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Seja pago ou de graça, normalizar laços com Israel é trair o povo palestino

Bandeiras de Israel e Emirados Árabes Unidos à beira de uma estrada na cidade costeira de Netanya, 16 de agosto de 2020 [Jack Guez/AFP/Getty Images]
Bandeiras de Israel e Emirados Árabes Unidos à beira de uma estrada na cidade costeira de Netanya, 16 de agosto de 2020 [Jack Guez/AFP/Getty Images]

O que mais me incomoda neste momento é a negação de todos perante a traição dos Emirados Árabes Unidos e Bahrein decorrente da normalização de laços com Israel, com base nos benefícios esperados pelo pacto. Caso a traição seja cometida em troca de ganhos políticos ou financeiros específicos, a teoria alega, então é algo aceitável; mas se os ganhos são insuficientes, será condenada.

Para parafrasear um conhecido provérbio inglês, não há algo como normalização gratuita; tampouco é válida caso “paga”, pois a normalização com as autoridades da ocupação israelense é considerada por nós, muçulmanos, como traição aos desígnios sagrados, à mensagem de Deus e ao Islã. Seria ainda desta forma, mesmo se Israel consentisse em retirar-se plenamente de Jerusalém e todos os territórios ocupados em 1967, incluindo ao remover seus assentamentos ilegais. Todas as formas de normalização com a ocupação equivalem a legitimá-la, seja por palestinos, árabes, muçulmanos ou quem quer que seja.

Os Emirados Árabes Unidos alegam que a paz com a ocupação israelense não afetará sua posição sobre a causa palestina. Como pode ser este o caso ao conceder legitimidade à ocupação sobre nossos territórios, além encobrir todos os crimes de Israel, incluindo o cerco a Gaza, a judaização dos locais sagrados islâmicos e cristãos, o assassinato de civis e a imposição de assentamentos ilegais na Cisjordânia ocupada? O mais recente crime israelense reportado é a demolição sistemática de poços artesianos no Vale do Jordão, a fim de destruir os meios de subsistência da criação agropecuária na região, expulsar os palestinos do local e enfim anexar a área à soberania colonial israelense. Trata-se de limpeza étnica, por definição.

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Como palestinos, nossa posição deve basear-se em princípios permanentes, e não ser incitada por atos precipitados e provisórios, pois há intenção de legitimar a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) como representante do povo palestino, conforme decisão popular, e não imposição feita pela Liga Árabe. A OLP de fato demanda reformas, e isso começa a restaurar seus fundamentos, a princípio, ao revogar qualquer reconhecimento de legitimidade do estado ocupante, sob quaisquer circunstâncias. Caso se cumpra tal condição, junto de outras, a OLP poderá tornar-se via legítima para solucionar a causa palestina. A via de legitimidade, portanto, não pode ser a mesma que a de normalização.

Para concluir, gostaria de recordar a todos que a aproximação dos estados árabes a Israel é a última fase de uma conspiração que teve início quando as forças armadas recém-reunidas do sionismo – então, com 67.000 soldados – derrotaram sete exércitos árabes que totalizavam menos de 13.000 tropas. Sob a pressão política e militar, de fato podemos esperar maiores concessões árabes, que deverão ser contestadas pela unidade nacional palestina e pelo respeito aos interesses persistentes de nosso povo.

Os Acordos de Oslo, a Iniciativa de Paz Árabe, a normalização entre países e Liga Árabe, tudo estará destinado à lata de lixo da história, caso decidam permanecer ao lado da ocupação contra os direitos do povo palestino. Seja pago ou de graça, normalizar laços com Israel é trair o povo palestino e sabemos o fim tráfico dos traidores da história.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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