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Palestinos em Israel são o próximo alvo do ‘acordo do século’

Mulheres em Gaza protestam contra o ‘plano de paz’ proposto pelo Presidente dos Estados Unidos Donald Trump, em 5 de fevereiro de 2020 [Mohammad Asad/Monitor do Oriente Médio]

Israelenses de todas as preferências políticas acolheram e celebraram o “plano de paz” proposto pelo Presidente dos Estados Unidos Donald Trump, mas os cidadãos palestinos do autodenominado estado judaico se indignaram pelo fato de que o plano lhes impõe transferência demográfica de suas casas em Israel (territórios ocupados em 1948) ao território administrado pela Autoridade Palestina. A cláusula de “permuta” confirma um fato histórico: Israel deseja deslocá-los, cumprindo assim ambições de extrema-direita.

Membros árabes do Knesset – parlamento israelense – prometeram não concordar de modo algum com o “acordo do século” e sua proposta explícita de anexação. Entretanto, o governo de direita israelense agora possui luz verde para livrar-se de centenas de milhares de cidadãos palestinos que moram na área do “Triângulo”, no norte de Israel.

Está claro que o plano de Trump não se trata apenas de tomar mais e mais terras da Palestina ocupada em 1967, mas que também deseja “transferir” os palestinos das áreas ocupadas em 1948. Israel deseja “permutar” a área e principalmente sua população com a Autoridade Palestina. Deste modo, protestos contra o plano não se resumem apenas à solidariedade com os palestinos na Cisjordânia e Faixa de Gaza, além dos refugiados na diáspora. Há também em curso uma conspiração contra a existência palestina dentro do “estado judeu”.

Os palestinos em Israel realizaram reuniões de emergência sobre as implicações do acordo, em particular àqueles no Triângulo, área predominantemente árabe no território ocupado por Israel desde 1948, próxima à Cisjordânia, dividida entre Triângulo Norte – cidades de Kafr Qara, Ar’ara, Baqa Al-Gharbiyye e Umm Al-Fahm – e Triângulo Sul – Qalansawe, Tayibe, Kafr Qasim, Tira, Kafr Bara e Jaljulia. Trata-se também de uma forte posição do movimento islâmico dentro de Israel, liderado pelo Sheikh Raed Salah.

A parte do Triângulo mencionada no plano de Trump cobre 350 km². A área ameaçada pela “permuta” cobre mais de 42.000 acres (aproximadamente 170 km²), habitada por 300.000 palestinos que representam 20 por cento da população total de palestinos dentro de Israel, que possuem cidadania israelense. Tais aldeias e cidades são, portanto, fonte de preocupação demográfica por parte das autoridades israelenses devido à sua população crescente. Espera-se que a população palestina nessas áreas chegue a 500.000 pessoas nos próximos cinco anos, alterando a balança demográfica em favor dos árabes palestinos.

O Triângulo possui certa natureza mais tradicional do que outras regiões árabes mais integradas no território de Israel. Transferir suas terras e populações para fora destas áreas poderá levar à perda de indivíduos e comunidades que preservam a identidade tradicional na Palestina ocupada em 1948. Grupos políticos locais acreditam que a transferência demográfica e de terras é uma extensão de esforços anteriores realizados por Israel para liquidar a questão palestina. Israel quer mais e mais terras; contudo, sem os palestinos que as habitam. Não é a primeira vez que israelenses buscam transferir um grande número de residentes do Triângulo e quantidades de terra. Tal medida não apenas afetará os palestinos diretamente envolvidos como também suas famílias estendidas e contatos sociais, muitos dos quais serão rompidos.

O caso de amor de Trump e Netanyahu em torno de Jerusalém e do destino do povo palestino – cartum [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Esforços para judaizar áreas do Triângulo concederam a Israel alguma inserção estratégica que pôde incluir um cinturão de assentamentos nos subúrbios das cidades e aldeias árabes. Tais medidas causaram enorme aflição aos palestinos locais, devido a ataques quase diários cometidos por colonos contra eles e suas propriedades. Também há receios de que outro massacre – semelhante ao massacre de Kafr Qasem, em 1956 – esteja prestes a acontecer, a fim de obrigar a população local a deixar a área “voluntariamente”.

Um plano desenvolvido pelo falecido Primeiro-Ministro de Israel Ariel Sharon, intitulado projeto “Sete Estrelas”, tentou anteriormente alterar a natureza demográfica do Triângulo. Uma maioria judaica seria criada ao estabelecer centros religiosos, barrar o desenvolvimento de Umm Al-Fahm e ligar a região aos assentamentos na Cisjordânia ocupada. Este plano também veria o fim da chamada Linha Verde – “Armistício” – imposta em 1949, que divide os territórios palestinos ocupados em 1948 daqueles ocupados em 1967. Os territórios ocupados em 1967 supostamente formariam o “Estado da Palestina”, segundo consenso internacional. O projeto de Sharon, no entanto, jamais avançou para além do estágio de discussão.

É evidente que Israel pretende comprar mais tempo para impor um fato consumado sobre as terras ocupadas, de modo que o Knesset aprove o acordo. Embora os parlamentares árabes em Israel sejam a terceira maior coalizão, com doze assentos, suas chances de obstruir a votação do plano é praticamente inexistente, considerando o consenso geral entre israelenses para implementar a proposta de Trump.

Os israelenses já declararam que o crescimento da população palestina em Israel é uma “bomba-relógio demográfica”. Com o declínio das taxas de nascimento entre judeus israelenses, o receio é que palestinos superem seus números em toda a Palestina histórica já nos próximos dez anos.

A transferência de terras para neutralizar esta “ameaça” ao caráter judeu do Estado de Israel já havia sido sugerida anteriormente, é claro. Após 1967, as políticas de Israel nos territórios recém-ocupados incluíram a anexação de Jerusalém, até hoje não reconhecida pela maioria dos países do mundo; consequentemente, incluíram confisco de terras, demolições de casas e unidades de infraestrutura e revogação de direitos de residência em terras nativas.

Em 1982, um documento secreto convocou o Ministério do Interior de Israel a reprimir os palestinos violentamente e pressioná-los a deixar suas terras. Em 1988, o plano foi absorvido pelo General Rehavam Ze’evi, notoriamente racista, e pelo rabino Meir Kahane, que incitou ataques diretos a Umm Al-Fahm, como forma de provocar seus residentes.

Em 2004, o ex-Ministro da Defesa Avigdor Lieberman propôs a transferência de assentamentos israelenses menores na Cisjordânia com aldeias e cidades árabes no Triângulo, com base em acordos similares feitos após a Segunda Guerra Mundial. O “plano de paz” de Donald Trump é meramente, portanto, um projeto de judaização das terras com apoio direto dos Estados Unidos, concedendo a Israel tudo que deseja hoje. Seus propósitos e objetivos refletem esquemas prévios.

Ex-Ministro de Defesa de Israel Avigdor Lieberman em coletiva de imprensa no parlamento de Israel, em Jerusalém, 14 de novembro de 2018 [Lior Mizrahi/Getty Images]

As agências de segurança de Israel também estão preocupadas com o crescimento da influência e das atividades do movimento islâmico dentro do “estado judeu”, em particular no Triângulo, à medida que suas ideias são próximas aos paradigmas propostos pela Irmandade Muçulmana. O movimento palestino também mobiliza voluntários contra as violações israelenses sobre a Mesquita de Al-Aqsa. O temor é que o conflito reincida em confrontos intensos entre muçulmanos e judeus.

O momento do anúncio do chamado “acordo do século” evidentemente auxiliou a vida política de Netanyahu, que enfrenta mais uma rodada de eleições gerais em março próximo – a terceira em menos de um ano –, além de acusações de corrupção. O acordo representa uma sobrevida ao primeiro-ministro israelense. Entretanto, a aprovação e implementação de seus termos pode ser postergada até depois das eleições, concedendo aos parlamentares árabes tempo para tentar impedir o deslocamento de cidadãos palestinos do Triângulo.

Os palestinos em Israel acreditam que o “plano de paz” de Trump é tudo menos pacífico, e que inevitavelmente levará a violência. Ao cumprir os anseios e objetivos da extrema-direita de Israel, a proposta parece entrincheirar ainda mais o status de Israel como estado de apartheid, no qual a população nativa enfrenta legislações cada vez mais discriminatórias e deslocamento forçado. Permanece incerto se os palestinos serão capazes de impedir a implementação da proposta, ao menos no que se refere à cláusula de “permuta”, que busca privar uma população ainda maior de seus direitos como cidadão e transferí-la, portanto, contra sua vontade.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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