções.

Isso significa que ativistas de direitos humanos têm de abandonar suas lutas por justiça, em seus próprios países? É claro que não. É preciso, no entanto, que não depositem suas esperanças no Ocidente, mas busquem por soluções domésticas, onde a mudança de fato pode ocorrer.

Quando eclodiram as revoluções árabes, há uma década, todos os países ocidentais postergaram ao máximo declarações de apoio, pois seus interesses repousavam junto dos antigos ditadores da região. Apenas quando o poder do povo mostrou avanços significativos em alguns países revolucionários, as potências ocidentais decidiram adaptar-se à nova realidade.

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As revoluções populares obtiveram êxito relativo, graças à persistência e resistência de seus apoiadores, jamais por qualquer pressão ocidental sobre os regimes árabes. Trata-se de um fato imutável. A arena doméstica continuará a determinar a postura tomada pelo Ocidente e não o contrário.

Caso ativistas políticos e de direitos humanos compreendam isso, poderão concentrar seus esforços na luta interna de seus países, ao conscientizar o povo de seus direitos básicos e criar verdadeira pressão popular sobre os tiranos. É isso que ficará para a história, não comentários robóticos de governantes ocidentais, cuidadosamente preparados e escritos para não incomodar ditadores.

A luta em casa não será fácil, sobretudo, sob regimes opressivos, mas é a única coisa capaz de conquistar uma mudança efetiva e sustentável no mundo árabe. Como outros povos oprimidos ao redor do mundo, somos fadados a melhorar nossa realidade com nossas próprias mãos. Nenhuma nação jamais testemunhou mudanças positivas via mediação das potências globais – e jamais será assim. Trata-se de um fato histórico, vastamente concreto.

Traduzido da rede Arabi21, 8 de dezembro de 2020

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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