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A festa da diplomação no Brasil e o mundo paralelo dos que assombram democracias

A entrega do diploma ao presidente da República eleito, Luiz Inácio Lula da Silva [Sérgio Torquato]
A entrega do diploma ao presidente da República eleito, Luiz Inácio Lula da Silva [Sérgio Torquato]

Os bolsonaristas que saíram queimando ônibus na segunda-feira (12) em Brasília estão na mídia, incendiando suas redes sociais e inflamando âncoras de telejornais. Diz o Blog do Noblat que os vândalos foram alimentados pela primeira dama cessante, Michele Bolsonaro. Se foram ou não, há quem cuide para que eles permaneçam o quanto puderem nos seus postos, para atrapalhar a posse do futuro presidente. Mas a verdade é que eles nem conseguiram ciscar farelos na área da diplomação do presidente da República eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu vice, Geraldo Alckimin.

Bolsonaristas habitam um mundo paralelo, uma espécie de terra plana que termina no abismo, para onde estavam nos empurrando. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, lembrou do tempo de sonhos contido na chamada Primavera Árabe, em que as redes sociais foram ocupadas e usadas para convocar a derrubada de ditaduras e a instalação das democracias. Eram tempos de esperança e mudança, na Túnisia, no Egito e também no Brasil, perto de começar o primeiro governo de Dilma Rousseff, finalmente uma mulher na Presidência  Mas a extrema direita se apropriou desses recursos com alta tecnologia, dados roubados e poder financeiro e os empregou para propagar o ódio, derrotar democracias no mundo e para inflamar ataques à democracia no Brasil. Começando pelos ataques misóginos à presidenta eleita.

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A comunicação é o principal recurso desses grupos para convencimento de uma força de mobilização que, na verdade, é financiada por gente graúda – aqueles que submeteram o país aos seus interesses financeiros, como disse Lula em seu discurso. Estão aqui e fora daqui, criando fantasmas para incautos temerem, perseguirem e incendiarem. E assombrando com eles as democracias.

Recursos midiáticos, sejam digitais, sociais, públicos ou privados ficaram à mercê dessas forças, que se irmanaram a certas igrejas, grupos devastadores de florestas e ao crime organizado, e se encarnaram juntas na figura de Jair Bolsonaro. O mito anticivilizatório e explorador de religiões convenceu gente de Deus que era patriótico e divertido fazer o sinal sombrio de arma apontada com as mãos.  Casos de execução  com gás em porta-malas, assassinato em festa de aniversário, feminicídios, e crimes de milícias, foi esse o Brasil que tantos naturalizaram.

Mas a diplomação seguiu seus trâmites, sem sinais da presença dos queimadores de ônibus. Estavam em outra parte do Distrito Federal, gravando seus crimes para infestar as redes sociais desreguladas, no esforço de roubar a cena de uma festa celebrada e transmitida à população.

Do lado de fora do TSE, gente feliz manifestava a alegria de estar ali.  Apoiadores de Lula ergueram barracas. Cantaram e festejaram mais um passo dado para fora dos golpismos que destroçaram o Estado brasileiro.

Do lado de dentro, os assuntos nos corredores eram sobre o futuro. Entrevistas giravam em torno da expectativa de aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da coalizão de Lula no Congresso, por recursos para o combate à fome. Foram cercados pela imprensa parlamentares como Randolfe Rodrigues, da Rede, e Reginaldo Lopes, do PT. Ainda estavam ou queriam estar confiantes na promessa de Arthur Lira, presidente da Câmara, de que tudo será aprovado agora, depois da aprovação pelo Senado.

Também se especulava sobre as próximas nomeações de ministros e de quantas ministras seriam – Lula prometeu dar nomes logo após a diplomação, ou após a PEC, e agora as atenções estavam sobre isso.  A senadora petista Benedita da Silva foi questionada se o poder será enegrecido com mais pessoas pretas. Maria do Rosário, foi abraçada por ter sido um alvo e denunciadora do machismo e misoginia de Bolsonaro. A senadora Marina Silva foi festejada por tudo que pode representar para o meio ambiente. O que será da proposta de regulação da mídia e das plataformas? Muitos, como elas, se comprometeram com a defesa da comunicação pública.

Sônia Guajajara e lideranças indígenas foram abordadas sobre o que esperam do Ministério dos Povos Originários. Quaisquer que fossem as respostas, ficou claro que elas esperam um país que ainda não conhecemos, que reconheça a própria cultura e respeite e valorize sua diversidade.  No salão e auditório do TSE, tudo era sobre política – a volta da política ao centro da pauta nacional.

A diplomação é uma formalidade constitucional, mas nunca foi tão importante. Significa a consolidação dos resultados eleitorais e habilitação de candidato e vice para ocuparem seus postos no Planalto. Estão abençoados pela Constituição brasileira. A cerimônia põe  fim a uma série de ações sem fundamento sobre as urnas eletrônicas. Pode inibir  tentativas violentas de impedir a posse dos eleitos, mas  já serão casos de polícia e não de luta democrática.

O que se viu nos Estados Unidos, com a tentativa dos trumpistas insuflados pelo derrotado Trump de impedir a diplomação de Joe Biden, deixando gente morta no Capitólio, não teve fôlego para fazer o mesmo no Brasil. A diplomação foi antecipada por decisão do TSE, como um recado para que os insufladores se recolham à sua derrota. Ainda tiveram de ouvir Alexandre de Moraes frisando que Lula agora é o presidente deles também!

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Eleito e diplomado, Lula chorou forte, lembrando de seu primeiro diploma, e do primeiro choro ao recebê-lo, que foi justamente o de Presidente da República, vinte anos atrás.  Ele chorou também porque, depois do massacre difamatório e da prisão que o impediu de concorrer às eleições passadas,  ele estava de novo ali falando com o reconhecimento de chefe de Estado, que nem na cadeia foi apagado.

Lula cumprimentou a presidenta Dilma, desse modo, no feminino, como ela foi tratada até o impeachment. E ainda é, agora a senhora ex-presidenta da República cassada (desse modo, sem vírgula) injustamente por um golpe promovido na época  “com o Supremo, com tudo”, conforme uma conversa gravada e vazada que todos os brasileiros atentos conhecem. E com a participação da mídia no golpe.  Na homenagem à presidenta Dilma, o  simbólico e o constitucional da  retomada democrática falaram juntos da tribuna do TSE.

Para os que sabem que o preço será alto por essa vitória, e que o próximo governo não será poupado, especialmente por um Congresso que elegeu também seus algozes, mesmo assim foi  um alívio. A partir de 1º de janeiro, ninguém mais será obrigado a ouvir um presidente desdenhando as mortes pela falta de vacinas.  O homem que deixará o Planalto em 31 de dezembro não quis assumir  ser ele próprio o coveiro. Mas seu mandato foi sendo enterrado com muitas pás de cal nos discursos da diplomação.

Justiça seja feita ao juiz Alexandre de Moraes,  uma voz supreendente contra o  veneno do medo e do ódio  lançado às redes sociais, quando tantas instituições pareciam engolfadas no mesmo mundo paralelo dos fanáticos.

Ele disse a quem teve ouvidos para ouvir que a Justiça brasileira não é (leia-se não poderá mais ser)  covarde, e os que atentaram contra a democracia são já conhecidos e serão responsabilizados. Sobre fazer valer a justiça, ele não disse “queremos”. Disse “vamos!”.

Talvez a determinação leve à cadeia financiadores dos bloqueios nas rodovias, talvez chegue à família Bolsonaro. Mas possivelmente só mesmo a história julgue o papel da mesma Justiça que aceitou e participou do impeachment de Dilma Rousseff, na avalanche de intolerância que saltou das redes e conspirações para as ruas e as instituições.  Mas foi encorajador ouvir de Moraes que a Justiça brasileira vai cumprir com coragem seu papel de guardiã democrática. Porque ele próprio precisou de coragem e altivez para dizer o que disse, desafiando o que pedem golpe, sendo ele o homem que a extrema-direita quer ver expurgado por meio de um inédito impeachment de juiz, antes que venha a prender mandantes de crimes.

Aliás, um novo governo virá e ainda continua sem resposta a pergunta: “quem mandou matar Marielle Franco?”

A posse de Lula está marcada para 1º de janeiro. Está sendo organizada segundo os rituais da República, com ou sem Bolsonaro entregando a faixa ou fazendo provocações. Façam o que fizerem, os atos bolsonaristas agora são casos para a polícia. O senador Randolfe já avisou que vai levar a ainda primeira-dama à justiça, se é verdade que ela abriu as portas ao vandalismo para um Ocupa Planalto. O mundo paralelo continuará por mais um tempo fomentando loucuras contra a vida democrática.  Mas o fato é que Lula será empossado.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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