Neste mês de fevereiro, atletas palestinos, clubes de futebol e organizações de direitos humanos enviaram juntos um dossiê de 120 páginas ao Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede em Haia, acusando o presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA), Gianni Infantino, e seu homólogo da União das Associações Europeias de Futebol (UEFA), Aleksander Ceferin, de “auxiliar e incitar crimes de guerra [e] lesa-humanidade”. A queixa cita ambas as entidades e seus cartolas por incluir em seus eventos e torneios clubes de futebol israelenses radicados em assentamentos ilegais, ao legitimizar a expansão destes e a subsequente transferência compulsória dos palestinos nativos das terras ocupadas. Segundo a denúncia, Infantino e Ceferin agem com absoluta ciência de que as práticas de Israel constituem crimes de guerra, sob a lei internacional, ao capitularem e cooperarem com Tel Aviv e Washington no sentido de integrar os clubes coloniais israelenses.
O passo seguinte da FIFA foi anunciar sua colaboração com o chamado Conselho de Paz do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o pretexto de “buscar ativamente investimentos de lideranças e instituições internacionais, ao explorar o poder do futebol, para apoiar a recuperação, estabilidade e desenvolvimento de longo prazo em regiões de conflito [sic]”. O acordo, angariar US$75 milhões, foi assinado por Infantino junto do membro executivo do órgão colonial para Gaza, Yakir Gaby, além do alto-representante a Gaza, Nickolay Mladenov, e do comissário-chefe para administração de Gaza, Ali Shaath.
Com Gaza completamente subjugada a uma agenda internacional liderada pelo regime trumpista nos Estados Unidos, a FIFA de Infantino prometeu, para a Fase IV de seu plano, construir um estádio nacional palestino com capacidade de 20 mil pessoas, no intuito de “reforçar a identidade nacional, gerar recursos comerciais e servir como âncora de longo prazo à coesão societária”. A medida, no entanto, nos compele a questionar se o cartola, sua organização e mesmo o chamado Conselho de Paz realmente conhecem a identidade nacional palestina. Por exemplo, a existência de uma identidade nacional palestina muito antecedente ao advento do sionismo e do colonialismo no país, ou como essa identidade integra fundamental e precisamente a luta anticolonial contra a ocupação. O quanto sabe Infantino de como Gaza representa a totalidade da Palestina, e não uma imagem imposta a sua população, por aqueles que desejam destruí-la, para acelerar, na prática, o avanço colonial de Israel?
Dos 808 atletas assassinados pelo exército israelense durante o genocídio em Gaza, nos últimos dois anos e meio, ao menos 421 eram jogadores de futebol. Durante a chamada Operação Margem Protetora, apenas entre julho e agosto de 2014, Israel executou outros 344 jogadores de futebol. Apesar dos números aterradores, a FIFA reiteradamente negou-se a agir por sanções ou reprimendas contra Israel.
Agora, o regime da ocupação e do apartheid israelense tem um assento de destaque no Conselho de Paz. Os palestinos, não.
Em 2025, na cidade suíça de Zurique, alegou Infantino: “A FIFA não pode se comprometer a solucionar problemas geopolíticos [sic], mas pode e deve promover o esporte ao redor do mundo, ao cultivar seus valores de união, educacionais, culturais e humanitários”. O Conselho de Paz, não obstante, não prioriza nenhum desses ideias; os palestinos seguem ausentes, sem direito à voz; e a cumplicidade da FIFA apenas centraliza a organização no âmago das estruturas políticas palestinos hoje existentes. Colaborar com o Conselho de Paz não auxilia em nada a reconstrução de Gaza para sua população nativa e carente; o único beneficiário é de fato Israel.
Em momento algum, a FIFA buscou penalizar Israel pelo genocídio. Por mais que Trump e seu governo busquem retratar Gaza como um grande terreno baldio após o genocídio, a terra está repleta de corpos de palestinos que sequer foram recuperados. Realizar obras sobre uma gigantesca cova coletiva, com dezenas de milhares de corpos, como hoje é a Faixa de Gaza sitiada, oblitera uma parte considerável da identidade nacional palestina. Infantino e a FIFA, no entanto, tentam agora convencer o mundo de que erguer um estádio e eventualmente vender ingressos, sobre a morte e a destruição, pode auxiliar as famílias palestinas, sua cultura, sua tragédia, sua ancestralidade, de alguma maneira.
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