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O Onze de Setembro que para muitos ainda não acabou

“O vento mudou de direção” conta as consequências da Guerra ao Terror para afegãos, iraquianos e paquistaneses
Autor do livro(s) :Simone Duarte
Data de publicação :01/09/2021
Editora :Fósforo
Número de páginas do Livro :240 páginas páginas
ISBN-13 :978-65-89733-28-7

No mês em que o atentado do Onze de Setembro completa vinte anos, a jornalista brasileira Simone Duarte lança O vento mudou de direção: o Onze de Setembro que o mundo não viu, em que destrincha os efeitos desse dia naqueles que tiveram suas vidas profundamente – e para sempre – impactadas por suas consequências, apenas por terem nascido em países atingidos pela chamada “Guerra ao Terror” americana.

No livro, publicado pela editora Fósforo, Simone Duarte, que era chefe da redação da TV Globo em Nova York, mostra as profundas consequências de uma série de políticas equivocadas dos Estados Unidos, que acabaram destruindo a vida de milhões no Oriente Médio. História que voltou às manchetes e ganhou novos capítulos com a recente tomada do Afeganistão pelo Talibã e retirada das tropas americanas.

“Neste livro, Simone Duarte trança os fios soltos do Onze de Setembro, numa narrativa veloz, multiplicada em sete vidas, os sete lados do outro lado. Com as armas do melhor jornalismo, destrincha a complexidade e nos lança à História, essa com ‘h’ maiúsculo; traz as histórias que, não fosse por ela, nunca seriam contadas”, escreve Pedro Bial.

Após dois anos de entrevistas, cada aspecto geopolítico da chamada “Guerra ao Terror” é abordado através de sete personagens: “Ahmer, um rapaz treinado para ser um menino-bomba; o jornalista Baker Atyani, escolhido por Osama Bin Laden para anunciar um grande atentado; o general Ehsan UI-Haq, ex-espião-chefe do equivalente à CIA paquistanesa; da poeta iraquiana Faleeha Hassan, obrigada a viver no país invasor; Gawhar, uma afegã que fugiu da ocupação militar rumo à europa; a jovem Gena, que fugiu para a Síria, onde cairia em um outro conflito sangrento. E de Rafi, um afegão que atravessou oito países para escapar do Talibã”.

Em uma estrutura única, que mescla locais, personagens, diferentes tempos -antes de 2001 até a pandemia de covid-19- e, inclusive, a própria transcrição da cobertura da Globo ao vivo, quando a Simone entrou no ar, por telefone, interagindo com o âncora de São Paulo, Carlos Nascimento, noticiando o atentado ao mesmo tempo em que o mundo inteiro tentava compreendê-lo. Simone foi a voz que muitos brasileiros ouviram naquele dia e vinte anos depois é a voz que mostra que, para muitos, o Onze de Setembro não acabou.

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“Daquele novo ano em diante, as decisões relativas à sua vida estariam para sempre interligadas aos atentados de Onze de Setembro e à Guerra ao Terror, ainda que a menina não soubesse. A novela se arrastaria por muitos anos, mais do que qualquer um seria capaz de prever”, conta o livro sobre Gawhar. A família da menina afegã havia se mudado para o Paquistão em 2000 para que as filhas pudessem estudar e a mãe pudesse voltar a trabalhar como médica, após quatro anos vivendo com medo em Cabul, durante o regime extremista do Talibã. Quando o governo provisório do Afeganistão foi anunciado, após a ocupação americana, a família decidiu voltar para o país, acreditando na paz prometida, apenas para viverem uma vida marcada por ainda mais violência.

“Os americanos prometeram a eles uma vida melhor, mas os tanques ocupavam as ruas das grandes cidades, e iraquianos de quem nunca tinha ouvido falar voltavam ao país para ocupar cargos importantes do governo. Nas ruas, a justiça era feita pelas próprias mãos, como nos filmes de faroeste. Sunitas matavam xiitas. Soldados americanos matavam civis iraquianos. Militares americanos morriam em ataques contra as tropas estrangeiras. Sair de casa e voltar viva era uma loteria”, conta o capítulo sobre Faleeha, que vivia em Bagdá, Iraque, em 2006.

“Para qualquer direção que olhe, o general paquistanês vê um mundo mais radicalizado, a islamofobia cada vez mais em alta e os supremacistas extremistas brancos cada vez mais ativos e com mais seguidores. Para ele, o resultado direto do Onze de Setembro e de duas décadas das políticas equivocadas adotadas pelos Estados Unidos”.

“Os americanos tiveram um Onze de Setembro, nós vivemos o nosso Onze de Setembro até hoje”, resume um dos entrevistados. O discurso indireto, da memória de Simone “da memória deles”- obtida nas suas diversas entrevistas-, é entrelaçado com trechos em primeira pessoa, em que eles próprios opinam sobre como o fatídico 11 de setembro de 2001 mudaria suas vidas. O livro é uma obra-prima do jornalismo literário brasileiro e precisa ser lido por todos aqueles que ainda enxergam a “Guerra ao Terror” em preto-e-branco, ignorando as suas profundas e desastrosas consequências.

“No Afeganistão, em vinte anos de guerra, morreram mais de 157 mil pessoas; no Iraque, de 2003 até hoje, dez anos depois de as tropas americanas se retirarem do país, foram mortos entre 308 e 600 mil; e no Paquistão, aliado dos Estados Unidos na Guerra ao Terror, 70 mil”, mostra o livro, além de realçar que o terror provocado pelo surgimento do Daesh (Estado Islâmico) – ainda mais extremista e violento que a Al-Qaeda- era uma resposta direta à ocupação militar americana no Iraque. “A Guerra ao Terror provocou mais radicalização religiosa, conflitos internos, forçou milhões de pessoas a abandonar suas casas e fugir para outros países, aumentando ainda mais o preconceito em relação a muçulmanos e árabes”.

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“Porque os americanos só deram dinheiro aos chamados ‘warlords’, senhores de guerra, comandantes de combatentes de diversas regiões do país que passaram a acumular mais dinheiro, mais armas, mais poder. Os problemas pioraram com mais corrupção e o envolvimento de políticos que protegiam seu próprio clã. Os criminosos e a máfia floresceram”, diz Rafi sobre o Afeganistão. “Não sei se Osama bin Laden imaginou o impacto prolongado que teria o Onze de Setembro”, afirma o jornalista jordaniano Baker, “Os Estados Unidos trouxeram o caos para o Paquistão, Afeganistão, Iraque e ainda arrastaram a Síria e a Líbia. É um desastre atrás do outro”.

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