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Reflexões sobre o Eid El-Fitr deste ano

Mulheres muçulmanas enchem balões enquanto os fiéis celebravam o feriado de Eid al-Fitr, que marca o fim do mês de jejum sagrado do Ramadã, após a oração matinal no complexo das mesquitas de Al-Aqsa, com a mesquita Domo da Rocha ao fundo, na Velha Jerusalém no início de 13 de maio de 2021. [ Ahmad GHARABLI/AFP]

A maior parte dos muçulmanos do mundo comemora o fim do mês do Ramadã, deste ano de 1443 da hégira, no dia 02 de maio de 2022. Neste ano, assim como em todos os anos passados, pelo menos na idade contemporânea, não houve consenso quanto à data do Eid El-Fitr, o dia santo islâmico do desjejum. A falta de consenso não foi somente entre sunitas e xiitas, mas entre os próprios países sunitas. O Afeganistão, do Talibã, comemora Eid El-Fitr no dia 1º de Maio; a Arábia Saudita, referência para a maior parte dos países de maioria sunita, anunciou que o Eid é na segunda-feira dia 2 de Maio; o Paquistão foi além, comemorando o Eid no dia 3 de Maio. Esta diferença se deve ao caráter do calendário lunar islâmico, o qual dá margem a diferenças na visão da lua nova de cada mês lunar, que é de 29 ou 30 dias. A comunidade islâmica do Brasil costuma seguir as determinações da Arábia Saudita; portanto, os muçulmanos do Brasil comemoram o Eid El-Fitr no dia 02 de maio neste ano. No entanto, numa época como a nossa, caracterizada pelo grande avanço da tecnologia, soa tão anacrônico e atrasado o fato de não usar cálculos astronômicos precisos permitidos pelos meios tecnológicos dos quais dispomos.

A divergência dos muçulmanos a respeito da data do Eid não é um mero detalhe simples que pode passar despercebido. É um fato que revela muito sobre o mundo islâmico atual e lança uma série de questionamentos. Fica patente a ausência de uma referência teológica única capaz de impor a sua visão aos muçulmanos no mundo todo. Trata-se de um retrato da desunião dos países muçulmanos. Este fato é constatado ao analisar o cenário geopolítico mundial, quando vemos os conflitos que assolam o mundo muçulmamo, com guerras civis e conflitos sangrentos em mais de uma região. Temos Iêmen, Iraque, Síria, Líbia e Afeganistão como exemplos hoje. E no passado recente, tivemos outros exemplos, como a Guerra do Golfo, na qual muitos estados islâmicos participaram da Coalizão Internacional na guerra contra o Iraque, nação árabe e islâmica.

De fato, a situação geral do mundo islâmico hoje está longe de ser animadora. Lado a lado com conflitos armados e guerras, temos muitos países islâmicos sob regimes de ditaduras opressoras, sejam elas repúblicas ou monarquias. É muito difundida a fama da Coreia do Norte, país comunista, como uma das ditaduras mais cruéis do mundo. Mas, temos vários países islâmicos que vivem sob ditaduras que se comparam ao país asiático. Pouco lembrado, o Turquimenistão, uma ex-república da extinta União Soviética, é um país muçulmano que tem uma das ditaduras mais cruéis do mundo. O Egito, país de maioria muçulmana e cultura milenar, está governado com mão de ferro pela ditadura do marechal Abdul Fattah Al-Sissi, que assumiu o poder após um golpe militar que traiu as conquistas da Revolução de 25 de janeiro de 2011, no auge da Primavera Árabe. Nem é preciso falar do Irã, que abriga uma teocracia das mais despóticas do mundo.

Ao voltarmos o olhar para a Palestina, neste mês de Ramadã do ano 1443 da hégira, tivemos mais um mês de Ramadã marcado pelas provocações e intimidações das tropas israelenses na Mesquita Al-Aqsa, em Jerusalém, santuário considerado o terceiro mais sagrado do mundo islâmico, após Meca e Medina. Neste ano, as tropas do estado de apartheid sionista profanaram a Mesquita Al-Aqsa, importunaram os fiéis, e causaram prejuízos físicos à mesquita sagrada. Felizmente, a força de resistência dos cidadãos palestinos conseguiu deter este covarde ataque de cunho racista. Estes acontecimentos acabaram forçando um recuo nas relações de normalização entre Emirados Árabes e Israel.

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No  Ramadã deste ano, tivemos a volta da normalidade para a grande mesquita de Meca, Al-Masjid Al-Haram, local mais sagrado do Islam na face da Terra, após dois anos atípicos em virtude da pandemia do covid 19. A grande mesquita encheu-se de visitantes a fazer o ritual sagrado da visita, chamada ” ‘omra” em árabe.

No terço final deste Ramadá, tivemos a revelação de um dos massacres mais cruéis cometidos em toda a era contemporânea. O jornal britânico “Guardian” divulgou a reportagem de um massacre cometido em abril 2013, no bairro Al-Tadamun, periferia sul de Damasco. Na reportagem, foi divulgado o vídeo do cruel massacre. Dois jovens algozes executaram de forma covarde e cruel mais de quarenta civis moradores de Damasco, jogaram os corpos num buraco enorme e depois atearam fogo nos cadáveres. Todos os responsáveis pelo massacre foram identificados, inclusive o assassino principal, nascido em 1986, chamdo Amjad Youssef, pertencente ao grupo religioso alawita, o mesmo do ditador Bachar Al-Assad. Este foi um de literalmente milhares de massacres cometidos pelas forças do regime do Partido Baath na Síria desde a década de 1970, época do Hafez Al-Assad, pai do atual ditador sírio. As cenas do massacre que o jornal Guardian divulgou são chocantes. Este massacre é uma pequena amostra da natureza do conflito sectarista na Síria. As vítimas do vídeo da Guardian, divulgado pelo youtube, eram sunitas árabes (sírios e palestinos) em sua maioria homens jovens e de meia-idade, mas havia poucas mulheres e crianças também.

E as tragédias do Ramadã deste ano não páram por aí. Tripoli, cidade localizada no litoral norte do Líbano, considerada a segunda maior cidade do país, e tendo uma população majoritariamente sunita, num país marcado pela diversidade religiosa entre muçulmanos e cristãos das diversas tendências, escolas e partidos teológicos, esta cidade histórica foi palco de uma tragédia. Um barco carregado de imigrantes ilegais (famílias inteiras, com homens, mulheres e crianças) foi interceptado pela marinha no limite das águas territoriais libanesas. Segundo sobreviventes, o barco teria sido afundado pela marinha libanesa. Mais de quarenta pessoas morreram, em sua maioria mulheres e crianças. De novo, chama a atenção a identidade das vítimas: todos muçulmanos sunitas. O Líbano vive uma crise política, econômica e social sem precedentes em toda a sua história recente.

Outro escândalo estourou neste Ramadã do ano 1443 da hégira. Desta vez o palco foi Mali, país muçulmano sunita da África Ocidental. Foram divulgadas nas redes sociais fotos de satélite de militares franceses enterrando vítimas de massacre cometido por eles contra cidadãos do Mali (não se sabe ao certo se eram militares ou civis). De novo, muçulmanos sunitas sendo vítimas de massacres. A França parece que está com saudades do seu infame passado colonial pelos quatro cantos do planeta, em especial na África.

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 Parece que o Ramadã vem para mostrar-nos mais de perto, e com maior foco e precisão, a real situação política, social e econômica do mundo muçulmano. Do exposto nas linhas acima, depreende-se que as feridas do mundo muçulmano são crônicas e dolorosas; portanto, necessitam de tratamento e cuidado. As chagas das mulheres e homens muçulmanos são expostas gritantemente. De nada adiantam as enormes riquezas naturais que o mundo muçulmano possui para amenizar as suas dores e aliviar o seu sofrimento. A a  maioria muçulmana sunita vem sendo alvo de perseguição global.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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