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Relembrando a retirada israelense do sul do Líbano

Israel retirou-se do Líbano em 13 de Junho (Wikipedia)

Neste dia, em 1978, as forças militares israelenses finalmente se retiraram do Líbano, três meses após sua invasão ao sul do país, em um esforço para caçar e eliminar a Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Tratou-se fundamentalmente de uma extensão ao conflito israelo-palestino para além das fronteiras vizinhas, atraindo diversos outros agentes e compondo o catalisador para futuras incursões ao território libanês.

O que: A retirada israelense do sul do Líbano

Quando: 13 de junho de 1978

Onde: Sul do Líbano

O que aconteceu?

Na noite de 14 de março de 1978, o Exército de Israel lançou uma invasão de grandes proporções ao sul do Líbano, após a morte de aproximadamente 30 israelenses em um ataque ocorrido dois dias antes no litoral de ISrael, entre a cidade de Haifa a Tel Aviv. A responsabilidade pelo ataque foi assumida pelo Fatah, cuja base ficava no sul do território libanês, após ser expulso da Jordânia em 1970.

Apesar da invasão ser vista generalizadamente como uma retaliação pela ataque em território de Israel, ela foi mais amplamente conduzida com o propósito de erradicar as bases dos grupos de resistência palestina na região e estabelecer uma zona de segurança que se estenderia cerca de seis milhas (ou de 9,5 km) para dentro do território libanês, conforme asseverado pelo porta-voz israelense no dia seguinte à incursão. Mais tarde, ainda no dia 14 de março, Ezer Weizman, Ministro da Defesa de Israel, anunciou em uma coletiva de imprensa que a operação foi lançada “para limpar a área infestada de uma vez por todas” e alertou para a continuidade da ocupação israelense sobre o território invadido até que estivesse certo de que a OLP não pudesse mais atacar Israel.

Além das 20.000-25.000 tropas de infantaria israelenses, apoiadas por tanques, artilharia, aviões de combate e navios canhoneiros, algumas milícias cristãs libanesas também apoiaram a invasão israelense e se aliaram a eles. Tais milícias, a mais proeminente das quais era o Exército do Sul do Líbano (ESL), se constituíram durante a guerra civil libanesa e o subsequente colapso do exército nacional, em 1967. As milícias estimavam-se, na época, entre 1.500 e 2.500 combatentes.

No fim do primeiro dia da invasão, as forças israelenses conseguiram invadir ao menos cinco posições palestinas no sul do Rio Litani. A seguir, bombardearam o porto de Tiro, sob alegação de que a OLP recebia armas dali. Os campos de refugiados vizinhos foram almejados porque Israel afirmava serem utilizados como bases de treinamento. A OLP havia antecipado o ataque israelense e retirado a maior parte de seu contingente, deixando apenas um quinto dos 5.000 combatentes originais no sul do território libanês.

A aliança entre o Exército de Israel e as milícias cristãs provou-se desastrosa para a população refugiada palestina e para a população muçulmana como um todo, devido à pilhagem generalizada das aldeias no caminho da invasão, incluindo o massacre de cerca de setenta muçulmano que se abrigavam em um mesquita na cidade de Khaim, conforme relatos.

Logo, eclodiu certa condenação internacional à invasão israelense, em particular pelos estados árabes. O governo libanês imediatamente fez um pedido formal ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para que enviasse uma força-tarefa de paz internacional à região. Com o seu objetivo no sul do Líbano cumprido, o governo israelense declarou um cessar-fogo em 21 de março, entre chamados incessantes pela retirada militar a partir da comunidade internacional, incluindo Estados Unidos, Grã-Bretanha e outras nações ocidentais. Após uma série de negociações com as Nações Unidas, o Exército israelense, em 13 de junho, finalmente retirou suas últimas tropas do Líbano.

O que aconteceu a seguir?

Após a retirada israelense, a comunidade internacional enviou ao território sul do Rio Litani uma nova força-tarefa chamada Força Interina das Nações Unidas no Líbano (FINUL), com o intuito de permanecer ali por um período de seis meses, sob condições israelenses de que a área “não mais servirá como base para terroristas e seus ataques assassinos”, além de garantir “o bem-estar e o modo de vida normal dos cidadãos de Israel e do sul do Líbano.”

Contudo, o Exército israelense não somente concedeu território à missão das Nações Unidas, mas também ao ESL – maior milícia cristã aliada a Israel – que ganhou diversas posições capturadas durante toda a invasão. A milícia, sob o comando do Major Saad Haddad, assegurou uma faixa de oito milhas de extensão (aproximadamente 13 km) que cobria toda a região de fronteira. O ESL viria a ser uma pedra no sapato das forças da ONU por todo o período da missão, com disputas regulares entre ambos até que a FINUL cedesse permitir à milícia que mantivesse suas armas e territórios, em troca do direito por participar na patrulha da fronteira.

A Operação Litani foi, efetivamente, o catalisador para inúmeras hostilidades, invasões e confrontos entre Israel e os diversos agentes no interior do Líbano, e foi a primeira de muitas rupturas com a soberania territorial libanesa. Isso tornou-se evidente durante a Guerra Israel-Líbano – “Operação de Paz para a Galileia” –, em 1982, quando a invasão israelense no sul do território libanês foi novamente auxiliada pelas forças de Haddad, agora metamorfoseadas no autoproclamado “Estado Livre do Líbano”, reconhecido somente por Israel

A invasão israelense ao sul do Líbano – e sua consequente retirada, três meses depois, neste dia 13 de junho – foi, portanto, a primeira de muitas. Este episódio é ainda mais relevante considerando os atuais receios de que Israel planeja outra incursão ao território. Dessa vez, o casus belli, ou justificativa de guerra, seria supostamente o Hezbollah, que ganhou postos no interior do país. Com o Rio Litani sendo a fronteira natural, como já é, tal conflito ocorreria inevitavelmente na mesma área dos conflitos anteriores, nas mesmas terras que já o vivenciaram, neste dia histórico.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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