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De olho no Brasil, a indústria da vigilância de Israel

Ataque cibernético [Reuters/ Kacper Pempel]
Ataque cibernético [Reuters/ Kacper Pempel]

Sob o nome palpável de “cibersegurança” – preocupação num mundo cada vez mais conectado –, Israel tem se apresentado internacionalmente como o parceiro que tem as melhores soluções tecnológicas. O Brasil é destino preferencial na América Latina. O que é favorecido por memorando de entendimento em segurança cibernética que compôs pacote assinado por Bolsonaro em visita ao seu aliado sionista, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, em 31 de março de 2019. O objetivo seria ampliar a “cooperação bilateral para combate a todas as formas de crime organizado”.

A redação genérica pode implicar mais criminalização e violação de direitos humanos fundamentais no Brasil da população negra, pobre e periférica, bem como de movimentos sociais, mediante tecnologias de vigilância como as que se apresentam sob o pomposo nome de “cibersegurança”. Além de restrições à liberdade de expressão, incluindo ataque a jornalistas e artistas. A expertise de Israel nesse campo é exemplar.

Mês a mês, a Câmara de Comércio Brasil-Israel anuncia orgulhosamente em seu site o estabelecimento neste país sul-americano de novas companhias israelenses com o discurso de combater “cibercriminosos” – ao que reivindicam orgulhosamente elevado know how e liderança testados em campo. Em outras palavras, no monitoramento e vigilância de palestinos sob ocupação, cujo resultado é a habitual violação de seus direitos humanos fundamentais.

Uma delas é a TrapX, que acaba de entrar no Brasil por meio do Grupo Aplidigital – distribuidora bastante devotada em trazer empresas afins, contando com outras sionistas em sua carteira, como Backbox.

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A Trapx foi fundada em 2011, segundo a notícia no site da Câmara, por Moshe Ben Simon, membro da “Unidade de Inteligência Cibernética do Exército de Israel”. Trata-se de chamada Unidade 8200.

As companhias que se apresentam no Brasil têm no geral essa origem comum. Foram forjadas nas Forças de Ocupação de Israel, que serviram como verdadeiras “incubadoras de empresas”. É o que explica a jornalista Naomi Klein em seu livro “A doutrina do choque – a ascensão do capitalismo de desastre” (Editora Nova Fronteira).

Entre as instaladas há anos, a Elbit Systems – a qual, segundo o site da campanha por embargo militar a Israel na América Latina, é a principal provedora de drones para o exército da ocupação. Fornece, ainda, entre as tecnologias para a ocupação, “sistemas de detecção de intrusos utilizados no muro do apartheid, particularmente ao redor de Jerusalém Oriental”.

A Hewlett-Packard (HP) firmou, segundo a Câmara de Comércio Brasil-Israel, em agosto deste ano, parceria com uma delas: a Deep Instinct, para “prevenir ameaças de segurança”. Assim como a Elbit, a HP é um dos focos preferenciais da campanha de boicote, desinvestimento e sanções a Israel (BDS), pelo fornecimento de sistema biométrico utilizado em checkpoints e cartões de identificação para o apartheid, bem como parte da infraestrutura de tecnologias de informação ao bloqueio a Gaza e serviços aos cárceres em que se encontram em condições subumanas cerca de 5 mil presos políticos palestinos, incluindo mulheres e crianças.

Israel converteu as tecnologias de informação em nicho de mercado depois dos desastrosos acordos de Oslo assinados em 1993 com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), processo que ganhou força ao início do século XXI, segundo a obra de Naomi Klein: “Jovens soldados israelenses, que ganharam experiência em sistemas de rede e equipamentos de vigilância enquanto cumpriam serviço militar obrigatório, transformaram suas descobertas em planos de empreendimento, quando voltaram à vida civil.”

O resultado é que, como atesta a Al-Haq, “ao lado das armas, Israel tem se estabelecido como um líder na indústria de vigilância e cibersegurança”, cujas exportações somaram US$ 6,5 bilhões somente em 2016.

A Unidade 8200

Em uma reportagem de 1º. de janeiro de 2017 publicada em seu portal de notícias, aForbes Brasilcalculava mais de mil empresas fundadas por egressos da Unidade 8200, como o aplicativo Waze. “As gigantes da tecnologia adoram devorar firmas da 8200. Só nos últimos três meses, a Microsoft comprou a empresa de privacidade de dados Adallom por 320 milhões de dólares, o Facebook adquiriu a Onavo, empresa de análises na área de mobilidade, por 150 milhões de dólares, e o PayPal arrematou a CyActive, que prevê invasões de hackers, por 60 milhões de dólares.”

Na reportagem, a Forbes se apoia em relatos de egressos da Unidade 8200 para tecer um palpite: que sua formação remonte ao período do mandato britânico na Palestina, inaugurado ao fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Inicialmente seria um órgão denominado Shin Mem 2 (sigla de “serviço de notícias” em hebraico), que servira para grampear linhas telefônicas do que a Forbes denomina erroneamente de “tribos árabes para descobrir planos de tumultos” na década de 1930.

As indicações são de que a referência seja à busca por derrotar a revolução de 1936-1939 na Palestina, contra o mandato britânico e as gangues sionistas. O que de fato se deu, graças aos inimigos históricos da causa palestina, descritos pelo revolucionário marxista, escritor e jornalista palestino Ghasan Kanafani em sua obra sobre a revolta: o imperialismo/sionismo, os regimes árabes e a elite palestina. Derrota esta que deixou os palestinos absolutamente vulneráveis e foi, portanto, basilar à Nakba (catástrofe) – a criação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948, mediante limpeza étnica planejada.

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A Unidade 8200 segue como braço aos crimes cometidos por Israel. É o que ratifica a organização de direitos humanos palestina Al-Haq em documento elaborado em parceria com o Conselho Social e Econômico das Nações Unidas intitulado “A indústria de vigilância e os direitos humanos: o mercado de Israel de ocupação da Palestina”, datado de 13 de fevereiro de 2019.

Na publicação, a Al-Haq aponta que a Unidade 8200 é conhecida pela vigilância de palestinos sob ocupação e uso de informações pessoais inclusive “sexuais” para extorqui-los. “Se alguém nos interessar, coletamos informações sobre sua situação econômica e estado mental. Em seguida, planejamos como podemos realizar uma operação em torno desse indivíduo, a fim de transformá-lo em um colaborador ou algo do tipo.” Este é um dos muitos relatos de egressos da unidade constantes de reportagem do The Guardian há seis anos, que mostram a transformação de qualquer palestino em alvo.

Submetido ao relator especial sobre promoção e proteção do direito de liberdade de opinião e expressão da ONU, o documento da Al-Haq teve por objetivo jogar luz sobre o uso da Palestina ocupada como “laboratório e showroom” para a apresentação de tecnologias israelenses. As ofensivas sionistas, nessa direção, serviriam como um ponto de venda. Como consta da publicação, é o que teria admitido um CEO de uma empresa de armas em relação ao massacre de 2014 na faixa de Gaza, segundo o qual “depois de cada campanha desse tipo (…), vemos um aumento no número de clientes de fora”.

Para que o Brasil – porta de entrada a essas tecnologias da morte na América Latina – deixe de figurar entre um deles, o chamado é que as pessoas que defendem direitos humanos e justiça fortaleçam a campanha por embargo militar a Israel.

Enquanto isso, o Brasil vem se tornando dia a dia um Big Brother bastante lucrativo para essas empresas fundadas e assentadas sobre o sangue, a dor e as lágrimas palestinas.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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