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Conferência americana ‘Paz para Prosperidade’ oferece à Palestina pouquíssima esperança

Entidades palestinas anunciaram uma greve geral na Cisjordânia ocupada e em Gaza sitiada em protesto contra a conferência “Paz para Prosperidade”, com sede no Bahrein, 25 de junho de 2019 [Mohammed Asad/Monitor do Oriente Médio]

A visão futurista da administração de Donald Trump para a Faixa de Gaza é algo que poderia ser sonhado para um parque temático de Hollywood, com praias imaculadas que se estendem às águas calmas e azuis do Mar Mediterrâneo. Porém, ignora o fato de que são as mesmas praias onde as bombas israelenses assassinaram crianças palestinas que jogavam bola na areia e famílias inteiras que aproveitavam um dia de piquenique.

A perspectiva americana para uma metrópole emergente convenientemente ignora as dezenas de milhares de civis palestinos mortos e feridos durante as três grandes ofensivas militares de Israel contra a faixa litorânea. A chamada Operação Margem Protetora, iniciada em 8 de julho de 2014, por exemplo, resultou no massacre de milhares de civis em um período de sete semanas no qual a carnificina, os penosos bombardeios e a devastação em escala de massa foram infligidos contra a população sitiada de Gaza, que não tinha, portanto, para onde correr. Mais de 550 crianças palestinas estavam entre os mortos; outras centenas de crianças sofreram ferimentos permanentes no decorrer destes crimes de guerra, cuja responsabilidade jamais foi apurada até então.

Por um lado, estes são os fatos descartados pelo genro do presidente americano, cujo anseio é fazer com que o mundo abrace sua visão de prosperidade econômica para a Palestina. Jared Kushner é casado com a filha de Donald Trump e age como conselheiro sênior da Casa Branca, embora possua pouca ou nenhuma experiência diplomática no Oriente Médio. Em campanha, Kushner viaja e se vangloria pelo mundo a fim de promover essa imagem cintilante.

O que ele não fará, no entanto, é tratar do verdadeiro problema, ou seja, da forma exata pela qual os palestinos conseguirão alcançar seus objetivos de soberania para um estado palestino. Todas as ações de Kushner ocorrem na ordem errada; podemos dizer que ele coloca o carro na frente dos bois.

Além disso, esta farsa é redundante. Uma tentativa similar – a gestão de Trump carece de originalidade – ocorreu durante os momentos de otimismo do processo de paz dos Acordos de Oslo. Mel Levine, advogado e político americano, e James Zogby, co-fundador e presidente do Instituto Árabe-Americano, serviram como co-presidentes para um projeto chamado Construtores pela Paz (Builders for Peace, no original, em inglês), que reuniu uma poderosa equipe de lideranças judaico-americanas e árabe-americanas da comunidade empresarial.

Em paralelo ao processo de paz, cujo propósito era negociar uma resolução política real para o conflito israelo-palestino dentro de um prazo de cinco anos, este prestigioso time de empresários passou a desenvolver um esquema para levar prosperidade à Palestina. O projeto mal durou três anos e fracassou miseravelmente devido à intransigência de Israel. O crescimento econômico e o estímulo aos negócios só poderia então – significativamente, o mesmo vale para hoje – ser alcançado através da liberdade de ir e vir tanto para as mercadorias quanto para os próprios palestinos. Somente tal independência poderia lhes permitir a importação de produtos básicos e a exportação de produtos industrializados para o resto do mundo.

A despeito dos termos dos Acordos de Oslo e dos subsequentes compromissos econômicos, o governo de Israel consistentemente recusou-se a abdicar do controle absoluto da economia palestina nos territórios ocupados. Dessa forma, a verdadeira liberdade para que os palestinos comercializassem com o mundo foi efetivamente destruída, à medida que empresas multinacionais retiravam suas ofertas para expandir ou realocar-se na Palestina enquanto ainda estivesse sob ocupação israelense.

Vinte e cinco anos dos Acordos de Oslo – cartum [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

A abordagem mesquinha e virulenta de Israel chegou a atingir até mesmo uma pequena embarcação com mudas de flores cultivadas em Gaza, cujo intuito era dar início a um plano de exportação de flores à Europa. Os israelenses se recusaram a permitir que as mudas fossem descarregadas; como resultado direto, apodreceram e morreram.

A verdade é que toda a evidência sugere o fato de que o Estado Palestino só poderá florescer caso Israel se afaste e pare de intervir. Israel, no entanto, não deseja ver a Palestina prosperar para além do controle sionista. Um estudo recente do Banco Mundial revelou que os palestinos poderiam triplicar seu índice de crescimento caso as barreiras ao livre comércio fossem suspensas, mas a última coisa que Israel deseja é uma narrativa de sucesso a partir da Palestina.

Sobretudo, graças à sucessiva expansão dos assentamentos ilegais israelenses em Jerusalém e na Cisjordânia ocupada, a Palestina foi reduzida a uma série de guetos isolados cercados por bloqueios viários, pelo muro grotesco da separação e por estradas exclusivas aos colonos judeus, de modo que é impossível estabelecer sequer o direito de ir e vir livremente, seja para o comércio ou para qualquer atividade da vida cotidiana. Jerusalém Oriental, que certa vez serviu como bastião econômico, político, social e cultural para os sertões da Cisjordânia, agora foi anexada por Israel em um movimento ilegal repudiado pela maior parte do mundo, o que somente alimenta o sofrimento palestino. A situação em Gaza é ainda pior.

Diante deste contexto de miséria e provação, é razoável questionar por que Kushner parece tão ansioso para sua conferência “Paz para Prosperidade”, realizada no Bahrein. Alguns dirão que é um projeto narcisista ou um subterfúgio para que o empresariado de Trump identifique quem tem cacife para gastar. Contudo, a lógica determina: sem qualquer solução política viável presente na conferência, o evento não irá a lugar algum. Da forma como está, é um insulto a todos os palestinos que vivem na miséria em Jerusalém, Cisjordânia e Faixa de Gaza, além daqueles que vivem nos campos de refugiados em todo o Oriente Médio e na diáspora ampla.

Como qualquer coisa que emerge da fábrica de fantasias que se tornou a Casa Branca, essa proposta é uma farsa grotesca concebida por uma administração cujo presidente atingiu destaque não por seus méritos, mas sim por reality show exibidos na TV. Os palestinos, entretanto, merecem coisa melhor. O povo palestino precisa de liberdade de comércio e liberdade de ir e vir; somente isso atrairá investimentos. Porém, enquanto Israel mantiver seu controle brutal sobre os territórios palestinos ocupados e sua economia, nada disso poderá acontecer.

A proposta de Trump e Kushner no valor de US$ 50 bilhões, publicadas em um dossiê de 90 páginas divulgado no Bahrein, é quase tão ingênua quanto aqueles que decidiram comparecer à conferência, o que não inclui os israelenses e os próprios palestinos. Se isso não é capaz de nos alarmar, não sei o que poderá ser.

Na realidade, qualquer apoio prometido em Manama será condicional às soluções políticas apresentadas pelo chamado “acordo do século”, de Donald Trump. Enquanto isso, a América de Trump cada vez menos parece ser um mediador honesto e confiável nos processos de paz do Oriente Médio à medida em que continua a tomar decisões absolutamente desatinadas sobre Jerusalém, sobre o status dos refugiados palestinos e sobre o futuro do território sírio das Colinas de Golã.

Em conclusão, tenho outro alerta para o povo palestino. As promessas de dinheiro público, investimento estrangeiro e financiamento internacional ao conquistar sua independência e soberania também foram feitas aos bons cidadãos do Timor Leste e do Sudão do Sul. A experiência demonstra que as promessas são fáceis e fartas, mas que o verdadeiro investimento é bastante ilusório, a menos que a liberdade genuína seja parte do acordo. É improvável que o “acordo do século” de Donald Trump forneça qualquer coisa perto disso. A conferência “Paz para Prosperidade” de fato oferece à Palestina e ao seu povo pouquíssima esperança.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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