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Solidariedade do Catar à Palestina sugere valor de parte, ao menos, da Liga Árabe

Palestinos exibem bandeiras catarianas durante protestos em apoio ao Catar, em Khan Younis, Gaza, 14 de junho de 2017 [Ali Jadallah/Agência Anadolu]
Palestinos exibem bandeiras catarianas durante protestos em apoio ao Catar, em Khan Younis, Gaza, 14 de junho de 2017 [Ali Jadallah/Agência Anadolu]

A Liga Árabe tem uma reputação histórica de ser lotada de homens convencidos de sua própria importância. Esta imagem, entretanto, pode mudar em breve devido a um pequeno gesto do minúsculo, mas bastante influente, Estado do Catar.

Em termos de ação decisiva, o gesto catariano deverá mal registrar qualquer impacto na escala Richter da vida política no Oriente Médio. Contudo, pela primeira vez em anos, um estado árabe assumiu uma atitude contundente e demonstrou solidariedade à Palestina por ações, e não mero discurso.

Com sede no Egito, assolado por conflitos políticos e autoritarismo, a Liga Árabe costuma ser vista como um salão de compadres sem sentido algum, sem eficácia, envolvida em disputas mesquinhas entre os países da região. Arábia Saudita e Egito, certa vez foram descritos como membros mais influentes, mas o comportamento absurdo de seus líderes – o príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman e o Presidente Abdel Fattah el-Sisi, respectivamente – ameaçam desestabilizar toda a organização.

Agora, a recusa do Catar de assumir a presidência rotativa da Liga Árabe pode repercutir em larga escala, caso a solidariedade com os palestinos conquiste maior apoio de outros estados-membros. A Palestina também recusou-se a assumir sua vez na presidência do Conselho da Liga Árabe, na atual sessão, em protesto veemente contra os acordos de normalização dos Emirados Árabes Unidos e Bahrein com Israel.

Liga Árabe recusa-se a condenar a normalização entre Emirados e Israel [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Liga Árabe recusa-se a condenar a normalização entre Emirados e Israel [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Embora os estados do Golfo tenham demonstrado alguma generosidade financeira à devastadora crise humanitária da Palestina, no passado, pouco disso converteu-se de fato em solidariedade política efetiva. Nos últimos anos, porém, o governo saudita proibiu seus cidadãos de enviar ajuda à Palestina, assim como Emirados Árabes Unidos. Tais riquíssimos estados árabes gostam de ser vistos como bastião da generosidade humana quando povos carentes lhes batem à porta. Entretanto, não apenas deixou de ser o caso, em absoluto, como tais países também são negligentes diante de uma postura política fundamentada ou ética, em particular, sobre questões como a causa palestina.

A única razão da Palestina ainda tomar as manchetes é a força e determinação de seu próprio povo. Trata-se de um povo resiliente que não poderá descansar, muito menos render-se ou abandonar sua terra, meramente por conveniência aos estados árabes.

Países em todo o mundo reconhecem seus direitos legítimos e a liberdade buscada pelos palestinos, incluindo o direito de retorno, autodeterminação, justiça. Se a Liga Árabe ao menos tivesse demonstrado ao mundo uma posição unitária sobre a questão, a Palestina provavelmente seria um estado plenamente funcional, ao invés de representada pela confusa Autoridade Palestina, liderada por um bando de velhos corruptos, cuja única “autoridade” está em pequenas migalhas atiradas para baixo da mesa pelos israelenses.

LEIA: Catar rejeita normalização com Israel antes de solução palestina

Foi preciso estar diante dos acordos de normalização entre Emirados, Bahrein e Israel, para que o Ministro de Relações Exteriores da Autoridade Palestina Riyad Al-Maliki anunciasse sua renúncia da presidência do Conselho da Liga Árabe. Maliki confirmou a decisão após o secretariado-geral da organização mais ou menos apoiar os chamados “Acordos de Abraão”, apesar de representarem “clara contravenção da Iniciativa de Paz Árabe”.

Bahrein normaliza relações diplomáticas com Israel [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Bahrein normaliza relações diplomáticas com Israel [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

O Catar rapidamente fez um anúncio próprio, no qual recusou-se a assumir o assento vago pelos palestinos. O Catar apresentou-se por mera norma alfabética, conforme o Artigo VI das regras e procedimentos do Conselho da Liga Árabe.

Por outro lado, não tenhamos ilusões de uma súbita onda de solidariedade da Arábia Saudita. A monarquia em Riad está abarrotada de vinganças mesquinhas contra qualquer um que ouse criticar seu desrespeito absoluto a direitos humanos básicos e desprezo à lei internacional, tanto em âmbito doméstico quanto internacional. Em último incidente, empresários sauditas tiveram de assinar termos de compromisso com o Ministério do Comércio em Riad para não importar bens da Turquia. Este último édito significa que investidores sauditas com capital turco – antes, um movimento empresarial bastante perspicaz – agora têm de vender seus recursos às pressas. Qualquer um que se recuse a fazê-lo poderá ser preso.

O jornal turco Cumhuriyet argumenta que o governo saudita pretende cortar todos os laços econômicos com a Turquia. Tensões entre Ancara e Riad já haviam escalado devido ao assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoogi, que vivia exilado nos Estados Unidos, em outubro de 2018, dentro do Consulado da Arábia Saudita em Istambul, além do apoio turco a parte da oposição síria e ao governo líbio reconhecido pela ONU. Em contraponto, o governo saudita mantém-se próximo do brutal regime de Bashar al-Assad, na Síria, e do general renegado Khalifa Haftar, na Líbia.

A extrema mediocridade de alguns membros da elite governante da Arábia Saudita inclui relatos de nobres que recusam-se a beber café turco até que Ancara submeta-se a Riad. Tratam-se de pequenos gestos, de fato, patéticos.

Os palestinos estão envolvidos em uma luta existencial amarga. Devem refletir sobre a razão de ser de tais governantes, e qual o benefício da existência da antiga Liga Árabe. A demonstração de solidariedade do Catar pode ser o sinal pelo qual esperavam há anos, de que nem todos os líderes árabes são ineficazes, corruptos e autocentrados. Resta esperança.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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