O inevitável declínio e queda do sionismo

Jasim Al-Azzawi
18 minutos ago

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O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu discursa durante uma conferência do AIPAC em Washington, EUA, em 6 de março de 2018 [Chip Somodevilla/Getty Images]

Há um momento na vida moral das nações em que as mentiras que as sustentaram não podem mais se manter. Israel está vivendo esse momento. As imagens que vieram de Gaza não eram evidência da brutalidade da guerra. São a autópsia do mito meticulosamente construído de Israel como um refúgio para os perseguidos, uma democracia no deserto e um farol moral em um mar de barbárie. Esse mito, tão elaboradamente mantido, tão ferozmente defendido, foi agora consumido pelas próprias ruínas que criou.

O jornalista e escritor Chris Hedges, uma das poucas vozes na mídia americana que ousou falar abertamente enquanto outros tremiam, alertou anos atrás que “demos a Israel carta branca para promover limpeza étnica, ocupar e oprimir”. O mundo não deu ouvidos, abafado pela acusação de antissemitismo, esse instrumento contundente usado não para proteger o povo judeu, mas para silenciar verdades duras. Por uma geração, a acusação funcionou. Ela calou línguas, acabou com carreiras e encerrou debates. Hoje, ela cai como um cartucho vazio em um chão de pedra. O mundo já viu demais.

“Gaza não é apenas um lugar. É um julgamento”, Gideon Levy, Haaretz.

Gideon Levy, escrevendo de dentro de Israel com a coragem solitária de um homem que se recusou a aceitar qualquer silêncio confortável, passou décadas documentando o que seu próprio país se recusava a ver. Ele escreveu que Israel “perdeu o rumo” e que “a ocupação não é apenas uma questão política; é uma catástrofe moral”.

Agora, a catástrofe é visível a todos. Não há mais filtros nem disfarces. Um membro de criança nos escombros. Um hospital reduzido a um túmulo. Uma família dizimada em um único ataque. O mundo observa e se lembra. Relações públicas astutas não podem reparar essa imagem despedaçada.

O Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu mandados de prisão contra o primeiro-ministro israelense Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Galant por crimes contra a humanidade. As forças armadas de Israel foram incluídas na Lista da Vergonha das Nações Unidas. Essas não são invenções de propagandistas; são os veredictos de instituições ocidentais. A questão não diz respeito mais apenas a Israel. Diz respeito às potências ocidentais que forneceram as bombas, a cobertura diplomática e os vetos rituais. O Ocidente tornou-se cúmplice e agora precisa lidar com as consequências de seu próprio envolvimento. Em seu livro “Wages of Rebellion” (Os Salários da Rebelião), Chris Hedges escreve: “A questão não é se Israel sobreviverá a esta guerra. A questão é se sua alma — se é que ainda lhe resta alguma — conseguirá”.

A jovem geração na Europa e na América do Norte assistiu a tudo isso em seus celulares, em tempo real, com seus próprios olhos. Eles não vivenciaram o Holocausto. Não sentem nenhuma culpa herdada — e com razão. A culpa geracional, instrumentalizada como paralisia política, não é memória; é manipulação.

Quando a filósofa judia Hannah Arendt alertou que “a banalidade do mal” reside não nos monstros, mas nos funcionários que seguem ordens e desviam o olhar, ela jamais poderia imaginar que suas palavras um dia se aplicariam ao próprio Estado criado à sombra desse mal. Mas a história é implacável em suas ironias.

Milhões marcharam. Londres, Paris, Nova York, Berlim, Jacarta, Joanesburgo. Os números não refletem um sentimento passageiro; são um veredicto condenatório. A simpatia pela Palestina deixou de ser uma posição marginal sussurrada à margem da sociedade educada. Tornou-se a posição moral comum de uma nova geração que se recusa a herdar o silêncio de seus pais.

“O arco do universo moral é longo”, disse Martin Luther King Jr., “mas se curva em direção à justiça”. Está se curvando agora — dolorosamente, irreversivelmente, na direção de Gaza.

O que foi destruído nestes meses não é mera infraestrutura. É o último andaime de um mito fabricado. A narrativa que Israel propagou sobre si mesmo desmoronou sob o peso de suas próprias contradições. O domínio do sionismo sobre as potências e os povos ocidentais está em seus estertores. O medo de ser rotulado de antissemita provoca escárnio e risos. Israel é hoje o país mais odiado do planeta, um estado pária, isolado e desprezado como um país genocida. O Holocausto de Gaza conseguiu tudo isso.

Até mesmo as formidáveis ​​fortalezas estão ruindo. O Congresso dos Estados Unidos — aquela fortaleza outrora confiável de apoio incondicional a Israel,

onde a influência do AIPAC transformava a dissidência em uma heresia que acabava com qualquer carreira, já não é inexpugnável. A torrente rompeu suas muralhas. Não resta nenhum santuário.

Um Estado que perpetra o que o Tribunal Internacional de Justiça designou formalmente como um genocídio plausível perde qualquer direito a um legado moral. A contradição é obscena. Está agora gravada nas retinas de um mundo atento, quadro a quadro, criança a criança, entulho a entulho. Nenhuma assessoria de imprensa consegue ignorá-la. Nenhum diplomata, por mais eloquente que seja, consegue disfarçá-la com um discurso cuidadosamente elaborado nas Nações Unidas. A ferida é profunda demais para ser suturada. O sionismo fez o que nenhum inimigo conseguiu: devorou ​​seu próprio mito, em seu próprio fogo, com as próprias mãos. E a história, essa contadora paciente e implacável, finalmente abriu seu livro-razão.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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