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América Latina e a causa árabe-palestina na terceira década do século XXI

Manifestação dos venezuelanos em apoio à Palestina [venezuelanalysis]

A qualidade e a natureza das relações exteriores dos países latino-americanos junto à causa árabe e palestina pode estar se realinhando substancialmente. A direita e a extrema-direita abandonaram o pragmatismo pela subordinação e as teses fantasiosas de “globalismo e pária mundial”, se subordinando para a entidade sionista e vêm repetindo o discurso absurdo do Departamento de Estado.  Já pelos caminhos da centro-esquerda eleitoral, a timidez e a repetição da “teoria do empate” vêm sendo denominador comum. Este “empate” observa à distância o “conflito” pela Palestina, falsificando as realidades e supondo que seriam “dois povos por um mesmo território”.

Grande parte dessa ilusão propositada se dá pelas próprias raízes de nossas esquerdas e centro-esquerda, ainda muito eurocêntricas e reproduzindo teses imaginárias de permanência anacrônica. Explico. Todas e todos nós com tradições dentro dos projetos socialistas mundiais somos devedores do pensamento humanista ídiche, da militância de esquerda com raízes nas culturas do judaísmo europeu pós-Iluminista. Aí se confunde tudo, e de forma anacrônica sim, pois esse pensamento e ação socialista, com participação desde antes da Primeira Internacional, jamais foi sionista — não confundir com a excrescência do “trabalhismo israelense”.

A permanência no anacronismo faz supor a possibilidade da existência até de uma “equivocada esquerda sionista” (estupidez essa que o autor do texto já imaginou também), mas também permite que dirigentes social-democratas aprofundem o cinismo como forma de executar o pragmatismo político. Assim, a absurda afirmação de que árabes possam ser “antissemitas” se confunde com a defesa da ocupação dos territórios de 1948 e 1967, das Colinas de Golã e do sul do Líbano, além dos constantes bombardeios e ameaças de um conflito nuclear contra inimigos do apartheid promovido pelo “Estado de Israel”.

O prazo de validade desta falsificação é curto, mas pode ser renovado. O ciclo que se avizinha é mais árabe e menos pró-apartheid. Em parte, devido ao esgotamento da guinada à direita — protofascista e neoliberal.  No entanto, também por posições insustentáveis de Tel Aviv no Sistema Internacional. Assim, dificilmente a socialdemocracia e os governos de centro-esquerda conseguirão operar como sustentáculo cínico do estado colonial transnacional.

A posição da Venezuela 

No dia 2 de maio, o presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro, postou em sua conta oficial de Twitter uma saudação respeitosa ao Eid al-Fitr. No texto, o sucessor de Hugo Chávez afirmou:

“Saudações ao povo muçulmano que celebra hoje o fim do mês sagrado do Ramadã. Com muito respeito associo-me a este dia, desejando que vossa força espiritual, bondade e fé vos acompanhem sempre.”

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Embora o texto da publicação seja generalista, e em linguagem diplomática, o Palácio Miraflores (sede do poder executivo da Venezuela) se alinha com a libertação da Palestina ao postar imagens de Al-Quds, e especificamente da Mesquita de Al-Aqsa, alvo de terrorismo permanente por parte do estado colonial do apartheid.

Antes, em 29 de abril, o chefe de Estado venezuelano postou na mesma rede social a favor do Dia Internacional de Jerusalém, na defesa de Al-Quds e do caráter de libertação nacional da luta palestina.

“Associo-me ao Dia Internacional de Al-Quds (Jerusalém), levantando minha voz junto com a oração de milhões pela autodeterminação e respeito ao povo palestino. A Venezuela condena o extermínio na Palestina e reitera seu apoio absoluto a esta causa. Viva a Palestina Livre!”

Definitivamente, pela própria natureza do cerco estratégico que sofre a Venezuela incluindo o conjunto progressivo de sanções econômicas, ambos os governos chavistas não reproduzem a “teoria do empate”. Após a vitória sobre o locaute petroleiro de 2003, Chávez ainda em vida realinhou o país no cenário internacional e tomou posição junto ao que hoje é considerada a nova bipolaridade do século XXI, em processo de formação.

Em termos objetivos, a Venezuela tem relações históricas — nos últimos 23 anos ao menos — com a causa palestina e o Irã, além de importantes aproximações econômicas com a China e militares com a Rússia. O comportamento político do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), que governa o país, é mais próximo do mundo árabe e islâmico do que de outros governos, mesmo quando os mandatários são descendentes de árabes. Se a balança da política externa dos países latino-americanos se inclinar junto da chancelaria venezuelana, a “teoria do empate”, deveras repetida pela centro-esquerda e pela socialdemocracia do sul global, pode estar seriamente ameaçada.

A posição do Grupo de Puebla e a difícil tarefa de unificar a América Latina 

Após a derrota eleitoral na Argentina, a traição de Lenin Moreno no Equador, o golpe parlamentar no Brasil em 2016 e o golpe de estado na Bolívia em 2019, praticamente a articulação do chamado progressismo e da integração regional latino-americana se deu através do Grupo de Puebla. Embora não seja uma aliança entre Estados e nem mesmo o embrião de uma zona econômica comum — como o Mercosul, que não deslancha —, a instância de aproximação e unidade tem como pilar o encontro de “personalidades e lideranças”, tendo como primeiro anfitrião o presidente mexicano Andrés Manoel López Obrador.

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A posição sobre a Palestina deste fórum permanente é semelhante à da Venezuela, embora não tenha declarações e posturas públicas com tanta frequência. Em julho de 2020, o grupo manifestou posição contra a anexação da Cisjordânia ocupada; na sequência, publicou uma contundente declaração.

Se levarmos em conta as lideranças políticas que assinaram a declaração acima, incluindo sete ex-presidentes à época e seis ex-ministros de seis países latino-americanos, é possível vislumbrar uma guinada a favor da Palestina na política externa de nosso continente.

Mas nem tudo é “progresso”. O presidente chileno Gabriel Boric, que em campanha demonstrou uma correta postura contra o apartheid na Palestina, na conta oficial do Twitter da Presidência nada disse até o momento quanto ao terrorismo colonial promovido nesse Ramadã de 2022.  Pelo que verificamos, tampouco em sua conta privada houve manifestação alguma em defesa de Al-Quds.

Em igual caminho, de silêncio e certa timidez no tocante da opressão sionista sobre o povo palestino, está o controverso presidente salvadorenho. Embora tenha posições interessantes no sentido de um novo arranjo econômico — tentando se livrar da maldita dolarização —, para além dos arroubos autoritários, Nayib Bukele está longe de honrar sua origem palestina.

A unidade latino-americana reforça a Palestina 

Podemos terminar este breve artigo com uma pitada de realismo fantástico, forma narrativa tão apreciada nesta parte ao sul do mundo. A obra magistral do diretor argentino Santiago Mitre, La Cordillera (2017), se passa no Chile durante uma ficcional reunião de cúpula latino-americana entre presidentes. Rodada como se estivéssemos no auge do ciclo de centro-esquerda continental, as tramas do Departamento de Estado e a mesquinharia de frágeis lideranças políticas marcam o desastre iminente da unidade que não veio.

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Podemos afirmar que, nas relações da América Latina com a causa árabe e palestina, trata-se da mesma situação. Temos pressão demográfica, milhões de latino-americanos com origens árabes ocupando posições-chave e ainda assim parece que jamais tomamos todas as precauções necessárias para executar semelhante desafio.

O ciclo do reformismo que pode vir a se inaugurar com a possível mudança de poder no Brasil, vai ao encontro das relações Sul-Sul e apoio à libertação da Palestina. Resta saber se os tomadores de decisão estarão à altura do desafio, antecipando os movimentos do inimigo e alinhando a política externa para derrotar o apartheid e seus financiadores em todos os níveis.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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Expulsão dos Palestinos, O conceito de 'transferência' no pensamento político sionista (1882-1948)
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