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Israel não tem moral alguma após violar o corpo de um palestino na Faixa de Gaza

Tratores israelenses na cerca entre Gaza e Israel, 11 de abril de 2018 [Ashraf Amra/Apaimages]

Restaurar seu “poder de dissuasão” perdido sempre foi o pretexto de Israel para utilizar força excessiva contra os palestinos, em particular sobre a Faixa de Gaza sitiada. “Alterar as regras de engajamento” é outro termo que ouvimos bastante de oficiais israelenses no que se refere à abordagem diante das facções de resistência legítima.

Entretanto, o que ocorreu ontem (24) ao leste da cidade de Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, foi absolutamente inédito. Um vídeo chocante compartilhado online mostra o corpo de um palestino assassinado pendurado nas lâminas de um trator militar israelense após ser baleado e morto perto da cerca que determina a fronteira nominal entre Gaza e Israel. O registro horrível atraiu fortes reações de oficiais e grupos palestinos. Hanan Ashrawi, membro de alto escalão do Comitê Executivo da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), compartilhou via Twitter: “Doloroso demais assistir, quanto mais vivenciar tal crueldade, sadismo e loucura da ocupação e dos persistentes crimes israelenses.”

Israel arrasta e expõe palestino assassinado com um trator militar

Oficiais do Exército de Israel alegaram que o homem – ao lado de outro palestino que foi ferido na ocasião, mas conseguiu escapar – era suspeito de colocar um aparelho explosivo perto da fronteira, onde centenas de manifestantes palestinos foram mortos por soldados israelenses apenas nos anos recentes, sob uso de força excessiva contra civis desarmados. A organização não-governamental Adalah, Centro Legal para os Direitos da Minoria Árabe em Israel, reivindicou uma investigação criminal sobre o incidente e enviou uma carta ao chefe da Advocacia Militar Geral de Israel, Sharon Afek, detalhando que as ações “expostas no vídeo são consideradas crimes de guerra e violações flagrantes das leis penais, humanitárias e de direitos humanos internacionais.”

Mohammed Al-Naem, 27 anos, era membro do braço armado do movimento palestino de Jihad Islâmica, conhecido como Brigadas al-Quds. Seu corpo foi levado pelo trator e está detido pelo exército israelense. O incidente foi testemunhado por dezenas de civis palestinos desarmados e membros de equipes médicas que estiveram no local para tentar recuperar o corpo de Al-Naem, morto a tiros, mas que foram dispersados por disparos de um tanque israelense que atravessou a fronteira e entrou no território de Gaza, ferindo três pessoas.

O roubo humilhante do corpo representa evidentemente um exemplo das novas medidas introduzidas pelo Ministro da Defesa de Israel Naftali Bennett. Ele pretende manter os corpos de palestinos de Gaza para utilizá-los como moeda de troca a fim de pressionar o Hamas – governo de fato do território palestino – a liberar os restos mortais de dois soldados israelenses, além de dois outros oficiais considerados vivos, capturados durante a ofensiva militar de Israel sobre Gaza, em 2014.

Conforme a indignação escalou no dia de ontem, diversos disparos de projéteis caseiros foram lançados de Gaza em direção a assentamentos israelenses próximos. A decisão de retaliar aparentemente foi tomada pela Sala de Operações Conjuntas administrada pelo Hamas e outras facções.

“A resistência não hesitará em responder a qualquer ataque israelense e estamos preparados para qualquer operação de larga escala”, insistiu Musa’ab Al-Buraim, porta-voz da Jihad Islâmica em uma estação de televisão local. “Defenderemos nosso povo e não cruzaremos os braços diante disso.”

O Domo de Ferro de Israel – sistema de defesa antiaéreo – foi empregado horas após a resposta palestina. Sobretudo, dezenas de ataques aéreos israelenses foram executados nas últimas 24 horas sobre todo o território de Gaza, com alvo em postos de treinamento pertencentes à Jihad Islâmica, resultando em quatro feridos. Dois membros do movimento foram mortos por ataques aéreos contra uma instalação perto de Damasco, capital da Síria. Os ataques simultâneos pretendiam apontar o dedo para a liderança da Jihad Islâmica na Síria e Líbano, que possui apoio iraniano. A mensagem foi clara: as armas de Israel podem alcançar qualquer lugar, sob o pretexto de combater o “terrorismo”.

Sistema de defesa israelense conhecido como Domo de Ferro – inteiramente financiado pelos Estados Unidos para uso exclusivo de Israel – dispara um míssil de interceptação contra supostos ataques aéreos [foto de arquivo]

Como de costume, esforços de mediação conduzidos pelo Egito e pelas Nações Unidas foram feitos para tentar conter a situação, mas parece que as ameaças israelenses de realizar uma operação de larga escala contra Gaza não serão aceitas pelos grupos de resistência por duas razões fundamentais. Primeiro, as ameaças sempre são feitas em contexto de guerra psicológica, a fim de alterar as chamadas regras de engajamento. Segundo, declarações veementes de que deverão esmagar a resistência em Gaza servem aos interesses eleitorais do Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu, assim como seu principal rival Benny Gantz, ex-general e líder da coalizão Azul e Branco (Kahol Lavan). Gantz tomou para si a oportunidade de criticar os esforços de seu oponente em interceptar os disparos retaliatórios de Gaza. “O governo de Israel é refém do Hamas”, alegou Gantz. “Ismail Haniyeh [líder do Hamas] está extorquindo Netanyahu, que recebe tais ações com malas cheias de dólares.” Esta declaração tratou-se de uma evidente referência ao auxílio financeiro do Catar a Gaza.

Não é surpresa alguma que o sangue palestino em Gaza – laboratório aberto para testar as armas e munições israelenses em alvos vivos – é utilizado neste momento para implementar a popularidade de candidatos nas eleições porvir, mais notavelmente o próprio Netanyahu, acuado após fracassar em formar um governo nas últimas rodadas eleitorais de abril e setembro de 2019. Uma terceira rodada de eleições gerais em Israel em menos de um ano, marcada para 2 de março próximo, explica o apetite israelense em provocar os palestinos não apenas em Gaza, mas também nos territórios ocupados da Cisjordânia e Jerusalém. Candidatos competem entre si para demonstrar quem será mais severo com os palestinos, quem será capaz de desafiar mais as leis internacionais e quem poderá construir mais assentamentos, tudo isso com apoio da gestão de Donald Trump em Washington. Tornou-se regra para os palestinos que sejam utilizados por políticos e oficiais militares israelenses desta forma, para ganhos políticos particulares.

Desde a última ofensiva militar em larga escala contra Gaza, em meados de 2014, diversas negociações sobre tréguas e cessar-fogo foram mediadas, todas absolutamente frágeis. Os palestinos no território sitiado exigem a total suspensão do cerco, após treze anos, mas em vão. A relutância de Israel é uma forma de ganhar mais tempo para impor fatos em solo e chantagear as vítimas desde cerco à submissão, caso contrário, o auxílio financeiro do Catar não receberá permissão israelense para entrar nos territórios palestinos.

Enquanto escrevo, a atmosfera é de tensão conforme sirenes de alerta ressoam por toda a fronteira nominal e projéteis palestinos voam em direção aos assentamentos de Israel. Toda mensagem emitida por uma parte é recebida pela outra com ação militar. A força desproporcional de Israel, entretanto, não está produzindo o efeito desejado; não há bandeiras brancas hasteadas em Gaza. Além de tudo isso, seus dois milhões de habitantes não tem mais nada a perder após viverem sob brutal ocupação militar por décadas.

Os israelenses podem pensar que estão ditando as novas regras de engajamento, mas estão errados. Os grupos de resistência palestinos o estão fazendo ao demonstrar que, após violar o corpo de Mohammed Al-Naem, Israel abandonou qualquer princípio moral tão desejado aos olhos do mundo. Os milhares de prisioneiros políticos palestinos mantidos nas cadeias israelenses não são menos valorosos do que os cativos israelenses em Gaza; mutilar um corpo diante de uma câmera de vídeo jamais mudará isso.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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