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Notre Dame de Gaza: Nossas mesquitas e igrejas também estão em chamas

Palestinos da aldeia de Jabaa, a leste de Ramallah, diante dos danos afligidos a uma mesquita por atentado incendiário cometido por colonos israelenses, durante a madrugada, em 29 de junho de 2012 [AFP Photo/Abbas Momani/Getty]

Quando a torre de 91 metros de altura da Catedral de Notre Dome, em Paris, desabou tragicamente sob transmissão televisiva ao vivo, meus pensamentos se aventuraram no Campo de Refugiados de Nuseirat, onde morei quando criança, na Faixa de Gaza.

Então, na mesma televisão, enxerguei as ações de um pequeno trator que destruía irremediavelmente os escombros da mesquita de meu bairro. Cresci em torno dessa mesquita. Passei muitas horas lá com meu avô, Mohammed, refugiado da Palestina histórica. Antes de meu avô se tornar refugiado, ele era um jovem imã em uma pequena mesquita da sua aldeia natal, Beit Daras, há muito tempo destruída.

Mohammed e muitos outros contemporâneos se consolaram ao construir sua mesquita no campo de refugiados logo que chegaram à Faixa de Gaza, no final de 1948. A nova mesquita foi construída, a princípio, com barro endurecido; porém, acabou sendo reconstruída com tijolos e depois com concreto. Meu avô passou muito do seu tempo naquela mesquita, e quando morreu, seu corpo velho e frágil foi levado para lá para uma oração final, antes de ser enterrado no Cemitério dos Mártires adjacente. Quando eu ainda era criança, meu avô costumava segurar minha mão enquanto caminhávamos juntos para a mesquita durante os momentos de oração. Quando ele envelheceu e mal conseguia andar, eu, por sua vez, segurei sua mão.

Contudo, Al-Masjid al-Kabir – a Grande Mesquita, mais tarde renomeada Mesquita Al-Qassam – foi totalmente pulverizada por mísseis israelenses durante a guerra em Gaza do verão de 2014, entre 8 de julho até agosto.

Um veículo remove os escombros da Mesquita al-Oassam, destruída por ataques aéreos israelenses no Campo de Refugiados de Nuseirat, em Gaza, 9 de agosto de 2014 [Ashraf Amra/Agência Anadolu]

Os militares israelenses atacaram centenas de edifícios religiosos palestinos durante as guerras anteriores, principalmente em 2008-9 e 2012. A guerra de 2014, no entanto, foi a mais brutal e mais destrutiva de todas. Milhares foram mortos, outros milhares feridos. Nada estava imune às bombas israelenses. De acordo com os registros da Organização pela Libertação da Palestina, 63 mesquitas foram destruídas e 150 danificadas somente durante aquela guerra; em muitos casos, civis que buscavam abrigo no interior das mesquitas foram mortos pelos bombardeios. No caso de minha mesquita, dois corpos foram recuperados após uma busca longa e dolorosa. Os mortos não tiveram a menor chance de resgate. Caso sobrevivessem aos explosivos mortais, teriam sido esmagados por placas maciças de concreto.

De fato, concreto, cimento, tijolos e estruturas físicas não carregam muito significado em si mesmos. Nós lhes damos significado. Nossas experiências coletivas, nossas dores, alegrias, esperanças e fé definem a natureza dos nossos santuários.

Inúmeras gerações de católicos franceses atribuíram à Catedral de Notre Dame seus significados estruturais e seu próprio simbolismo, desde o século XII.

Enquanto o fogo consumia o telhado de carvalho e grande parte da estrutura, os cidadãos franceses e muitos outros ao redor do mundo assistiam estupefatos. É como se as lembranças, orações e esperanças de uma nação enraizada no tempo fossem repentinamente reveladas, emergindo, de uma única vez, junto aos pilares de fumaça e fogo.

Porém, a mesma imprensa que cobriu as notícias do incêndio de Notre Dame pareceu alheia à destruição de tudo que consideramos sagrado na Palestina, considerando que, dia após dia, o maquinário de guerra israelense prossegue em explodir, destruir e profanar.

É como se nossas religiões não fossem dignas de respeito, apesar da Palestina ser o local de nascimento do cristianismo. Foi na Palestina que Jesus percorreu as colinas e vales de nossa pátria histórica ensinando as pessoas sobre paz, amor e justiça. A região também é central para o Islã. Haram al-Sharif, onde repousam a Mesquita al-Aqsa e o Domo da Rocha, é o terceiro local mais sagrado para os muçulmanos em todo o mundo. Locais religiosos cristãos e muçulmanos são sitiados, muitas vezes invadidos e fechados por decretos militares. Além disso, extremistas messiânicos judeus, protegidos pelo exército israelense, almejam demolir Al-Aqsa, enquanto o governo israelense mantém escavações sob sua estrutura por anos e anos.

Embora nada disso seja realizado em segredo, qualquer objeção internacional permanece emudecida. Muitos acreditam que as ações de Israel são justificadas. Alguns aceitaram a explicação ridícula oferecida pelos militares israelenses de que bombardear mesquitas é uma medida de segurança necessária. Outros são motivados por sua próprias profecias religiosas e pelo obscurantismo.

A Palestina, no entanto, é somente um microcosmo de toda a região. Muitos de nós estão familiarizados com a terrível destruição executada por grupos militantes marginais contra patrimônios culturais mundiais na Síria, no Iraque e no Afeganistão. Os casos mais marcante são a destruição de Palmira, na Síria, dos Buddhas de Bamyan, no Afeganistão, e da Grande Mesquita de al-Nuri, em Mosul.

Palestinos rezam em uma mesquita de Gaza, parcialmente destruída [foto de arquivo]

Nada, no entanto, pode ser comparado ao que o exército invasor dos EUA fez ao Iraque. Não apenas os invasores profanaram um país soberano e brutalizaram seu povo, mas também devastaram sua cultura que remonta ao início da civilização humana. Somente as conseqüências imediatas da invasão resultaram na pilhagem de mais de 15.000 antiguidades iraquianas, incluindo a Dama de Warka, também conhecida como a Mona Lisa da Mesopotâmia, um artefato sumério cuja história remonta a 3100 aC.

Tive o privilégio de ver muitos desses artefatos em uma visita ao Museu do Iraque apenas alguns anos antes de os soldados americanos saquearem o local. Na época, os curadores iraquianos mantinham todas as peças preciosas escondidas em um porão fortificado, como prevenção a uma eventual campanha de bombardeios americanos. Todavia, nada poderia preparar o museu para a selvageria desencadeada pela invasão terrestre. Desde então, a cultura iraquiana foi reduzida a itens do mercado negro, comercializados pelos próprios invasores ocidentais que destruíram o país. O corajoso trabalho dos aguerridos trabalhadores de cultura iraquianos e seus colegas ao redor do mundo conseguiu restaurar parte dessa dignidade espoliada; porém, levará muitos anos para o berço da civilização humana resgatar sua honra vencida.

Todas as mesquitas, todas as igrejas, todos os cemitérios, todas as obras de arte e todos os artefatos são importantes porque carregam significado, dado a eles por aqueles que os construíram ou buscaram neles uma rota de fuga, um momento de consolo, esperança, fé e paz.

Em 2 de agosto de 2014, o exército israelense bombardeou a histórica Mesquita Al-Omari, no norte de Gaza. A antiga mesquita data do século VII e desde então tem servido como um símbolo de resistência e fé para o povo de Gaza.

Quando as chamas tomaram Notre Dame, pensei também em Al-Omari. Embora o incêndio na catedral francesa tenha sido provavelmente acidental, os edifícios religiosos palestinos foram deliberadamente almejados e destruídos. Os criminosos israelenses ainda não foram responsabilizados.

Também pensei em meu avô, Mohammed, o generoso imã de barba branca e vistosa. Sua mesquita serviu como único subterfúgio a uma existência problemática, um exílio que só terminou com sua morte.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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