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Deslocamento em Gaza e a obsessão demográfica de Israel

Equipe local e deficientes auxiliados pela Confederação de Pessoas Deficientes inspecionam o edifício destruído da sede da entidade, única do tipo na cidade de Rafah, após ataques israelenses contra Gaza, 7 de maio de 2019 [Ali Jadallah/Agência Anadolu]

Declarações feitas por uma fonte política israelense de alto escalão – provavelmente o próprio Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu –, publicadas na imprensa de Israel, incluindo o jornal Haaretz, em 20 de agosto, referentes às medidas tomadas pelo estado israelense para deslocar as populações palestinas da Faixa de Gaza, recordam-nos daquilo que Israel chama de ameaça demográfica. Tais ações incluem garantir uma maioria judaica no país, tópico central desde o estabelecimento do projeto colonial de assentamentos sionista. Por que então deslocar os palestinos de Gaza? Por que agora? Há a possibilidade real deste plano ser instituído?

Israel implementa todas as formas possíveis de deslocamento, inclusive via limpeza étnica, a fim de reduzir o número de palestinos na Palestina tanto quanto possível e, deste modo, alcançar o objetivo principal do projeto sionista: impor uma maioria judaica na Palestina, onde sua população nativa vive há milhares de anos. Este método por si só não alcança os resultados almejados; por isso, Israel atraiu dezenas de milhares de judeus árabes e não-árabes a fim de estabelecer com sucesso o estado de Israel sobre as ruínas do povo palestino em 1948. No entanto, os riscos demográficos continuaram a ameaçar Israel após a ocupação e o controle das populações e territórios palestinos em 1967.

Segundo a mentalidade dos novos colonos, a ameaça demográfica racial é imposta pela resistência e pelo compromisso palestino em relação às suas terras, apesar dos métodos de deslocamento – ora sutis, ora severos – aos quais são submetidos. Em particular, este é o caso para muitos oficiais israelenses, incluindo uma declaração feita por um militar de alto escalão ao jornal Haaretz em 26 de março de 2018, ao afirmar que as estimativas do Exército sugeriam que o número de árabes em Israel, Cisjordânia e Gaza supera o número de judeus. Tal fato evidentemente representa um dilema constante ao sionismo colonial.

Como manterão sua maioria judaica artificial? Isso será feito ao concordar com a solução de dois estados a fim de se livrar de todos os palestinos possíveis, como sugerido pelos partidos moderados e de esquerda em Israel? Ou a situação deplorável da ocupação – isto é, o apartheid – continuará a ser o status quo? Ou será que anexarão as áreas ocupadas em 1967, à medida que negam à sua população quaisquer direitos políticos, portanto sacrificando princípios democráticos e maioria numérica em troca de mais um princípio colonial sionista – controlar toda a Palestina –, como sugerido pela direita radical israelense?

As declarações da fonte política de alto escalão – provavelmente, Netanyahu – foram feitas especificamente agora para expressar a impotência e fracasso de suas políticas atuais diante da resistência palestina em Gaza e em outras regiões da Palestina. Também expõem uma nova tentativa feita por Netanyahu para reconquistar a simpatia do eleitorado de direita israelense, que sonha em expulsar os palestinos seja como for.

O fato de que apenas uma pequena e limitada parcela dos palestinos deslocam-se para o exterior – seja por razões aceitáveis, provavelmente, ou inaceitáveis – significa que os planos de Israel para expulsá-los não foi bem sucedido. Ao contrário, representa seu fracasso, apesar de todos os esforços, tentativas e capacidades dedicadas a alcançar essa meta, incluindo o cerco e a opressão ao povo palestino. Também significa que a determinação, perseverança e consciência dos palestinos cresce cada vez mais e que a noção israelense generalizada de risco demográfico apenas corrobora a força dessa resistência.

Este artigo foi publicado originalmente em árabe, pelo Centro Palestino de Informação, em 21 de agosto de 2019.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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