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Entrevista com Nilton Tatto: a necessária guinada para a democracia

Nilto Tatto, Deputado Federal (PT-SP)
Nilto Tatto, Deputado Federal (PT-SP)

Em seu segundo mandato como deputado federal, pelo Partido dos Trabalhadores e mais diretamente ligado a questões ambientais e desenvolvimento sustentável, o político Nilto Tatto tem ampliado sua ação em favor da causa palestina. No ano passado, foi uma das lideranças brasileiras convidadas para encontro da Liga Parlamentares por Al Quds (Jerusalém), realizada no último ano em Kuala Lampur. Atualmente, participa da Frente Parlamentar em Solidariedade com o povo palestino e de atividades do Fórum Latino Palestino. Em meio à um número crescente de vítimas do coronavírus e de críticas à atuação do governo brasileiro no enfrentamento à pandemia de covid-19, Nilto fala ao Memo sobre a conjuntura atual do país e como ela afeta a relação brasileira com a causa palestina.

O Brasil vive uma grave crise devido ao coronavírus e também ao modo como o governo está lidando com a pandemia. Por que o país chegou a esta situação?

Por irresponsabilidade e insanidade do próprio presidente Jair Bolsonaro,. Ele desde o início se postou contrário às recomendações das autoridades de saúde, tanto no Brasil como da OMS, de que a única vacina para conter a propagação do vírus é o isolamento. O Brasil acabou não tendo uma coordenação por parte do governo federal para articular todas as estruturas necessárias para o combate ao coronavírius. Por isso, aqui as consequências são muito mais sofrimento, muito mais mortes e muito mais impacto econômico, o que significa muito mais gente desempregada.

A política externa brasileira mudou muito e voltou a alinhar-se aos Estados Unidos. Como o sr. vê o impacto dessa mudança no atual momento brasileiro?

Os governos do presidente Lula e da presidenta Dilma trabalharam muito para fortalecer as relações Sul- Sul, até para poder fazer frente `a pressão que tem do capitalismo central. Estou falando não só dos EUA mas também da Europa. O Brasil tinha avançado muito nas relações com a Asia , África, com o Oriente Médio e em especial no Mercosul. E contribuiu muito para criação do BRICS, para fazer um embate do ponto de vista do sistema financeiro internacional. O que a gente vê agora é essa relação privilegiada com o governo dos EUA na figura de Trump. O Brasil perde espaço comercial e o papel que tinha no âmbito da ONU e em vários fóruns de políticas específicas, como na agenda ambiental, dos objetivos sustentáveis, da biodiversidade. O Brasil começa a sofrer riscos econômicos e pode ter consequências sérias, inclusive de nível estratégico para o país.

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Também mudou a política para o Oriente Médio, com grande apoio a Israel e posições contrárias à Palestina. O Brasil sempre foi amigo da Palestina, O sr. acha que essa amizade está abalada?

Sim, acredito que está abalada. O Brasil tem se pautado pelo posicionamento ideológico de extrema direita, especíalmente com o mundo árabe, onde quem acaba dando a linha política e ideológica são os setores mais conservadores, demandados por Trump e pelo neopentecostalismo, que privilegiam as relações com Israel e com os EUA.. O retrocesso é muito grande.

Qual o peso do novo sionismo brasileiro, que se espalha entre algumas igrejas evangélicas e no parlamento?

Tem o peso do próprio significado do bolsonarismo no Brasil, da direita que sustenta uma aliança desse setor mais conservador do neopentecostalismo evangélico e também de uma parcela pequena do conservadorismo da própria igreja católica com as forças de segurança, as forças armadas , das polícias militares, civis, bombeiros, guardas municipais,. Os setores cristãos do Brasil se alinham muito com essa política conservadora e que favorece a política sionista do Estado de Israel.

O Congresso criou uma Frente Parlamentar pela Palestina. Como essa frente está trabalhando hoje diante dos planos de anexação da Cisjordânia?

Essa frente está em processo de construção. e queremos aproximá-la da articulação latino americana e internacional do Fórum de Parlamentares pela causa palestina.

Nós tivemos atividades específicas desse Fórum Latino Americano e uma reunião recente da frente parlamentar, com pronunciamento contrário ao acordo do século e essa investida de anexação. Elaboramos documentos e posicionamentos direcionados aos organismos internacionais, denunciando esse processo de ocupação da Palestina, que é contrário à afirmação da autodeterminação dos povos.

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O sr acha que as eleições municipais deste ano poderão influenciar a política nacional e a diplomacia brasileira? Qual a expectativa de seu partido?

Com as reformas neoliberais, aumento do desemprego, a volta ao mapa da fome, pode ser que o povo dê uma resposta de desaprovação ao seu governo.

O PT tem adotado uma política de defesa da vida, com projetos para amenizar o sofrimento na área de saúde ,com o fortalecimento do SUS, e propondo soluções, como a ajuda aos mais vulneráveis e apoio a micro-pequenas empresas, dentro da estratégia de garantia de empregos. E também faz um embate político, porque é crime de responsabilidade a própria atuação do Bolsonaro com relação ao coronavírus;

O PT trabalha na perspectiva de avançar no processo de impeachment. Tudo isso pode obrigar o governo a amenizar as investidas contra a democracia e contra as relações históricas do Brasil no âmbito internacional.. Eu acredito que as eleições municipais serão importantes para amenizar essa trajetória autoritária e irresponsável.

O PT foi bastante criticado durante o último governo, e atribui isso às acusações da Operação Lava jato e as campanhas promovidas nas redes sociais e na mídia. Quais as chances de recuperar o prestígio que tinha antes?

Com as recentes revelações de como a Lava Jato foi estruturada e atuou de forma persecutória, em especial contra o PT e o presidente Lula, e na medida que isso vem sendo demonstrado, as pessoas vão percebendo esse processo de perseguição e aos poucos o PT vai retomar a sua credibilidade. Este momento é inclusive de afirmação de como a grande maioria da população vê o PT como defensor histórico dos trabalhadores, como sua principal ferramenta. Começam a ficar mais claros a narrativa de responsabilização do PT e o trabalho para desconstruir e inviabilizar o segundo mandato da presidenta Dilma. Estou falando dos grandes conglomerados econômicos , com apoio inclusive internacional e em especial dos EUA.

Encontro de Parlamentares por Al Quds (Jerusalém), em Kuala Lampur [ Arquivo pessoal]

Encontro de Parlamentares por Al Quds (Jerusalém), em Kuala Lampur [ Arquivo pessoal]

Outros países da América Latina tiveram governos derrubados e mudaram sua política de forma favorável a política dos Estados Unidos para Oriente Médio. Como o sr. explica essa súbita mudança?

O que está por trás disso nos últimos anos é uma nova estratégia norte-americana. Algumas décadas atrás, os EUA apoiavam intervenções violetas e ditaduras militares e nas últimas décadas eles têm investido em outras formas de atuação e de destruição de governos populares, como a chamada guerra híbrida, não só na América Latina. É só a gente lembrar como se deram as formas de golpes em Honduras, anos atrás, depois Paraguai. com uma nova forma dos EUA de interferir e subordinar esses países ao seu comando político, econômico e militar na área de influência entendida como seu território.

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O sr. é otimista quanto a rápidas mudanças no quadro político atual do Brasil? Acredita ou participa da campanha pela saída de Bolsonaro?

Acredito que sim. A situação econômica vai levar muita gente a se mobilizar e ir para rua, Hoje só podemos fazer as grandes movimentações através das redes sociais, mas com toda a pressão em relação ao processo das fake news no próprio Supremo, você tem movimentos que começam ir para as ruas e acredito que teremos grandes movimentações de massas que poderão influenciar muito o Congresso Nacional e o próprio presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que tem a decisão monocrática de abrir alguns dos processos de impeachment apresentados. Acredito que o pós pandemia pode ser o momento oportuno de grandes mobilizações sociais para levar a cabo o processo de impeachment.

O que precisaria ser feito imediatamente para começar a reverter a política de desmonte do estado brasileiro do atual governo?

Não queremos simplesmente tirar o Bolsonaro, mas revogar aquela emenda da Constituição que tirou recursos das áreas sociais, retomar os direitos que foram tirados com a reforma trabalhista, a reforma da previdência, enfim, revogar uma série de medidas para retomar a proteção ambiental, a proteção de populações tradicionais, A constituição nos obriga a trabalhar e a superar o fosso da desigualdade.. Queremos repensar o próprio modelo de desenvolvimento, contemplar os conceitos da transição ecológica, fomentar cadeias produtiva de baixa emissão de carbono. Antes da pandemia, já havia a crise climática planetária e o Brasil precisa estar preocupado com essa agenda ambiental internacional de cuidado com o planeta; retomar o conceito de que os países ricos e desenvolvidos assumissem sua cota maior de responsabilidade, aportando recursos e tecnologias para que os países em desenvolvimento possam melhorar as condições de vida do seu povo, sem precisar trilhar o caminho de países desenvolvidos que levaram o planeta numa situação de risco para a vida..

Bolsonaro tem maioria do ponto de vista da agenda econômica, com apoio da mídia e dos setores empresariais à política do ministro Paulo Guedes. , Acredito que ainda não teremos força para uma guinada completa da política econômica social, mas é o momento oportuno para gente debater esses dois pontos centrais que o mundo inteiro está discutindo: como enfrentar a desigualdade e a agenda ambiental da transição ecológica,

E para a retomada da democracia na América Latina?

Acredito que é esse enfrentamento que precisamos ir fazendo. A extrema direita conservadora, em todos os sentidos, avançou com apoio externo que está sendo desvendado e começa a ficar mais claro que essa guinada para a direita está trazendo mais sofrimento para o povo latino-americano em diversos países. ,Até em função da consequência da pandemia , será preciso reverter esse processo. Então eu vejo de forma positiva uma possível nova guinada nos próximos anos de governos populares, mais preocupados com a democracia e soberania de cada país e com o desenvolvimento dos seus povos. Acredito que nos próximos anos a tendência é a gente voltar para uma agenda um pouco mais positiva do ponto de vista do interesse da grande maioria do povo latino-americano como também do ponto de vista do debate do planeta com a preocupação da agenda ambiental.

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