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Apartheid é um crime: Retratos da ocupação israelense

Autor do livro(s) :Mats Svensson
Data de publicação :abril de 2019
Editora :Cune Press
ISBN-13 :9781614572237

Mats Svensson, ex-diplomata sueco cuja experiência pessoal na Palestina abriu possibilidades para repensar as narrativas palestinas, esclarece o papel da diplomacia no prefácio de seu livro “Apartheid é um Crime – Retratos da ocupação israelense” (Cune Press, 2019). Os diplomatas, declara ele, “não poderiam chamar um ladrão de ladrão, assassino de assassino, colonialismo de colonialismo, apartheid de apartheid. A única coisa que importava era a diplomacia silenciosa. Tão silenciosa que ninguém a ouviu.”

Uma das ramificações do silêncio diplomático tem sido a obliteração das narrativas palestinas em favor de uma visão distorcida sobre o que constitui a Palestina e os palestinos. “Como uma verdade incontestável pode ser tão distorcida?”, pergunta o escritor e acadêmico palestino Ramzy Baroud em seu prefácio ao livro.

Cartaz de protesto em Londres contra a Lei do Estado Nação de Israel. Lê-se: “Israel é um empreendimento racista.” [Apaimages]

O tempo de Svensson na Palestina aguça suas observações, ao ponto de se poder distinguir que, em certa medida, a humanidade gentilmente corrobora com a sua presença. De um coletivo de palestinos marginalizados e explorados, vemos indivíduos formando um grupo complexo com histórias e experiências diversas. Além dos estereótipos midiáticos e diplomáticos que simplificam os palestinos por conveniência, a fotografia de Svensson procura os lugares e as histórias que são generalizadas sob termos como as violações de direitos humanos e os oprimidos.

Há paisagens alteradas e pessoas palestinas vistas individualmente, cada uma sobrecarregada com o trauma contínuo da Nakba. “O contador de histórias, Mats, é tão importante quanto a história”, observa Baroud. Em algumas páginas no livro, é fácil discernir por quê. Svensson narra como o projeto de fotografia da Palestina começou com a sua caminhada, observando a vida palestina longe dos perfis estereotipados. Estando entre os palestinos e enxergando o mundo junto a eles, como um estranho imerso, o autor e o fotógrafo relembram como foi fazer contato visual “com a senhora idosa que carregava uma história de vida de perdas diárias”.

Somos levados a imaginar quais são essas perdas. Mesmo com o conhecimento das atrocidades cometidas durante a Nakba e suas consequências, não há como escapar do fato de que muitas histórias permanecem ocultas por várias razões, entre elas a falta de oportunidades para que as narrativas palestinas ocupem seu lugar de protagonismo por direito. A observação de Svensson parece uma metáfora do resto do livro e seu conteúdo; fotografias em preto e branco da memória da Palestina e as perpétuas violações e humilhações sofridas pela colonização e pelo apartheid de Israel.

O livro faz referência a citações de palestinos, israelenses e líderes internacionais, justapostos a retratos de pessoas e paisagens. Os diplomatas, diz Svensson, contribuíram para fortalecer a ocupação militar israelense. Essas declarações emitidas pelo autor são importantes para contextualizar o material visual fornecido no livro. A comunidade diplomática e os líderes mundiais, em particular, falam da boca para fora em acabar com a ocupação colonial de Israel. É impossível levar a sério George W. Bush e Barack Obama quando se fala em paz quando, na prática, a presença de Israel e a narrativa de segurança foram perpetuamente priorizados por eles. No entanto, a inclusão desses comentários no livro fornece o contraste necessário entre a narrativa palestina e o mundo diplomático, sendo este último retoricamente previsível, com consequências desastrosas para o povo palestino.

A responsabilização está, de fato, ausente nas relíquias da destruição referentes a 1948 e na fealdade do Muro do Apartheid que dilacera o território palestino, e tudo o que existe entre elas. Contudo, não é inexistente.

A África do Sul e a Palestina estão do mesmo lado (“Ainda, o apartheid existe”) – cartum
[Sabaaneh/Middle East Monitor]

A Palestina está presente, em fatias da história que nos clamam por maior atenção. As fotografias de Svensson de Litfa, por exemplo, aldeia vítima da limpeza étnica durante a Nakba, podem ser resumidas nas palavras do autor: “É aqui que nasceu a sua resistência e a sua espera constante”.

Desde a limpeza étnica sistemática que expulsou os palestinos de suas terras e os subjugou às práticas premeditadas do apartheid, assim como à destruição da Faixa de Gaza, as fotos falam por si mesmas. As paisagens em transformação também transformaram as pessoas, enquanto a memória se tornou um elo a ser protegido a todo custo, especialmente quando o espaço geofísico ficou sobrecarregado com manifestações do colonialismo e da violência israelenses. O Muro do Apartheid é um assunto recorrente na fotografia de Svensson; uma cerca ainda mais esmagadora quando as fotos são tiradas das janelas voltadas para a monstruosidade. Nas proximidades do muro, por cautela, os palestinos são forçados a olhar para trás. As fotografias do livro são desprovidas da publicidade associada ao Hotel Walled-Off de Banksy, e a ausência de tais protestos glorificados que beiram a exploração faz com que as imagens se destaquem como realidade cotidiana dos palestinos.

Abaixo do muro, cinco canos de esgoto fornecem aos palestinos acesso humilhante à passagem. “Quando vi seu andar cambaleante pelo túnel de esgoto”, escreve Svensson, “percebi outra lição sobre o que significa viver sob a humilhação israelense”.

As fotos da destruição de Gaza e dos palestinos que ali vivem são particularmente impressionantes. Os retratos em close-up fazem o espectador imaginar como é olhar para um palestino desalojado por trás de uma câmera. Como você olha nos olhos de uma pessoa e entende cada história individual em seu coração?

A convincente fotografia e as breves reflexões de Svensson mostram mais da Palestina do que as representações cuidadosamente preparadas com o potencial de enganar em vez de transmitir significados tangíveis da Palestina e do povo palestino. Mais importante ainda, o livro não procura impor quaisquer definições aos próprios palestinos. As diferentes citações de todo um espectro de alianças e agendas justapostas contra as vozes palestinas e a fotografia do autor mostram que dispor a narrativa do povo da Palestina como elemento central é realmente possível, apesar dos esforços diplomáticos para abafar as vozes palestinos e detrair seu povo ao aspecto de meros produtos da política externa.

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