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Ultimatos, sanções e ameaças biológicas enquanto a Ucrânia se desintegra chamando pela OTAN

Reunião entre os ministros Sergey Lavrov (esquerda) e Dmytro Kuleba (direita). [Cem Ozdel/ Ministério das Relações Estrangeiras da Turquia]

As tentativas de mediação na guerra da Ucrânia continuam sem resultados efetivos, enquanto o país se debate acreditando que sua escolha pela OTAN ainda será recompensada com uma proteção militar real, que não virá. As sanções têm tido mais efeito sobre a economia internacional do que para parar a guerra, que se agrava. Depois das reuniões entre as delegações russa e ucraniana na Bielorrússia, sem sucesso além dos acordos  iniciais sobre corredores humanitários,  a quinta-feira marcou o primeiro encontro dos ministros das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, e da Ucrânia, Dmytro Kuleba, na cidade de Antália, na Turquia. Também sem avanços.

A lentidão nos resultados diplomáticos nao é capaz de demover as duas partes de apertarem o passo para o desastre. Putin aumenta os ataques e diz que a guerra pode parar se a Ucrânia aceitar a neutralidade e não mexer com os separatistas. Já a Ucrânia entende a proposta como a sua rendição e resiste, armando o país como pode, em meio a improváveis mediadores.

Turquia, entre parceiros irritados

A Turquia mantém relações comerciais abertas com os dois países em conflito, o que lhe deu confiança para acolher a reunião mediada pelo seu chanceler da Mevlut Cavusoglu e poderá sediar outras. Mas não significa ter uma posição confortável para mediar as relações em jogo.

No campo militar, a Turquia foi o único membro da OTAN a comprar o sistema de mísseis antiaéreos S-400 fabricados pela Rússia, azedando relações com os EUA, principal apoiador da Ucrânia  e que lhe barrou ao programa de jatos F-35. A economia turca depende da Rússia para o turismo e o gás natural. Por outro lado, continua sendo um membro da OTAN e, desde o início, uma clara apoiadora militar da Ucrânia, a quem vendeu drones  contra os ataques russos, recebendo também  muitos agradecimentos do presidente Zelensky por acenar com possíveis barreiras aos navios russos no Mar Negro, azedando relações com Putin.

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A diplomacia internacional especula se haveria um Janus Bifronte capaz de resultados. O mitológico deus romano Janus era o protetor do estado, com duas faces que lhe permitiam olhar para trás e para a frente ao mesmo tempo. A duplicidade deu nome à diplomacia de um país ao relacionar-se com  posições antagônicas de países em confronto, incluindo o inimigo de um governo amigo, usando vias oficiais e secretas, equilibrando  seus próprios interesses.

O caso da China, amiga parceira incontestável da Rússia, poderia ser um exemplo clássico, em caso de um papel mais ativo nas intermediações com o Ocidente, por ora só especulada. O ministro chinês das Relações Exteriores, Wang Yi, afirmou em uma coletiva de imprensa no dia 7 de março que Pequim estaria disposto a oferecer seu “papel construtivo para facilitar o diálogo e pela paz, trabalhando ao lado da comunidade internacional para desenvolver as necessárias mediações”. Seu argumento seria a necessidade de “prevenir uma crise humanitária em larga escala”, mas assegurando que sua posição ao lado da Rússia continua “sólida como rocha”.

Diplomacia do muro e incongruência de Israel

Outro mediador improvável, Israel andou na corda bamba diplomática com medo de posicionar-se nos primeiros dias de guerra. E depois com medo por ter se posicionado. Israel depende da proteção dos Estados Unidos para tudo mas também de acordos tácitos com a Rússia ao atuar no Líbano e na Síria.

Ao votar finalmente a resolução da ONU intitulada “Agressão contra a Ucrânia”, as reclamações chegaram. A embaixada da Rússia em Tel Aviv manifestou ao Ministério das Relações Exteriores a “decepção” de Moscou. O Canal 13 de Israel disse que a diplomacia israelense recebeu uma carta da representação  declarando-se “muito decepcionada com sua posição na ONU”

O risco de se romper o acordo de não interferência das forças russas  na  “guerra entre as guerras” travada por Israel contra o Hesbollah, foi assunto na mídia. Mas a maior incongruência de uma oferta de Israel de mediar o conflito é querer apaziguar na Ucrânia uma guerra que seus soldados travam há anos contra a faixa de Gaza. É difícil imaginar que  Jerusalém, ocupada por Israel em violação ao direito internacional, seja oferecida como cidade sede para acordos de paz entre a Rússia e a Ucrânia sob o mesmo direito internacional.

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Aumento do tom nos ultimatos e ameaças 

No esforço de mediação, o primeiro-ministro Naftali Bennett, de Israel, foi à Rússia e fontes da midia israelense disseram que ele ouviu um  ultimato endereçado  à Zelensky, antes que a Russia decida “mudar a face da Ucrânia”.  O preço de manter-se de pé seria “desistir da contestada região de Donbas, reconhecer oficialmente os dissidentes pró-Rússia na Ucrânia, prometer que a Ucrânia não se juntará à OTAN, encolher seu exército e declarar neutralidade”, conforme escreveu uma analista ao Jerusalém Post, afirmando que a Ucrânia estaria negociando nas cordas, alertada para aquilo que o presidente Macron antecipou: que o pior ainda está por vir.

Na guerra de narraativas, o pior inclui ameaças nucleares e biológicas. Vladimir Putin convocou o Conselho de Segurança para denunciar a entrada de substâncias proibidas na Ucrânia. Os Estados Unidos dizem tratar-se de um esforço de bandeira falsa em que a própria Rússia poderia estar considerando o uso dessas armas.

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Enquanto as sanções chegam à proibição de importações da vodka e ao fechamentos dos canais russos no youtube, vai ficando evidente que um rompimento total da Europa com a Rússia não é pra já, a menos que o continente consiga reduzir em dois terços o atual suprimento do gás russo, algo inimaginável para a Alemanha.  Os planos de médio prazo são deixar o bloco menos dependente, mas não antes de cinco anos.  O secretário da OTAN, Jens Stoltenberg, também reafirmou que a vontade ucraniana de entrar para a OTAN não pode ser atendida agora porque arrastaria todos os membros para o confronto direto e  que, se a opção da Ucrânia for pela neutralidade, a OTAN terá de respeitar. .

“Nós não estamos em guerra contra a Rússia, estamos apoiando a Ucrânia”, disse Emmanuel Macron, na coletiva de imprensa da Comissão Europeia na sexta-feira. Uma jornalista argumentou que “as sanções não estão funcionando” e perguntou: ”  vocês não têm outras ferramentas?” A resposta foi: mais sanções.

Elas vieram principalmente dos Estados Unidos,  para impedir qualquer acesso russo a empréstimos no sistema internacional do FMI e Banco Mundial e bloquear suas vendas, enquanto a Rússia nacionaliza bens de empresas que deixaram o país e não abre mão de impor neutralidade à vizinha para manter sua linha vermelha para o ocidente.

A guerra desde o início é travada bem além das fronteiras da Ucrânia que, tentando ter um lado, vai se desintegrando a olhos vistos.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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