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A vitória eleitoral no Chile e a Questão Palestina

Gabriel Boric comemora a vitória nas eleições presidenciais do Chile, Santiago, Chile, 19 de dezembro de 2021. [Cris Saavedra Vogel/Agência Anadolu]

No domingo 19 de dezembro de 2021 ocorreu o segundo turno das eleições presidenciais no Chile. Este país que foi o palco do primeiro 11 de setembro (o de 1973, com o golpe contra o governo constitucional da Unidade Popular) estava entre dois pólos opostos. Boric venceu Kast. Respectivamente, de um lado a aliança Apruebo Dignidad, composta pela coalizão de esquerda “Frente Ampla” e o histórico Partido Comunista do Chile. De outro, um racha ainda mais à direita dos herdeiros dos golpistas de 1973 (RN, Renovação Nacional, oriunda do Partido Nacional, cabeça doméstica do golpe militar) e o pinochetismo original, UDI (União Democrática Independente, tão reacionária quanto cínica é sua sigla). Atende por Partido Republicano (uma imitação da sigla capturada pelo trumpismo nos EUA) e defende o legado do “regime militar” do tirano Augusto José Ramón Pinochet Ugarte (Augusto Pinochet).

Como foi narrado  no artigo a respeito do pleito e da disputa do poder político instituído no Chile após a rebelião popular iniciada em outubro de 2019 (chamado de Estallido Social), a teoria do empate no que diz respeito às relações Chile-Palestina estaria superada. Caso José Antonio Kast saísse vitorioso, a direita mergulhada no absurdo paradigma da guerra cultural, e totalmente subordinada às mais obtusas estratégias de poder mundial do Estado Profundo (deep state) dos EUA, iria se abraçar na ocupação dos territórios palestinos pela entidade sionista. Óbvio que para esquerda, mesmo com todas as limitações do jogo eleitoral e o enquadramento institucional recebido desde o reconhecimento da vitória, seria diferente.

Gabriel Boric conseguiu a indicação superando o consolidado dirigente comunista Daniel Jadue, prefeito do município da Recoleta (região metropolitana de Santiago). Um dos trunfos eleitorais do segundo seria sua entrada na comunidade árabe-palestina, de grande poder econômico e criticáveis inclinações à direita na política doméstica. Jadue é de origem palestina, ardoroso defensor da libertação dos territórios tomados na Nakba de 1948 e Naksa de 1967. Boric vinha das lutas estudantis de 2011, contra o modelo educacional pinochetista, mantido pelos governos da Concertación (a aliança entre a Democracia Cristã e o Partido Socialista) e reconhece a origem desta na Rebelião dos Pinguins de abril 2006 (no primeiro governo Bachelet). Se não era mais próximo da “primeira linha” de luta em Plaza Dignidad ou dos bairros compostos por maioria de “pobladores” (assentamentos irregulares muito perseguidos e com depressão econômica), era de fato o menos distante. Ele, Gabriel, advogado egresso da Universidade de Chile, deveria reproduzir discursos domésticos muito avançados. Assim o foi, também ao dar fim à “teoria do empate”.

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Jadue, ainda na pré-campanha, foi alvo de absurdas denúncias de “antissemitismo”. Neste artigo, o analista reproduziu a posição de Jadue: “Acredite, eu sou semita, qualquer pessoa que conheça o conceito sabe que nós árabes somos todos semitas. Sou antissionista e tenho todo o direito de criticar as políticas de extermínio tanto físicas como políticas promovidas pelo Estado de Israel com respeito ao povo palestino”. Diante das posições críticas de Boric, as mesmas que do seu ex-concorrente na interna, calúnias e falsas polêmicas emanadas pelos defensores do apartheid na Palestina ocupada, continuaram.

No Brasil não foi diferente. O Instituto Brasil Israel (IBI) emitiu a seguinte nota:

“…é problemática porém, a maneira como Boric vem se posicionando com relação ao conflito Israel-Palestina. Em 2019, quando a Comunidad Judía de Chile enviou a todos os congressistas uma lembrança de Rosh Hashaná, o ano novo judaico, em prol de ‘uma sociedade mais inclusiva, solidária e respeitosa’, Boric respondeu recomendando que primeiro exigissem que ‘Israel devolva o território palestino ocupado ilegalmente’. Além disso, em mais de uma vez, Boric classificou Israel como um Estado ‘genocida’ e ‘assassino’. Confusões entre instituições da comunidade judaica e as ações de um Estado nacional, assim como o uso de categorias hiperbólicas para se referir a Israel, não apenas vulgarizam o debate como engendram uma realidade perigosa. Ademais, é alarmante como flertes com o antissemitismo circulam com naturalidade em setores progressistas e não mereçam comoção, mesmo quando apontados pelos pares judeus. Ainda assim, o ambiente democrático é a única garantia da possibilidade de combate a estereótipos e posturas generalizantes sobre os judeus e o Estado de Israel.  Após a eleição, a Comunidad Judía de Chile emitiu uma nota felicitando o novo presidente. Esperamos que Gabriel Boric forme fileiras na luta contra todas as formas de opressão, incluindo o antissemitismo”.

Notas e reportagens também foram emitidas pelo Jerusalem Post, afirmando que “A vitória presidencial do antissionista Gabriel Boric deixa os judeus do Chile preocupados”.  No texto acima citado, o Jerusalem Post traz um hiperlink de matéria de junho de 2014 com o título “Congresso chileno esboça projeto de lei para boicotar produtos de assentamentos israelenses”. E a linha de apoio reforça: “o projeto de boicote é o mais recente de uma série de medidas tomadas pelo Congresso do Chile e por municípios do país sul-americano”. Boric, enquanto deputado federal votou pela legislação baseada na campanha do BDS contra o apartheid na Cananeia invadida.

Cabem alguns breves comentários. Primeiro é afirmar a falácia do “antissemitismo” quando emanadas para confundir quem critica o sionismo como prática invasora da Palestina. Europeus de fé judaica são tão “semitas” como o próprio Boric, ou mesmo como o ex-dirigente do PC Chileno Volodia Teitelboim. O célebre escritor e novelista tinha ascendência judaica, filho de um ucraniano com mãe da antiga Bessarábia. Logo, confundir propositadamente descendentes de europeus de quaisquer sistemas de crenças com semitas é como alegar “liberdade de expressão” para crimes de ódio e intolerância.

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Quanto às entidades culturais judaicas não serem associadas de imediato ao Estado de Israel, afirmo que isso é absolutamente correto, desde que as mesmas não apoiem o apartheid e o colonialismo. A tradição da esquerda judaica não sionista – como a excelente rede Jewish Voice for Peace – além de bem vinda, é legítima e necessária. O contrário também é verdade. Entidades de qualquer natureza que não critiquem a ocupação e o apartheid são no mínimo omissas e em média cúmplices destes crimes de racismo colonialista. Para as associações da diáspora árabe, vale também. Clubes sociais, igrejas, mesquitas, hospitais, associações profissionais que não defendam a libertação da Palestina, o Bilad al-Sham e as posições do Eixo da Resistência são igualmente omissas e, neste caso, traidoras. Não havia meio termo e ponderações estranhas nas críticas da África do Sul de Daniel François Malan, Hendrik Verwoerd e Pieter Botha, o mesmo se dá na invasão de europeus e suas regras impostas sobre a população nativa de origem árabe, incluindo a condição subalterna da massa mizrahim dentro da entidade sionista.

Se a administração Gabriel Boric formar fileiras contra o antissemitismo, deve ampliar a campanha de boicote, desinvestimento e sanções contra o Estado colonial. A entidade liderada por europeus se dedica a roubar terras e casas de semitas há mais de um século. Pela primeira vez a gigantesca comunidade árabe-palestina chilena vai superar o cinismo “neutro” do Chile após trinta anos de “democracia sob Constituição pinochetista”.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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