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Solidariedade em tempos de coronavírus: o que os árabes devem fazer

Grupo de jovens voluntários realizam trabalhos de esterilização durante pandemia de coronavírus, em Gaza, 29 de março de 2020 [Mustafa Hassona/Agência Anadolu]

À medida que o coronavírus continua a devastar quase todo o planeta, os países árabes permanecem incapazes – ou relutantes – de formular uma estratégia coletiva para ajudar as populações árabes mais pobres e mais vulneráveis a sobreviver ao vírus mortal e à decorrente crise econômica.

Pior ainda, diante da solidariedade internacional cada vez maior, ainda não pudemos ver qualquer iniciativa pan-árabe com o objetivo de conceder apoio material aos países e regiões que foram mais atingidos pelo covid-19.

A falta de sensibilidade coletiva árabe não é uma exceção, ao passo que reflete o próprio fracasso sistemático da Europa em demonstrar “solidariedade” apenas nos momentos de conveniência financeira e virar as costas – por vezes, aos próprios irmãos e irmãs – quando não há qualquer interesse econômico.

Por exemplo, quando a Grécia deixou de pagar seus credores internacionais em 2015, Alemanha e outros países da União Europeia rapidamente aproveitaram a chance para desmantelar as principais instituições financeiras do país e lucrar com as misérias de Atenas.

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Toda a conversa sobre solidariedade, fraternidade e comunidade europeia chafurdou no altar da ganância e de lucros desmedidos.

Não é a primeira vez – tampouco a última – que o lado oportunista da União Europeia mostrou sua cara. De fato, a Europa é unida não por uma história comum ou laços sociais inquebrantáveis, mas sim pela crença compartilhada de que assim representa uma unidade econômica mais forte.

O mesmo cenário sórdido repetiu-se recentemente. À medida que a Itália começa a afrouxar as amarras diante do fardo insuportável do coronavírus, passou imediatamente – e naturalmente – a buscar ajuda de seus estados irmãos da Europa. Contudo, em vão.

Apesar de seu déficit significativo, a Itália é um agente majoritário no cenário econômico europeu e, de fato, em todo o mundo. A Itália representa efetivamente a 8ª maior economia do mundo. Porém, a economia do país vivencia agora um raro caso de queda livre, em particular nas regiões mais pobres ao sul de seu território, onde as pessoas literalmente passam fome.

Pessoas vestem máscaras nas ruas de Roma conforme aumenta exponencialmente a taxa de mortalidade do coronavírus (covid-19) na Itália, em 2 de março de 2020 [Baris Seçkin/Agência Anadolu]

O primeiro país a oferecer ajuda à Itália não foi França ou Alemanha, mas China, e em seguida Rússia, Cuba e outros.

Essa falta palpável de solidariedade entre os países europeus empoderou ainda mais a perspectiva etnocêntrica já prevalecente na Europa, representada por movimentos de extrema-direita como a Liga de Matteo Savini, na Itália. Por anos, Savini e seus aliados defenderam veementemente o fim da integração europeia.

Levará meses, não anos, para os efeitos políticos do coronavírus serem observados. Mas o que já é bastante claro é que focos econômicos regionais e internacionais buscam apostar suas fichas na consolidação de sua posição geopolítica no mundo pós-coronavírus.

Apesar das tentativas acanhadas dos Estados Unidos de se alinhar com o movimento de solidariedade internacional – com motivações obviamente políticas –, as frouxas medidas do Presidente Donald Trump chegaram tarde demais. Um grave sinal dos tempos é que apoio da chinês e russo de fato chovem sobre os Estados Unidos para socorrê-los diante do que representa hoje o maior número de casos de covid-19 em escala nacional.

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Porém, uma questão intrigante: onde se encaixam os árabes nisso tudo?

Itália e Espanha, em particular, compartilhar laços culturais e históricos e interesses políticos amplos com muitos países árabes, interesses que prevalecerão muito depois da erradicação do novo coronavírus. Ignorar Itália e Espanha diante do radar de solidariedade internacional será evidenciado, portanto, como uma grave erro de cálculo estratégico.

Israel, por outro lado, ativou efetivamente sua agência de assistência humanitária, a IsraAID, que operou anteriormente na Itália entre 2016 e 2019, após um grande terremoto que matou quase 300 pessoas e deixou danos estruturais massivos no país europeu.

Israel utiliza “assistência humanitária” como ferramenta e propaganda política. Missões israelenses costumam receber poucos recursos e durar pouco, mas seu impacto é amplificado pela poderosa máquina de mídia oficial que tenta projetar o estado sionista como “pacificador”, e não militarista.

A verdade é que alguns governos árabes fornecem recursos absolutamente necessários a países devastados por guerras e desastres naturais; lamentavelmente, tais esforços costumam ser desorganizados e autocentrados – e francamente não motivados por qualquer solidariedade verdadeira.

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Dito isso, a falta de iniciativas árabes no campo da solidariedade internacional é mínima em comparação à falta de solidariedade árabe dentro do próprio mundo árabe.

Segundo estimativas das Nações Unidas, há “101.4 milhões [de pessoas] na região que já vivem na pobreza, conforme critérios oficiais, e cerca de 52 milhões desnutridos.”

Bebê sírio malnutrido recebe tratamento em um hospital de Idlib, província da Síria, em 5 de outubro de 2019 [Muhammed Said/Agência Anadolu]

Uma breve nota política, emitida em 1° de abril, pela Comissão Social e Econômica das Nações Unidas para a Ásia Ocidental (ESCWA) projeta que 8.3 milhões de pessoas deverão logo juntar-se às massas de pobres e desnutridos em todo o mundo árabe.

À parte de discursos vazios e comunicados de imprensa absolutamente inúteis, ainda não pudemos ver qualquer iniciativa majoritária coletiva dos estados árabes, representado por exemplo pela Liga Árabe, a fim de conceder um equivalente árabe aos diversos planos de estímulo econômico postos em ação por muitos outros países e blocos regionais em todo o mundo.

No último mês de março, o Secretário-Geral das Nações Unidas António Guterres emitiu um “apelo por cessar-fogo global”, implorando ao mundo – em particular, às nações em guerra do Oriente Médio – um armistício generalizado capaz de unir todos os esforços em uma única guerra: contra o coronavírus.

Infelizmente, o apelo até então foi ignorado. A guerra na Líbia continua a escalar, e não apaziguar-se; Israel continua a assassinar palestinos na Cisjordânia ocupada; massas de refugiados da Síria, Turquia e outros países do Oriente Médio continuam a ser oprimidas.

Tempos de crise – especialmente aqueles que afetam a todos nós, independente de raça, religião ou geografia – costumam representar um grito de alerta, além de propor uma oportunidade por um novo começo e um novo contrato social, capaz de fazer ressurgir das cinzas todas as nossas dores coletivas, transformadas então em um mundo melhor.

Que o covid-19 seja a oportunidade que permitirá a todas as nações, especialmente no Oriente Médio, a assumir uma postura ampla contra a guerra, a fome e a doença; compartilhar suas riquezas e estender a mão solidária também a nossos aliados históricos na África e em todo o mundo.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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