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Família palestina luta para sobreviver em sua casa sob assédio israelense

Forças israelenses na aldeia de Silwan, em Jerusalém Oriental ocupada, 3 de agosto de 2022 [Mostafa Alkharouf/Agência Anadolu]

No jardim de sua casa, Sa’adat Gharib e sua mãe colhem figos da única árvore salva da expropriação militar israelense das terras da família na aldeia de Beit Ijza, noroeste de Jerusalém ocupada. As informações são da agência de notícias Anadolu.

A família Gharib recebe afetuosamente seus convidados, que devem passar por um portão de acesso para chegar à residência, sob constante vigilância de soldados e câmeras da ocupação.

Três dos lados da residência são cercados pelo Muro do Apartheid. O único acesso é controlado através do portão. Em 2007, a acesso foi fechado pelas autoridades da ocupação e a família não pôde entrar em sua própria casa por três meses.

“O portão é conectado diretamente à delegacia de Atarot”, destacou Sa’adat. “Naqueles dias, tivemos de telefonar ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha e várias entidades de direitos humanos para pedir aos soldados que abrissem o portão. Meu pai estava bastante doente; os soldados, porém, ignoraram nosso apelo. Tivemos de aguardar horas apesar daquela situação de emergência”.

Em 19 de agosto, governo e organizações internacionais celebram o Dia Mundial Humanitário, com intuito de promover a importância e o impacto positivo do setor. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), é um dia para defender a sobrevivência, o bem-estar e a dignidade das populações carentes.

Em Beit Ijza, palestino conduzem esforços humanitários para se defenderem das agressões israelenses, ao passo que a aldeia sofre profunda marginalização no que concerne serviços públicos e fundamentais.

Segundo Mohammad Mari, chefe do conselho local de Beit Ijza, os residentes da aldeia trabalham coletivamente para reaver seus direitos expropriados.

“Lutamos constantemente para realizar atividades normais, seja ao construir nossas casas ou ter acesso a nossos plantios”, destacouMari. “Não conseguimos trabalhar em nossas próprias terras pela maior parte do tempo; o exército costuma confiscar equipamentos de construção. Mas jamais desistiremos de nossa luta”.

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Logo atrás do muro, há um assentamento ilegal israelense radicado em terras da aldeia, cuja construção data de 2002, quando a comunidade local sofreu dura repressão e expulsão pelo exército da ocupação israelense.

Segundo Sa’adat, forças israelenses confiscaram cem dunums de terras (dez hectares) de seu pai gradualmente, entre 1978 e 2002, além de 1.200 dunums (120 hectares) de seus vizinhos, com intuito de instalar no local o muro da separação.

Beit Ijza é uma das menores aldeias palestinas de Jerusalém, estimada em somente 2.500 dunums (250 hectares). As terras de Beit Ijza são designadas como Área B (6.7%) e Área C (93.3%), conforme as divisões administrativas dos Acordos de Oslo, de 1995.

Sob o pacto, firmado entre Israel e Autoridade Palestina (AP), a Cisjordânia e Jerusalém Oriental são divididas em três secções: Área A, B e C. Israel impede os palestinos de qualquer construção civil na chamada Área C, sob controle absoluto – militar e administrativo – da ocupação.

A Área C abriga atualmente 300 mil palestinos, sobretudo beduínos e comunidades pastoris que vivem em tendas, caravanas e mesmo cavernas.

A Área B permanece sob gestão administrativa da Autoridade Palestina; no entanto, o controle de segurança cabe a Israel. Ramallah tem jurisdição civil e de segurança apenas sobre as terras da Área A.

De 1978 até sua morte em 2012, o pai de Sa’adat jamais deixou de defender sua terra e sua casa. Seu pai foi preso mais de 35 vezes pelo exército da ocupação. Em diversas ocasiões, as forças sionistas invadiram a casa e prenderam a todos, inclusive idosos.

Sa’adat observou que colonos e policiais tentaram comprar o imóvel, mas a família rejeitou categoricamente tais ofertas.

“Durante uma de minhas prisões, fui algemado enquanto o colono que vive ao lado da minha casa atirava pedras contra minha cabeça”, relatou Sa’adat. “Fiquei gravemente ferido e perdi muito sangue. Este mesmo colono costuma provocar nossa família”.

“Ele sabe que somos tradicionais e, para nos assediar, sempre que vê uma de minhas irmãs ou alguma mulher nos arredores da casa, sai completamente pelado em sua varanda, logo acima de nosso jardim”, recordou Sa’adat.

O residente palestino observou que crianças também são frequentemente alvejadas por colonos e soldados ao brincar ou jogar futebol.

“Certo dia, dezenas de soldados entraram no jardim da minha casa e prenderam meus filhos porque sua bola havia caído do outro lado do muro”, declarou Sa’adat. “Três meninos foram detidos. O mais velho tinha dez anos de idade”.

As crianças foram interrogadas com a presença do pai e libertadas sob fiança.

A lei internacional vê Cisjordânia e Oriental como territórios ocupados; portanto, toda e qualquer construção de assentamentos na região é ilegal.

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