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#MuathEye: Um confronto entre os rifles da ocupação e os olhos abertos às suas violações

Palestinos usam tapa-olho sobre o olho esquerdo, em referência a Muath Amarneh, durante protesto contra as violações israelenses a jornalistas, em Nablus, Cisjordânia, 17 de novembro de 2019 [Nedal Eshtayah/Agência Anadolu]

Na sexta-feira, 15 de novembro, o fotojornalista Muath Amarneh deixou sua casa vestindo um uniforme de imprensa e um capacete azul para cobrir as manifestações dos residentes da aldeia de Surif, perto de Hebron (Al-Khalil), na Cisjordânia ocupada, contra a expropriação de suas terras pelo Estado de Israel. No fim do dia, Amarneh foi ele próprio assunto de uma série de notícias e fotos que circularam na imprensa. Os manifestantes levaram-no do local até o hospital após o Exército de Israel lhe infligir um ferimento brutal ao seu olho esquerdo.

Pode-se supor que Muath Amarneh perdeu um de seus olhos pelas mesmas balas de borracha que custaram a muitos palestinos antes dele ferimentos semelhantes. Ainda assim, nos dias seguintes, o fotojornalista recebeu atenção daqueles que se solidarizaram a seu caso por todo o mundo. Muitos compartilharam imagens de Amarneh após a agressão, junto das hashtags #Muatheye (“olho de Muath”) e #Eyeoftruth (“olho da verdade”).

Tamanha violência não é novidade no comportamento das forças da ocupação, as quais perseguem deliberadamente aqueles que registram imagens jornalísticas da situação na Palestina ocupada. Entretanto, os tempos mudaram e as vítimas de tais violações não estão mais sozinhas. Os sucessivos ataques israelenses contra jornalistas e fotógrafos em campo revelam que o sistema militar da ocupação, projetado no século XX, não se adaptou ainda à nova era. Seus soldados pensam ser fácil atirar contra jornalistas que levam consigo câmeras fotográficas, em tentativa de encobrir a situação local do resto do mundo. Não obstante, cometem tais violações em tempos de smartphones, streaming e redes sociais, o que sugere que a ocupação é incapaz de se adaptar à lógica do século XXI.

A ocupação israelense e o regime de apartheid reconheceram desde o princípio a importância do conceito de “batalha por consciências”. Logo, adotaram táticas e estratégias de propaganda para que pudessem criar uma falsa realidade a partir de abordagens falaciosas e diversionistas sobre suas políticas de ocupação, assentamentos, assassinatos, violações e abusos de direitos humanos.

A máquina da propaganda israelense é conhecida por sua influência significativa, desde o primeiro momento, além de sua expertise em falsificar a imagem da própria ocupação.

A disputa entre as autoridades da ocupação, apoiadas por uma superpotência, por um lado, e o povo sob sua dominação direta, por outra, não costuma ser equivalente ou equilibrada. Entretanto, a realidade representada pela mídia alternativa permanece baseada na realidade em campo, que não pode ser encoberta para sempre, além de denunciar efetivamente a falsificação de tais imagens diante da verdade exposta aos olhos do mundo.

Um dos dilemas enfrentados pela propaganda da ocupação é o fato de que a questão palestina se baseia em uma narrativa histórica específica e evidente, que não pode ser negada por qualquer alegação objetiva, livre de preconceitos e discriminação. Fatos cotidianos dão apoio a esta narrativa. Quem, por exemplo, pode convencer o mundo de que sitiar terras agrárias palestinas e erguer enormes muros cinzentos sobre comunidades inteiras é uma política ideal? Ou que o assassinato de crianças que brincam nas praias ou a prisão de menores que dormem em suas casas é um comportamento que motiva orgulho? Ou mesmo que a execução de um paramédico palestino vestindo um jaleco branco em campo, ao lado de massacres e mais massacres contra dezenas de manifestantes pacíficos de todas as idades, possa ser justificado como um comportamento moral ou civilizado?

Caso a máquina militar israelense decida controlar a terra à força e continuar a privar o povo palestino de seus direitos à liberdade e autodeterminação, desde sua origem no século passado, então seu problema permanece existente junto da realidade miserável que a própria ocupação criou e continua a reforçar por meio de violência. Este contexto é representado, especialmente, pelo desejo resiliente de libertação expressado continuamente pelos palestinos, geração após geração. As autoridades da ocupação não tiveram sorte nos tempos recentes, dadas as novas oportunidades para as massas ao redor do mundo acompanharem tais atos de opressão e brutalidade que ocorrem em solo palestino. A diversificação dos meios de comunicação direta e difusão de informações continuarão a impor mais e mais pressão às propagandas da ocupação.

Parece ser compreensível, portanto, que repórteres e jornalistas sejam alvos deliberados de agressões violentas e mesmo franco-atiradores do exército israelense, à medida que os olhos abertos à realidade local possam revelar uma verdade histórica e deteriorar a propaganda ingênua que propaga alegações falaciosas.

Deste modo, a violência da ocupação israelense não apenas alveja manifestantes palestinos na Faixa de Gaza e Cisjordânia ocupada, mas também procura intimidar jornalistas e profissionais de imprensa. Efetivamente, a ocupação fez uso de inúmeros meios de intimidação, incluindo ao executá-los sumariamente, ferí-los, agredí-los e prendê-los.

Este é um confronto entre a arma e a câmera ou ainda uma disputa entre a bala e os olhos abertos às violações cotidianas.

O jornalista Muath Amarneh de fato perdeu um de seus olhos em campo, enquanto trabalhava. Ainda assim, recebeu a atenção de apoiadores por todo o mundo, que cobriram o olho esquerdo em solidariedade e mantiveram o outro aberto para monitorar e revelar a verdade que não pode continuar sequestrada pela ocupação israelense em nossos tempos presentes.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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