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A difícil resistência em um país sufocado por EUA e Israel

Entrevista com o ex-deputado da Guatemala Enrique Alvarezex
Ex-deputado da Guatemala e integrante do Fórum Latino-Palestino, Enrique Alvarez [Arquivo pessoal]
Ex-deputado da Guatemala e integrante do Fórum Latino-Palestino, Enrique Alvarez [Arquivo pessoal]

A Guatemala foi o segundo país no mundo a transferir sua embaixada para Jerusalém. A cumplicidade com os EUA e com o projeto sionista não são de agora, diz o ex-deputado Enrique  Alvarez.O golpe de 1954  que abalou o país e derrubou o presidente eleito democraticamente Jacobo Arbenz Guzmán, foi orquestrado pela CIA, segundo ele,  com apoio incondicional de Israel, desde então com grande influência sobre a política guatemalense.

Apoiador da causa palestina e integrante do Fórum Latino Palestino, o ex-deputado Enrique Alvarez fala ao Monitor do Oriente Médio sobre esse cerco que sufoca o país, gerando medo e silêncio, e que também interfere na solidariedade entre os povos. Sem intenção de se candidatar novamente, ele aposta no caminho da articulação da solidariedade internacional contra a política sionista.

A Guatemala é um histórico apoiador de israel, o senhor acredita que isso mudará com o presidente que assumiu o cargo esse ano?

Não vai acabar, o estado da Guatemala,  historicamente mantém relações com Israel, especialmente pela dependência da política exterior com os EUA e também tem o histórico do governo de israel ter apoiado fortemente os governos militares durante a guerra, forneceu serviços de inteligência que serviram para reprimir a população e proporcionou armas, fuzis e aviões de combate. Israel tem dado apoio forte e tem vínculos muito fortes com grupos econômicos por isso acredito que não vai acabar.

Porque a influência sionista é tão forte em seu país?

Guatemala lamentavelmente viveu uma época democrática que foi de 1924 a 1954, parece me, com minha ingenuidade, buscando encontrar uma solução pacífica na problemática do oriente médio onde propôs na ONU a criação do estado de israel, dividindo o território da Palestina, isso foi um presente democrático, porém isso foi revertido com uma ocupação militar patrocinada pelos EUA em 1954 e desde essa época a Guatemala  se associou a governo de direita, tivemos um período muito curto de governo democrático de 4 anos e a política da Guatemala foi favorecida por grupos econômicos no qual respondem por interesses desses grupos que historicamente também estavam alinhados com os Estados Unidos.

Como agem os movimentos pró-palestina na Guatemala?

Temos uma população palestina bem grande, cerca de 100 mil pessoas , mas que não tem uma atividade pública muito grande porque há uma sequela do terror que a Guatemala sofreu de 1954 à 1995, no qual mais de 200 mil pessoas desapareceram ou foram assassinadas. Tínhamos um estado repressivo muito autoritário e toda comunidade palestina em que muitos são nascidos na Guatemala e têm temor de manifestar-se publicamente, especialmente pela influência externa no país. Organismos de solidariedade  não atuam com a força que deveriam porque o esperado seria contar com o estímulo da população palestina, mas esta é minoritária nos congressos, onde prevalecem os interesses da direita.

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Como foi sua experiência como deputado? Pensa em se candidatar novamente?

O congresso na Guatemala é dominado por forças da direita que tem pouca visão de estado. Com os outros deputados de esquerda, somamos 15 votos e alcançamos resultados importantes e conseguimos vincular organizações sociais e buscamos apoio para uma maior representação. Meu mandato terminou no último janeiro não penso em me candidatar no momento pois me sinto representado por vários companheiros que estão no congresso.

O sr. é integrante  do Fórum latino palestino, qual a importância dessa ação para causa palestina? 

Faço parte do Fórum latino palestino e também sou membro do Associação de Parlamentares por Al Quds que são de extrema importância, pois nos permite por um lado superar o cerco informativo, devido  a informação que normalmente recebemos estar dominada pelas agências internacionais que não transmitem a informação equilibrada e em alguns casos nem corretas. A organização nos permite estabelecer vínculos entre parlamentares e ex- parlamentares de todo o mundo, buscando um interesse comum em relação ao povo palestino.

Como a população da Guatemala vê a mudança de sua embaixada de Tel Aviv para Jerusalém?

Isto foi recebido de uma forma negativa na Guatemala porque se compreendeu que é uma manobra política do governo anterior para expulsar a comissão internacional contra a impunidade que estava dando resultados muito importantes na luta contra a corrupção e no desmantelamento de grupos clandestinos. O ex-presidente instalou a embaixada com o único objetivo de alcançar apoio do presidente dos EUA, obtido temporariamente. Mas  para a maioria da população está claro que esta foi uma decisão política que não se deu em função dos interesses do país senão dos interesses pessoais do ex-presidente e dos grupos que o apóiam. E agora temos um governo que também é de direita e que certamente não irá mudar essa situação.

O que o sr. pensa sobre o acordo da paz proposto por Trump?

É completamente absurda, não há possibilidade que isso produza a paz e rechaçamos firmemente a ocupação que se produz na Palestina através dos assentamentos que Israel está promovendo e pensamos que na Palestina diminuiu seus direitos permanentemente nos últimos anos e que a única possibilidade de estabelecer a paz é reconhecer os direitos históricos do povo palestino.

Como o direito dos refugiados?

Preocupa-me muito as condições em que palestinos são submetidos a viver em vários lugares especialmente, talvez em condições mais graves estão acontecendo em Gaza, pensamos que a ONU não está fazendo esforços suficientes para garantir que os palestinos tenham um tratamento digno.

E sobre os acordos de normalização com Israel?

 Acreditamos que esse tido de acordo não tem nenhuma validade pois o povo palestino não foi levado em conta. São acordos espúrios e também consideramos ilegítimos que se negocie algo e  que afete diretamente o povo palestino para atender ao interesses de outros países. Este acordo de paz é apresentado como algo positivo para o mundo para, no final, legitimar a ação do governo sionista, que não se dá em função de alcançar uma paz autêntica palestina.

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