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Sem os sionistas árabes, não haveria Israel

Carro da polícia israelense no terminal de fronteira de Taba, que dá acesso ao Egito, em 16 de fevereiro de 2014 [Jack Guez/AFP via Getty Images]

Em mais outro tapa na cara do povo palestino e de ativistas solidários, em um momento no qual tropas israelenses invadem a Mesquita de Al-Aqsa e atacam fiéis, autoridades egípcias decidiram abrir a Península do Sinai a milhares de colonos sionistas para que comemorem a Páscoa judaica (Pesach). O feriado coincidiu com o aniversário da retomada completa do Sinai pelo estado egípcio, após a travessia de Taba ser devolvida ao país norte-africano em 1988, sob determinação do Tribunal Penal Internacional (TPI). Naquele momento, a cantora Shadia entoou versos em homenagem às terras supostamente reconquistadas e a população fez coro a suas palavras. Não obstante, os egípcios jamais puderam entrar em Taba — sob ocupação israelense — sem autorização prévia dos órgãos de segurança, como se fosse em outro país. Israelenses, ainda assim, continuaram a acessar a região sem sequer precisar de visto.

Vale recordar: quando o veredito determinou a saída sionista de Taba, os colonos não apenas espernearam, mas queimaram terras e demoliram todos os edifícios antes de deixá-los.

Na última semana, cerca de 50 mil sionistas viajaram ao Sinai para um concerto organizado por ex-comandantes do exército da ocupação e foram acolhidos em hotéis árabes. Vazou à imprensa que as celebrações dos colonos seriam conduzidas em um conhecido hotel das Forças Armadas do Egito, mas uma campanha popular por boicote levou as partes envolvidas na normalização a recuarem e transferirem os eventos a outras instalações na área de Nuweiba.

A história nos mostra que o Ramadã de 1973 — em outubro daquele ano — testemunhou a maior conquista militar do Egito na era moderna, ao derrotar os israelenses, supostamente invencíveis. Desde então, ambas as partes assinaram um “tratado de paz”, que representa nada mais que a vergonha da normalização. No Ramadã deste ano, no entanto, Tel Aviv recebeu gratuitamente um selo vitorioso, na forma de portas abertas ao concerto do Sinai.

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É lamentável que os sionistas se sintam livres para vangloriar-se deste evento. De acordo com a campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), pessoas de todo o mundo foram convidadas para dançar sobre as terras do Sinai. Os organizadores israelenses insistiram nas imagens de vitória, determinação e paciência, ao alegarem “demonstrar” que jamais deixarão lugar algum uma vez capturado.

É esta a normalização do Egito. Ainda assim, é uma vergonha que estados árabes que assinaram os chamados Acordos de Abraão declarem posições favoráveis à ocupação com tremenda transparência enquanto alegam corroborar as denúncias da resistência popular palestina sobre as violações da ocupação israelense. A imprensa do chamado “eixo de moderação”, liderado por Abu Dhabi, adotou as mentiras da propaganda sionista como cartilha consagrada sem hesitação. Os sionistas árabes chegam ao ponto de descrever os palestinos que buscam proteger suas terras usurpadas e a Mesquita de Al-Aqsa, terceiro lugar mais sagrado para o Islã, como criminosos. Nos olhos desses árabes, os agressores sionistas são “vítimas” que buscam defender os santuários islâmicos de supostos ataques da população nativa.

Sionistas árabes, incluindo a liderança dos Emirados Árabes Unidos (EAU), abriram seus cofres em suporte à economia israelense; na prática, financiando a persistente colonização da Palestina histórica. Neste sentido, ao menos US$10 bilhões já foram alocados para tanto. Sobre isso, não há surpresa alguma; o que choca é notar que tais regimes “moderados” podem ser ainda mais favoráveis a Israel do que os próprios israelenses que repetem a narrativa antipalestina com entusiasmo há décadas.

Para retratar tamanha vergonha ignorada por tais governos árabes, tudo isso ocorre em meio a uma onda de reconhecimento do apartheid israelense por proeminentes organizações de direitos humanos, incluindo a Anistia Internacional. Segundo a lei internacional, o apartheid equivale a crime de lesa-humanidade e demanda justiça. Não obstante, o chanceler emiradense Abdullah Bin Zayed chegou a lamentar os 43 anos perdidos de relações com Israel. Dessa maneira, fica evidente que os signatários dos Acordos de Abraão estão tão cegos por sua paixão ao regime sionista que sequer se incomodam de fincar seus pés no lado errado da história. Pouco a pouco, o mundo desperta para a natureza perniciosa do sionismo.

Digo novamente: os sionistas árabes são mais perigosos à comunidade islâmica internacional (Ummah) do que seus homólogos árabes. A razão é simples: sem eles, não haveria Israel.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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