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Romper com Washington: árabes e muçulmanos devem firmar posição sobre a Palestina

Presidente dos Estados Unidos Donald Trump, Rei da Arábia Saudita Salman bin Abdulaziz al-Saud, Rei da Jordânia Abdullah II e Presidente do Egito Abdel Fattah el-Sisi posam ao lado de outros oficiais para fotografia durante a Cúpula Islâmica Árabe-Americana em Riad, capital saudita, 21 de maio de 2017 [Mandel Ngan/AFP/Getty Images]

A solução negociada para o “conflito israelo-palestino”, ao menos no modelo contemplado pelas sucessivas administrações americanas, fracassou indubitavelmente. Agora, palestinos e aliados devem explorar um caminho completamente novo para a libertação da Palestina; uma estrada que não passa por Washington.

É fácil impor toda a culpa à atual gestão dos Estados Unidos, ao nos concentramos em personagens problemáticos como Jared Kushner, genro do presidente, responsável pessoal por deteriorar efetivamente quaisquer chances reais para uma paz justa e duradoura entre Israel e Palestina.

A verdade, entretanto, difere gravemente das suposições convenientemente adotadas. O “processo de paz”, tão defendido pelos Estados Unidos, entrou em hiato desde as últimas negociações, em 2014. Por anos e anos que antecederam o anúncio de Donald Trump sobre suas propostas para o Oriente Médio, em 28 de janeiro, Israel fez tudo que pôde para garantir que os palestinos jamais tenham um estado próprio. Tais esforços não se resumiram apenas ao discurso de oficiais israelenses, que abertamente reiteraram seu desejo de anexar – de modo ilegal – grande parte dos territórios ocupados. O governo de Israel também assumiu diversas medidas para garantir a expansão constante dos assentamentos ilegais exclusivamente judaicos.

Poderíamos ser ingênuos politicamente ou mesmo moralmente cegos em pressupor que o governo israelense, em qualquer momento do passado, tenha demonstrado o ínfimo interesse em estabelecer de fato uma paz justa e abrangente, que garantiria ao povo palestino o mínimo de dignidade, liberdade e justiça.

Ainda assim, todos jogaram conforme as regras: Israel resmungou que não possuía nenhum parceiro de paz à medida que entrincheirava sua ocupação militar e expandia seu regime colonial; a Autoridade Palestina (AP), liderada pelo presidente Mahmoud Abbas, acenou incessantemente ameaças vazias, absolutamente inefetivas; os Estados Unidos reivindicaram a ambas as partes que retornassem às “negociações não-condicionais”, enquanto financiava o exército e a economia israelense em valores totais de US$ 3.8 bilhões; as Nações Unidas e a União Europeia seguiram um roteiro político previsível visto como mais “moderado” do que Washington, e ainda assim fracassaram em realizar qualquer ação significativa para desencorajar Israel de maiores violações à lei internacional.

Enquanto isso, a Liga Árabe e a Organização para a Cooperação Islâmica (OCI), supostamente os aliados mais consistentes da Palestina, permaneceram marginais e, de longe, menos relevantes do que qualquer outra parte envolvida. Suas declarações eventuais em apoio aos palestinos e seu repúdio à ocupação israelense tornaram-se previsíveis e inefetivos. Fora Abbas e seus parceiros políticos, nenhum palestino comum enxerga valor em apoios verbais que raramente são traduzidos em ação concreta.

De algum modo, este paradigma distorcido manteve-se por anos e anos, em parte porque servia a todos, exceto – é claro – ao povo palestino, cuja dominação e humilhação submetidas por Israel foram continuamente executadas sem restrições.

Atualmente, há duas tendências distintas lutando para definir a situação na Palestina após o “acordo do século”.

A primeira, Israel e Estados Unidos, busca traduzir o “plano de paz” para o Oriente Médio em ação rápida e irreversível. Estão ansiosos para anexar todos os assentamentos ilegais nos territórios ocupados do Vale do Jordão – aproximadamente 30% do tamanho total da Cisjordânia. Além disso, Washington gostaria de ver seus esforços diligentes e clandestinos para normalizar as relações entre estados árabes e Israel traduzidos em acordos tangíveis e, eventualmente, plena restauração de laços diplomáticos.

Segundo: a Autoridade Palestina, a União Europeia, as Nações Unidas, a Liga Árabe, a OCI. Tais grupos repudiam e desejam ver derrotado o “acordo do século”, mas não possuem qualquer caminho alternativo para seguir. Insistem no respeito à lei internacional e permanecem apoiadores inflexíveis do paradigma de dois estados – hoje, absolutamente inviável. Entretanto, não são capazes de organizar qualquer estratégia real, muito menos estabelecer mecanismos capazes de executá-la.

O campo de apoio à Autoridade Palestina fede a contradições, não menos óbvias do que as contradições emanadas pela Autoridade de Abbas, que afirma buscar formas de “resistência popular” – em colaboração com Israel – à medida que oprime qualquer tentativa de desafiar a ocupação.

Um exemplo perfeito destas contradições é que, apenas dois dias após a Liga Árabe emitir nota de repúdio ao “acordo do século”, o chefe do Conselho Soberano do Sudão Abdel Fattah al-Burhan reuniu-se com o Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu, em Uganda. Burhan espera que a normalização das relações de seu país com Israel caiam nas graças dos Estados Unidos.

Outro exemplo está no próprio comportamento de Abbas. Em 1° de fevereiro, o presidente da Autoridade Palestina declarou que romperia todos os contatos com Israel, incluindo a chamada cooperação de segurança, principal pilar dos acordos de Oslo, que praticamente emprega forças da Autoridade Palestina a serviço da ocupação israelense.

Não é a primeira vez que Abbas recorre a este argumento de sobrevida; jamais cumpriu suas promessas. Não há porque imaginar que desta vez será diferente.

Há pouca esperança de que o campo de apoio à Autoridade Palestina possa derrotar o “acordo do século”, como fica evidente pela atual estrutura política.

As declarações finais do encontro de emergência da Liga Árabe, no Cairo, capital do Egito, e da OCI, em Jeddah, Arábia Saudita, no início de fevereiro, somente repete diversas conferências passadas, nas quais promessas e afirmações de repúdio foram feitas; contudo, sem ações subsequentes.

Caso árabes e muçulmanos sejam, de fato, sinceros em seu desejo de confrontar a conspiração americano-israelense, devem então ir além deste padrão sufocante de políticas inefetivas. Não basta rejeitar o estratagema de Washington e denunciar as ações israelenses. É preciso reunir coragem suficiente para transformar falas em estratégias concretas e unificadas, e sua estratégia em ação, sob todos os meios à disposição.

Países árabes desfrutam de enorme vantagem econômica e política em Washington e todo o mundo. Qual o valor de tantas vantagens se não forem utilizadas em defesa da Palestina e seu povo?

Washington e Tel Aviv contam com o fato de que a indignação em torno do “acordo do século” entre árabes e muçulmanos eventualmente definhe, exatamente como ocorreu após Trump reconhecer Jerusalém como “capital indivisível” de Israel e transferir a embaixada americana de Tel Aviv para a cidade ocupada, em maio de 2018.

Caso árabes e muçulmanos voltem a fracassar em relação à Palestina, o povo palestino encontrará a si mesmo novamente sozinho em sua luta desesperada por liberdade e justiça, sem qualquer outra alternativa para resistir à ocupação. E quando os palestinos decidirem rebelar-se – certamente, irão –, seu levante desafiará não apenas Israel, mas todo o aparato regional e internacional que permitiu que a ocupação israelense se preservasse sem restrições por anos e anos.

LEIA: Palestina desvencilhada: como enfrentar a anexação e o ‘acordo do século’

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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