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Relembrando o ataque incendiário contra a Mesquita de Al-Aqsa

Mesquita de Al-Aqsa em chamas após atentado incendiário executado por Denis Michael Rohan, em 21 de agosto de 1969 [Wikipedia]

Em 21 de agosto de 1969, Denis Michael Rohan – um fundamentalista cristão de nacionalidade australiana – tentou por fogo na Mesquita de Al-Aqsa. Suas ações aparentemente receberam a bênção das forças de ocupação israelenses. Cerca de 48 anos depois, o Nobre Santuário de Al-Aqsa permanece sob enorme ameaça.

O que: Ataque incendiário

Onde: Mesquita de Al-Aqsa, Jerusalém

Quando: 21 de agosto de 1969

O australiano Denis Michael Rohan, escoltado por forças policiais israelenses, deixa o tribunal onde respondeu pelo atentado incendiário contra a Mesquita de Al-Aqsa, em 21 de agosto de 1969
[Bettman Corbis/Wikipedia]

O que aconteceu?

Era o início da manhã de uma quinta-feira quando o alarme soou. Guardas palestinos no complexo de Al-Aqsa viram a fumaça surgir da ala sudeste da mesquita. Ao investigarem mais de perto, notaram um foco de incêndio na sala de orações.

Muçulmanos e cristãos correram à mesquita para conter as chamas, mas as forças da ocupação israelenses impediram sua entrada. Breves confrontos eclodiram, embora ferozes. Os voluntários então conseguiram entrar no Nobre Santuário e passaram a lutar contra as chamas. Após extintores falharem, buscaram fontes de água mas as bombas locais estavam quebradas e as mangueiras, cortadas. Eles se reuniram para formar uma corrente humana e utilizaram baldes e outros pequenos compartimentos para trazer água ao edifício.

Conforme chegavam caminhões de bombeiro das cidades de Nablus, Ramallah, Al-Bireh, Belém, Hebron (Al-Khalil), Jenin e Tulkarem – todas na Cisjordânia vizinha –, as forças de ocupação israelenses também os impediram de chegar ao local do incêndio. Alegavam que era responsabilidade da Prefeitura de Jerusalém lidar com a situação. O fogo queimou por horas, as chamas chegaram às janelas, logo abaixo do domo, até que o incêndio foi finalmente controlado.

À medida que a fumaça se dissipava, foi possível enxergar a extensão dos danos. O fogo varreu algumas das partes mais antigas da mesquita, mais notavelmente destruiu o púlpito de marfim e madeira, de 900 anos, concedido por Salahuddin Al-Ayubi – herói islâmico na retomada de Jerusalém das Cruzadas –, além de painéis mosaicos nas paredes e tetos. Muitas áreas da mesquita estavam enegrecidas e chamuscadas pelo incêndio.

As notícias se espalhavam e manifestações indignadas tomaram as ruas por toda a cidade. Jerusalém ocupada entrou em greve geral, um movimento repetido em toda a Cisjordânia e mesmo nos territórios israelenses. Como resposta, todos os acessos à mesquita foram bloqueados pelas forças de segurança de Israel. As orações de sexta-feira, no dia seguinte, não foram realizadas no complexo pela primeira vez na história.

Um suspeito foi logo identificado: Denis Michael Rohan, turista cristão de nacionalidade australiana, preso em 23 de agosto. Rohan não teve receios de anunciar as razões para o seu crime; como “emissário do Senhor”, desejava acelerar o segundo advento de Jesus que, para ele, só poderia ser alcançado caso os judeus construíssem um templo no lugar da Mesquita de Al-Aqsa, onde alegava estar originalmente o Templo de Salomão.

Rohan foi declarado insano e internado numa instituição psiquiátrica; no entanto, muitas pessoas se mantiveram céticas sobre ter operado sozinho. Em 28 de agosto, uma reclamação foi emitida por 24 nações de maioria islâmica ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. Nela, o embaixador jordaniano na ONU, Mohamed El-Farra, afirmou:

“Segundo notícias originadas de fontes israelense, o suspeito australiano é amigo de Israel e foi levado ao local pela Agência Judaica para trabalhar para o país. A Agência Judaica lhe arranjou emprego em um Kibbutz por alguns meses, de modo que pudesse aprender o idioma hebraico e adquirir maiores conhecimentos sobre o sionismo… a vida do australiano no Kibbutz e seus sonhos de construir o Templo de Salomão levantam dúvidas ao caso e levam medos e preocupações aos muçulmanos em relação aos seus locais sagrados. Também esclarece quem é o criminoso e que é seu cúmplice.”

A carta referia-se a inúmeros comentários feitos nos anos anteriores por oficiais israelenses que prometiam estabelecer o Templo de Salomão no lugar da Mesquita de Al-Aqsa. As contínuas agressões israelenses contra palestinos também foram abordadas, à luz da ocupação ilegal da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, dois anos antes, após a Guerra de 1967.

A ONU respondeu ao condenar o ataque e reivindicar que Israel revogasse todos os planos para alterar o status de Jerusalém. Israel ignorou mais essa resolução, como fez com todos os chamados internacionais anteriores e posteriores.

A suspeita de que Israel estivesse ativamente envolvido no planejamento e na facilitação do atentado incendiário jamais foi refutada. Muitos enxergam neste episódio a normalização da intimidação sionista, incluindo as tentativas de Israel de erradicar a herança palestina na região, como fonte definitiva para a ideologia por trás do ataque – além de todos os outros ataques ocorridos desde então.

O que aconteceu a seguir?

Forças israelenses assumem medidas de segurança nos portões da Mesquita de Al-Aqsa, após autoridade de Israel decidirem remover detectores de metal do complexo de Al-Aqsa, em Jerusalém, 25 de julho de 2017 [Mahmoud Ibrahem/Agência Anadolu]

Neste ano, o aniversário do ataque incendiário ocorre poucas semanas depois de outra ameaça e violação contra a santidade da Mesquita de Al-Aqsa. Após um atentado a tiros em 14 de julho, forças da ocupação israelenses fecharam a mesquita pela primeira vez desde o episódio de 1969, e instalaram detectores de metal e câmeras de vigilância no complexo ao reabrí-lo. O movimento levou a novos protestos generalizados à medida que Israel era novamente acusado de violar o status quo de Al-Aqsa ao impor medidas abusivas de segurança. Fiéis palestinos manifestaram-se pacificamente do lado de fora do muro do complexo, em um protesto sit-in. As forças de Israel voltaram a reprimí-los violentamente e confrontos com o exército deixaram seis mortos e milhares de feridos, nas duas semanas seguintes.

Após onze dias de indignação e manifestações, Israel recuou e removeu todas as medidas abusivas e ofensivas. Os palestinos comemoraram ao entrar na mesquita, mas tal incidente serve para lembrá-los que as agressões contra a Al-Aqsa jamais acabaram. Até hoje, a mesquita resiste como um símbolo das violações cotidianas dos mais básicos direitos do povo palestino, incluindo sua liberdade de culto.

De forma bastante similar, a falta de ações efetivas contra tais ataques por parte dos estados árabes permaneceu constante. Em 1969, os países de maioria islâmica redigiram uma carta de condenação; contudo, quase 50 anos depois, Al-Aqsa ainda é regularmente invadida por colonos judeus e forças armadas de segurança, fiéis são rejeitados nos portões e as fundações da estrutura são destruídas pela construção de túneis. A Jordânia pagou pela reconstrução da mesquita danificada pelo incêndio. Entretanto, embora Al-Aqsa estivesse sitiada no último mês de julho, o governo em Amã preferiu priorizar o retorno de um atirador israelense a Tel Aviv, a pedido dos Estados Unidos.

Ao nos lembrarmos do atentado incendiário contra a Mesquita de Al-Aqsa torna-se claro que o Nobre Santuário enfrenta as mesmas ameaças de 50 anos atrás – quem sabe, ainda maiores.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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