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Reino Unido perde a oportunidade de redimir-se sobre a questão palestina

Protesto recorda o primeiro centenário da Declaração Balfour e reivindica um pedido de desculpas do governo britânico, em Londres, 4 de novembro de 2017 [Jehan Alfarra/Monitor do Oriente Médio]
Protesto recorda o primeiro centenário da Declaração Balfour e reivindica um pedido de desculpas do governo britânico, em Londres, 4 de novembro de 2017 [Jehan Alfarra/Monitor do Oriente Médio]

O Dia Internacional de solidariedade ao Povo Palestino deste ano representou ainda outra oportunidade perdida para o estado britânico. Não houve qualquer mensagem de solidariedade ou expiação por parte do governo, pela tragédia imposta ao povo palestino quando Londres permitiu a partilha de suas terras, em 29 de novembro de 1947. Ao contrário, o Reino Unido aproveitou a ocasião para assinar um novo acordo de dez anos com a ocupação israelense, nos setores de comércio e cooperação militar.

O pacto é o último de uma série que remete a anos e anos de governança. Políticos trabalhistas e conservadores trabalharam incansavelmente para firmar acordos de segurança e comércio com Israel, tanto na União Europeia quanto após a saída do país do bloco internacional — episódio que tornou-se conhecido como Brexit e levou Boris Johnson à cadeira de premiê.

Catherine Ashton, do Partido Trabalhista, serviu como chefe de segurança e política externa da União Europeia entre 2009 e 2014. Um ano antes de deixar o cargo, assinou um acordo que permitiu a empresas armamentistas de Israel que se beneficiassem de centenas de milhões de euros como parte do tratado de colaboração tecnológica Horizon 2020. O compromisso foi assinado a despeito das supostas apreensões europeias de que não poderia verificar se seus recursos seriam canalizados a assentamentos ilegais israelenses nos territórios ocupados.

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Em fevereiro de 2017, ano que marcou o centenário da infame Declaração Balfour, o então premiê israelense Benjamin Netanyahu visitou sua colega conservadora britânica, Theresa May, para que estabelecessem um novo Grupo de Trabalho de Comércio entre as partes.

Dois anos depois, o governo de May apresentou um documento ao parlamento intitulado “Manutenção da relação comercial do Reino Unido com Israel”.

Não obstante, a tratativa oficial de Londres sobre os assentamentos permanece a mesma, ao observar: “O Reino Unido não reconhece os territórios palestinos ocupados, incluindo os assentamentos, como parte do Estado de Israel … Os territórios palestinos ocupados não estão incluídos nos atuais acordos comerciais assinados entre Israel e União Europeia, tampouco entre Israel e Reino Unido”.

Dados os recordes recentes de violência colonial contra os nativos palestinos, nas terras ocupadas de Jerusalém e Cisjordânia, o Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino deste ano apresentou então uma excelente oportunidade para o governo britânico demonstrar seu repúdio aos assentamentos ilegais e seus residentes — estimados em torno de 600 mil a 750 mil colonos estrangeiros.

Protesto em solidariedade ao povo palestino, perto da sede do governo britânico, em Londres, 12 de junho de 2021 [Guy Smallman/Getty Images]

Protesto em solidariedade ao povo palestino, perto da sede do governo britânico, em Londres, 12 de junho de 2021 [Guy Smallman/Getty Images]

Da mesma forma que fizeram concessões ao Shin Bet, serviço de vigilância interna de Israel, cujos oficiais viajaram a Londres para exigir a criminalização do braço político do Hamas, os governantes britânicos poderiam ter respondido aos apelos do Ministério de Relações Exteriores da Autoridade Palestina para designar grupos coloniais de extremistas judeus como entidades terroristas, devido aos crimes cometidos cotidianamente contra o povo palestino.

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Desnecessário dizer: não há qualquer equivalência moral ou legal entre ocupante e ocupado.

Sobretudo, por definição, as agressões coloniais não são atos randômicos ou incidentais. Ao contrário, de acordo com a ong israelense de direitos humanos B’Tselem, são ações planejadas e coordenadas, como parte integral da estratégia empregada pelo regime de apartheid israelense. Tanto as organizações de colonos armados quanto o próprio governo são responsáveis pelos ataques desenfreados contra nativos palestinos e suas propriedades. Como observa corretamente a B’Tselem: “O estado apoia plenamente tais atos de violência; por vezes, seus agentes participam diretamente. Dessa maneira, a violência colonial representa uma política de governo, auxiliada e facilitada por autoridades de estado, com participação ativa”.

Lamentavelmente, no que se refere à Palestina, os políticos britânicos insistem em uma longa tradição de equívocos. Costumam destacar a necessidade de “equilíbrio” e “imparcialidade”, apesar de tratar-se de algo raro ou inexistente, como testemunhado em campo. O Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino — data marcada pelo calendário das Nações Unidas — jamais deveria ser uma ocasião para reafirmar platitudes, mas sim um momento para mobilizar apoio aos palestinos que vivem sob ocupação. O governo de Boris Johnson decidiu deliberadamente negligenciar essa oportunidade.

Em decorrência, é difícil imaginar qualquer papel substancial de Londres na busca por uma resolução justa ao conflito na Palestina histórica. Dado seu papel pivotal no plano de partilha e na subsequente tragédia, recai ao país um dever fundamental em retificar seus erros.

Como o crime de escravidão, a colonização e a limpeza étnica do povo palestino são uma mancha na história britânica. Seja participando ou não do Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, este fato permanece inalterado.

Apesar das tentativas coordenadas para ignorá-la, a memória da partilha e consecutiva Nakba — em árabe, catástrofe — não desaparecerá tão breve. Ao assinar um novo acordo de comércio e segurança com o estado colonial, no Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, o governo britânico materializa um insulto brutal aos palestinos sob ocupação. Trata-se de algo cruel, insensível e descaradamente ofensivo. Pode haver a curto prazo alguns ganhos materiais; todavia, deve incorrer ainda em perdas globais. Nessa conjuntura, o Reino Unido perdeu mais outra vez uma oportunidade de ouro para redimir sua história.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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