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Dia da independência é marcado por atos a favor e contra governo de Bolsonaro

Na Paulista, apoiadores de Bolsonaro pediam intervenção militar e fechamento do STF; no Anhangabaú, manifestantes pediam por democracia e diminuição das desigualdades sociais
Ato “Grito dos Excluídos” organizado por centrais sindicais, partidos de esquerda e movimentos sociais, no Anhangabaú, São Paulo, em 7 de setembro de 2021 [Lina Bakr/Monitor do Oriente Médio]

O dia da Independência do Brasil, 7 de setembro, foi marcado por diversos atos em todo o país. Em São Paulo, apoiadores do governo de Jair Bolsonaro se reuniram na Avenida Paulista, com grande aglomeração e pouco uso da máscara. A maioria exibia placas com pautas antidemocráticas, com pedidos de intervenção militar, fechamento do Supremo Tribunal Federal e ameaças ao poder judiciário. No mesmo horário, no Anhangabaú, centro de São Paulo, a oposição participou do ato “Grito dos Excluídos”, uma tradicional manifestação organizada por centrais sindicais e movimentos sociais. Historicamente, o grito dos excluídos trata de temas como desemprego, exclusão social e fome, neste ano, eles também pediam por democracia.

Na Paulista, a concentração começou por volta das 11h, entre as estações Brigadeiro e Consolação do metrô e reuniu cerca de 125 mil pessoas, segundo a Polícia Militar. Os apoiadores usavam verde e amarelo, carregavam bandeiras do Brasil e discursavam contra a “ameaça do comunismo”. Muitas placas com ameaças ao Judiciário estavam escritas em inglês. Também puderam ser vistas bandeiras de Israel e a bandeira monarquista do Brasil Império.

Após participar da manifestação em Brasília, Bolsonaro discursou em São Paulo, por volta das 15h30, criticando nominalmente o ministro do STF, Alexandre de Moraes, afirmando que não vai mais “admitir que pessoas como Alexandre de Moraes continuem a açoitar a nossa democracia e desrespeitar a nossa Constituição”. Bolsonaro afirmou que não irá cumprir as decisões tomadas pelo ministro, “ele para nós não existe mais”, disse, afirmando que Moraes ainda teria tempo de “se redimir” e “arquivar seus inquéritos”. Bolsonaro também pediu liberdade para o que chamou de “presos políticos”, em referência aos apoiadores alvos de mandados no inquérito que apura financiamento e organização de atos antidemocráticos, conduzido por Moraes.

“Qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, este presidente não mais cumprirá. A paciência do nosso povo já se esgotou. Ele tem tempo ainda de pedir o seu boné e ir cuidar da sua vida. Ele, para nós, não existe mais! Liberdade para os presos políticos! Fim da censura! Fim da perseguição àqueles conservadores, àqueles que pensam no Brasil.”, disse.

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Ele também criticou o sistema eleitoral, chamando o processo que o elegeu presidente de uma “farsa” “patrocinada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral”. “Nós acreditamos e queremos a democracia. A alma da democracia é o voto, não podemos admitir um sistema eleitoral que não oferece qualquer segurança por ocasião das eleições. Não é uma pessoa do TSE que vai nos dizer que esse processo é seguro e confiável”, disse.

“E dizer àqueles que querem me tornar inelegívem em Brasília: Só Deus me tira de lá”, afirmou e, mais uma vez, repetiu que tem três alternativas para seu futuro: “preso, morto ou a vitória”. “Dizer aos canalhas que nunca serei preso. A minha vida pertence a Deus, mas a vitória é de todos nós”, disse.

Nesta terça-feira, o governo de São Paulo multou o presidente Jair Bolsonaro novamente por não usar máscara durante a manifestação. Esta é a sétima infração de Bolsonaro no Estado de São Paulo, por descumprir as normas sanitárias. A Vigilância Sanitária estadual também autuou outras treze autoridades e personalidades. Na lista de autuados estão os deputados federais Carla Zambelli (PSL-SP), Marco Feliciano (Republicanos-SP), General Girão Monteiro (PSL-RN) e Marcio Labre (PSL-RJ), o deputado estadual Danilo Balas (PSL-SP), o empresário Luciano Hang, o cantor Netinho, o secretário Especial de Cultura, Mário Frias, o subsecretário de Fomento e Incentivo à Cultura, André Porciuncula, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, o pastor Silas Malafaia, a prefeita de Bauru (SP), Suellen Rosim e o ex-senador Magno Malta.

No Vale do Anhangabaú, o ato do “Grito dos Excluídos” teve a presença de 50 mil pessoas, de acordo com os organizadores. De acordo com a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, cerca de 140 mil pessoas participaram dos dois atos, sendo 125 mil pessoas na região da Paulista e 15 mil no Anhangabaú. Segundo o órgão, a estimativa do público foi feita a partir de imagens aéreas, análise de mapas e georreferenciamento, segundo a Agência Brasil.

No centro de São Paulo, os manifestantes protestaram contra o governo Bolsonaro, com a participação de partidos da esquerda e lideranças sindicais e sociais, sob o tema “Vida em Primeiro Lugar”. O “Grito dos Excluídos” acontece todo dia sete de setembro, desde 1995, pela diminuição das desigualdades sociais, cobrando por comida, moradia, saúde, renda e emprego. Nesta 27ª edição, o pedido também era por democracia, em resposta aos discursos antidemocráticos de Jair Bolsonaro e seus apoiadores. A maioria dos manifestantes carregava cartazes com a frase “Bolsonaro Genocida”, principalmente em referência à forma como lidou com a pandemia de covid-19, que já matou mais de 584 mil brasileiros, e pediam pelo impeachment do presidente. Jair Bolsonaro já foi denunciado ao Tribunal Internacional de Haia por genocídio de povos indígenas e ecocídio pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Em 2019, o presidente foi acusado pelo Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos (CADHu) e pela Comissão Arns por incitação ao genocídio de povos indígenas e pelo avanço do desmatamento na Amazônia e, de acordo com o tribunal, essa denúncia está em avaliação preliminar. Em 2020, o presidente também foi denunciado por mais de 60 sindicatos e movimentos sociais pela gestão da pandemia da covid-19. Em 7 maio de 2020, o então embaixador do Brasil em Israel, Paulo Cesar Meira de Vasconcelos, enviou um telegrama ao Itamaraty afirmando que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu via um “risco real” do presidente brasileiro Jair Bolsonaro ser investigado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) de Haia por “genocidio de povos indígenas” e estaria disposto a trocar apoio, já que Israel também era investigado no mesmo Tribunal por seus crimes contra a humanidade.

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Ao contrário do presenciado na Avenida Paulista, os manifestantes no Anhangabaú usavam máscaras e álcool em gel. E enquanto na Paulista, a bandeira de Israel estava presente, no Anhangabaú estava a bandeira da Palestina.

Antes do ato, a CUT distribuiu alimentos oriundos da agricultura familiar, como frutas, saladas, legumes, arroz e feijão. A manifestação também reuniu representantes de diversas religiões, começando às 14:30 com um ato ecumênico e falas de representantes católicos, evangélicos e de religiões de matizes africanas. O Padre Antônio Alves chamou Bolsonaro de “assassino e genocida” por tirar o pão do povo.

“Estamos vivendo um momento de crises – social, ambiental, sanitária, humanitária, política e econômica – sobretudo causadas pela ação nefasta de um governo genocida, negacionista e promotor do caos que visa principalmente destruir, de qualquer forma, a democracia e a soberania do nosso país”, disse em nota a coordenação nacional do Grito dos Excluídos e Excluídas.

“Historicamente, o Grito levanta temas como o desemprego, fome e exclusão social para as ruas. Desta vez, a questão da defesa da democracia se impôs. Não sair às ruas seria um acovardamento. No futuro, seremos lembrados como parte dos setores que atuaram para impedir um golpe”, disse o coordenador da Central de Movimentos Populares, Raimundo Bonfim. Segundo ele, o “Grito dos Excluídos” reuniu 300 mil pessoas em 200 cidades do Brasil e do exterior.

O ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, discursou na manifestação, afirmando que Bolsonaro “conseguiu dividir os brasileiros no dia da nossa independencia”. “Depois de três anos de destruição dos empregos, da vida e da esperança, o que essas pessoas estão fazendo na Paulista? Por que não estão aqui com a gente defendendo a República e a Constituição?”, perguntou Haddad afirmando que no Anhangabaú estavam os que defendiam a democracia, e na Avenida Paulista aqueles que defendiam a ditadura e fascismo.

“Mesmo que tenha bastante gente (nos atos pró-presidente), o Bolsonaro fala apenas para a sua bolha. É um discurso dele para ele mesmo. A bolha bolsonarista não representa o Brasil”, disse a presidente do PT e deputada, Gleisi Hoffmman, afirmando que as falas de Bolsonaro em São Paulo e em Brasília foram um “ato de desespero”.

Guilherme Boulos, integrante do PSOL e líder do MTST também discursou, afirmando que a data mostrava que a esquerda não deixaria “a rua para eles” (apoiadores de Bolsonaro). Em referência às pautas antidemocráticas dos atos pró-governo, Boulos afirmou: “Nós não temos medo de ameaças golpistas. O medo está do lado de lá. O medo é do Carluxo, que deve ser preso logo mais”, disse se referindo ao vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente da República.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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