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Nos 50 anos de seu martírio, Ghassan Kanafani presente!

Ele foi assassinado aos 36 anos de idade em Beirute, no Líbano, pelo Mossad (serviço secreto israelense), que plantou uma bomba em seu carro

Este 8 de julho marca o cinquentenário do martírio do jornalista, escritor e revolucionário marxista Ghassan Kanafani. Ele foi assassinado aos 36 anos de idade em Beirute, no Líbano, pelo Mossad (serviço secreto israelense), que plantou uma bomba em seu carro. A explosão ceifou ainda a vida de sua sobrinha, ainda menina. Sua morte, contudo, não pôde calar sua voz. Para além do rico legado deixado em sua produção literária, elaborações políticas, discursos e entrevistas, Kanafani está eternizado em cada palestino e palestina que não se dobra e preserva seus ensinamentos rumo à libertação nacional.

Como ele próprio destacou, “tudo neste mundo pode ser roubado e saqueado, exceto uma coisa: o amor que emana de um ser humano em direção a um sólido compromisso com uma convicção ou uma causa”. O sionismo lhe tirou tudo: terra, amanhã, vida. Menos sua causa, que não é somente a dos palestinos, mas sim, em suas palavras, a de todo revolucionário, onde estiver, “como uma causa das massas oprimidas e exploradas em nossa era”.

Sob o signo da revolta

A Nakba – catástrofe cuja pedra basilar é a formação do Estado racista de Israel em 15 de maio de 1948 mediante limpeza étnica planejada – atravessaria o destino desse jovem revolucionário, que nasceu já ao signo da revolta contra a injustiça.

Kanafani chegou ao mundo em 9 de abril de 1936, na cidade de Akka (Acre), na Palestina. Segundo seu relato em “A revolta de 1936-1939 na Palestina” (São Paulo: Editora Sundermann, 2015), dois meses antes de seu nascimento, as primeiras chamas do levante popular que se elevaria para poderosa revolução foram acesas na cidade de Yafa (Jaffa), a terra das laranjas tristes retratada em seu conto semificcional que levou esse título, publicado em 1962.

Com apenas dez dias de vida, chegavam, de forma incompreensível aos ouvidos do bebê que mal abrira os olhos para a vida, as vozes de uma cidade que se somava à greve geral que se iniciava e duraria seis meses. Esse movimento detonaria a revolução palestina contra o mandato britânico e a colonização sionista que se expandia sob a bênção de seu aliado europeu, o imperialismo do momento. A Grã-Bretanha ficou com o mandato sobre a Palestina como espólio após a vitória dos aliados na Primeira Guerra-Mundial (1914-1918). Em meio a esse processo, já à iminente derrota do Império Turco-Otomano, a Grã-Bretanha emite a Declaração Balfour em 2 de novembro de 1917 em que dá seu aval ao projeto colonial sionista inaugurado em fins do século XIX.

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A revolução de 1936-1939 chega perto da libertação nacional almejada em 1937, mas é derrotada devido à crise de direção e à ação dos poderosos inimigos da causa palestina, identificados por Kanafani em sua análise marxista sobre esse processo: os regimes árabes, a “elite feudal e clerical” árabe-palestina (burguesia) e o imperialismo/sionismo. Inimigos que lamentavelmente se mantêm na atualidade.

A derrota dessa revolução abriria o caminho para a Nakba, selando o destino de Kanafani, de sua família e de outros 800 mil palestinos expulsos em 1948 da Palestina. A limpeza étnica promovida pelas forças paramilitares sionistas – fortemente armadas com a contribuição decisiva de Stalin – alcançou a histórica Akka, terra natal do revolucionário, em 18 de maio de 1948. Segundo o portal Palestine Remembered, dos 13 mil habitantes da região, apenas 3 mil conseguiram permanecer em suas terras. À ocupação na cidade, 79 palestinos foram massacrados.

A difícil vida sob refúgio e a luta pela sobrevivência estarão impressas em sua produção literária anos depois, cujos personagens revolvem a realidade palestina.

A consciência se eleva diante da tragédia, e Kanafani inicia seu engajamento na luta por libertação nacional nos anos 1950. Sob influência dos revolucionários marxistas, em meados dos anos 1960 torna-se um dos principais dirigentes da Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP), que se constituiu à época como ala esquerda da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

Adab al-mukawama

  Dos escombros da Nakba, surge nos anos 1950 a adab al-mukawama (literatura de resistência), termo cunhado por Kanafani. Segundo ele descreve em sua obra “Literatura de resistência na Palestina ocupada 1948-1966”, a Nakba – que teve como consequência a expulsão violenta de 2/3 dos palestinos de suas terras em 1948 e o surgimento da questão dos refugiados – sacudiu a estrutura social na Palestina ocupada a partir de então: “Mais de três quartos dos 200 mil árabes remanescentes após a ocupação sionista eram residentes das aldeias. Quanto aos moradores das áreas urbanas, a esmagadora maioria deixou a Palestina durante ou logo após a guerra de 1948, e essa realidade causou um abalo tumultuoso no seio da comunidade árabe de lá, já que as cidades não eram apenas o centro da liderança política, mas também, como na maioria dos casos, o principal centro de liderança intelectual.”

Na obra, ele continua: “Assim […], o ambiente estava totalmente preparado para não só atingir um perigoso processo de contenção de qualquer tendência política ou literária que surgisse apenas a partir daí, mas também para plantar sementes naquele solo.”

Primeiro a trazer uma abordagem materialista para explicar a literatura inserida no processo histórico pós-Nakba, Kanafani descreve na obra o que poderia ser apresentado simbolicamente como a figura mitológica grega da Fênix, a ave que ressurge das cinzas após sua morte.

Sob o que ele denomina “cerco cultural”, os escritores que permaneceram nas áreas de 1948 após a Nakba se viram impedidos de publicar suas obras, realizar intercâmbio com correntes modernas na região e com as novas influências no refúgio. As restrições visavam ainda impedir a formação das novas gerações, restringindo-lhes sobremaneira o acesso à educação. Ademais, apenas jornais árabes sob a tutela dos sionistas podiam ser publicados, que determinavam também quais livros que circulavam nas capitais de países vizinhos poderiam ou não ser reimpressos internamente. Assim, nenhum que tratasse da questão do nacionalismo árabe era permitido.

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A resistência a essa ordem preparou o terreno para a adab al-mukawama se firmar enquanto movimento cultural em cinco anos. Para Kanafani, o outro lado do que se dava também no exílio. Esse movimento foi seguido pelos palestinos nas áreas que viriam a ser ocupadas militarmente por Israel em 1967 – Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental.

A adab al-mukawama, que norteará sua produção literária, na concepção de Kanafani, se enquadra na prática cultural denominada sumud (palavra árabe que significa firmeza ou persistência). Uma consciência coletiva de luta que implica resistência permanente, sob todos os meios, rumo à Palestina livre, do rio ao mar, e à revolução socialista mundial, projeto ao qual Kanafani dedicou sua vida.

O texto inclui excertos de artigo da autora intitulado “Dos tristes laranjais, o desabrochar de um revolucionário”, constante do livro “Ghassan Kanafani – anticolonialismo e a alternativa socialista na Palestina. Em memória aos 50 anos do martírio do saudoso intelectual e escritor palestino Ghassan Kanafani”, a ser lançado em breve pelo Movimento pela Libertação da Palestina – Ghassan Kanafani, sob organização de Yasser Fayad

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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