Imprensa ocidental retrata pejorativamente o Islã, confirma pesquisa nos EUA

Cartazes contra a islamofobia da aliança Stop the War em Londres, Inglaterra, 20 de novembro de 2021 [Hollie Adams/Getty Images]

Os muçulmanos são majoritariamente retratados em um viés negativo pela imprensa ocidental, concluíram Erik Bleich e A. Maurits van der Veen, professores das universidades de Middlebury e William & Mary, que analisaram centenas de milhares de artigos.

Em ensaio publicado na página The Conversation — projeto filiado à rede Associated Press (AP) —, os cientistas políticos confirmaram que organizações da imprensa ocidental, sobretudo nos Estados Unidos, demonstram tendências contra o Islã há ao menos 26 anos.

Os pesquisadores baixaram 256.963 textos sob os termos de pesquisa “artigos muçulmanos”, mediante bancos de dados populares, como LexisNexis, Nexis Uni, ProQuest e Factiva. Então desenvolveram um método para mensurar o viés das reportagens, ao compará-las com uma amostra randômica de 48.283 outros textos sobre assuntos gerais.

Os pesquisadores descobriram que a média de citações negativas sobre o Islã em quase 257 mil artigos — obtidos de 17 jornais ou tabloides nacionais e regionais, entre 1° de janeiro de 1996 e 31 de dezembro de 2016 — é 84% maior do que amostras aleatórias de outros assuntos.

Essencialmente, os dados significam que, para cada um artigo depreciativo ao Islã, é preciso ler seis textos sobre outro assunto para encontrar uma única peça desfavorável.

O estudo também analisou escritos sobre outras minorias religiosas nos Estados Unidos — isto é, católicos, hindus e judeus — e confirmou que os muçulmanos são mais vulneráveis a textos pejorativos. Segundo os dados, os grupos supracitados são referidos negativa e positivamente em escala de 50%, enquanto muçulmanos são tratados desfavoravelmente em 80% dos casos.

Por vezes, o viés depreciativo é exposto sutil ou indiretamente, ao usar termos com conotação nociva; por exemplo: “Agentes infiltrados convenceram os russos de que materiais radioativos foram entregues a organizações islâmicas”. Palavras com peso negativo, como “infiltrados” e “radioativo”, parecem ordenadas no texto para conduzir uma associação subconsciente com “organizações islâmicas”.

Não obstante, os cientistas também analisaram a cobertura de mídia no Reino Unido, Canadá e Austrália, por meio de 528.444 artigos no mesmo período. As estatísticas reportadas são quase precisamente as mesmas que nos Estados Unidos.

“A divergência é aterradora”, observaram os pesquisadores. “Nosso trabalho demonstra que a imprensa não está inclinada a publicar histórias negativas quando comenta de outras minorias, mas é muito propícia a fazê-lo quando escreve sobre os muçulmanos”.

“Reconhecer e abordar este caráter lesivo e sistêmico na cobertura de mídia sobre o Islã e os muçulmanos é essencial para combater a estigmatização generalizada”, reafirmou a pesquisa “Em troca, isso pode abrir portas para políticas mais humanas e justas a todos, independente de sua fé”

O texto de Erik Bleich e A. Maurits van der Veen é um trecho de seu livro publicado neste ano, “Covering Muslims: American Newspapers in Comparative Perspective”, que contém os dados completos sobre o assunto.

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