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Se as ações do Talibã servem de referência, como ficam os EUA no Iraque?

Patrulha do Talibã em Herat, Afeganistão, 18 de agosto de 2021 [Mir Ahmad Firooz Mashoof/Agência Anadolu]

Os Estados Unidos realmente se surpreenderam com o rápido retorno do Talibã no Afeganistão? Há alguma verdade oculta ou tudo simplesmente aconteceu muito mais rápido do que previsto, como disse o presidente Joe Biden somente alguns dias após o Talibã reaver o controle de Cabul, em 15 de agosto? Foi uma derrota, rendição, recuo ou retirada? Ou foi uma partida, um regresso para casa, um mero acordo? Muitas perguntas permanecem sem resposta.

Será interessante ver quão verdadeiras são ambas as partes ao implementar o acordo negociado e quais repercussões serão vivenciadas pelo povo afegão, nos próximos dias e meses, em comparação com a situação no Iraque. Afinal, se as ações do Talibã servem de referência, como ficam os Estados Unidos no Iraque?

Após as negociações entre Washington e Talibã, realizadas em Doha, era difícil acreditar no pânico e caos que tomou conta do Afeganistão nas últimas semanas, com uma corrida contra o tempo para “salvar” americanos, britânicos e soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), além de afegãos que cooperaram com a ocupação. Membros do público em geral — mulheres, em particular — ecoam apelos internacionais para deixar o país, aterrorizados com a reputação do Talibã e sua eventual campanha de vingança. As multidões desesperadas no aeroporto de Cabul forneceram à imprensa as imagens mais chocantes.

Parece difícil acreditar porque os Estados Unidos são ainda representados pela grande mídia como uma superpotência em termos de capacidades e habilidades organizacionais. Além disso, a retirada das forças americanas não surgiu como uma hipótese da noite para o dia — ao contrário, domina a pauta de negociações há mais de dez anos. A decisão oficial foi assinada pelo ex-presidente Donald Trump, que estabeleceu o dia 1° de setembro como data para que a retirada fosse concluída — seu sucessor aprovou o plano com pequenos ajustes.

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As negociações de retirada de fato remetem ao fim de 2013, dez anos após Estados Unidos e aliados invadirem o Afeganistão, quando — segundo Robert Grenier — Washington percebeu que conquistou pouquíssimo e que sua intervenção era fundamentalmente simbólica, pois dependia da aliança do Atlântico Norte para combater o Talibã. Contudo, em 2005, a arrogância americana levou a uma política fundamentalmente distinta. Grenier era chefe regional da CIA em Islamabad, capital do Paquistão, durante o período considerado de maior risco, isto é, logo após os atentados de 11 de setembro. Foi responsável por planejar e executar operações secretas de apoio à invasão do Afeganistão. Logo em seguida, foi encarregado de coordenar atividades à paisana em apoio à invasão do Iraque em 2003. Também comandou o chamado Camp Peary — conhecido como “A Fazenda” —, no estado da Virgínia, unidade de treinamento administrada pela CIA. Mais recentemente, foi nomeado diretor do Centro de Contraterrorismo da agência de espionagem norte-americana.

Durante uma conferência internacional de cultura realizada na Índia, em novembro de 2013, por acaso presenciei uma importante entrevista conjunta entre Robert Grenier e o mulá Abdul Salam Zaeef, um dos fundadores do Talibã e embaixador do movimento no Paquistão. Zaeef foi preso e basicamente vendido aos americanos — assim como muitos suspeitos de terrorismo — pelo serviço de inteligência paquistanês, logo após a invasão do Afeganistão. Permaneceu detido na Baía de Guantánamo por quatro anos e meio. Na ocasião, o presidente afegão Hamid Karzai anunciou uma anistia geral a membros do Talibã, com intuito de restaurar a estabilidade nacional, mas o governo americano suspendeu a decisão na semana seguinte — portanto, abortando quaisquer chances de reconciliação entre as diversas forças afegãs.

Retirada dos EUA do Afeganistão, para onde isso vai … [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

A entrevista foi conduzida por Shoma Chaudhury, editora-chefe do jornal investigativo indiano Tehelka e a participação do mulá Zaeef causou furor, pois foi a primeira vez que alguém como ele obteve permissão para visitar a Índia e conversar com o público. Grenier falou da intenção dos Estados Unidos de retirar suas forças e negociar com o Talibã. Zaeef discorreu sobre a importância da segurança e da estabilidade política no Afeganistão e a necessidade de recorrer à diplomacia para conquistar tais objetivos; concentrou-se no fracasso da democracia que os Estados Unidos tentavam impor por meio das armas, sem permissão, portanto, para crescer organicamente a partir da sociedade afegã, conforme paradigmas islâmicos.

A entrevista está disponível online e decidi assisti-la novamente. Sugere respostas para as mesmas questões feitas hoje, dez anos depois — de fato, são idênticas às dúvidas presentes sobre uma eventual moderação do Talibã ou sua capacidade de mudança, sobretudo no que concerne à posição do movimento sobre os direitos das mulheres.

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Zaeef enfatizou uma e outra vez a importância de educar as mulheres pois compreendem metade da sociedade afegã. Por insistência da moderadora, o mulá rechaçou atentados cometidos nas escolas. Contudo, também alertou sobre ações de “terceiros” para distorcer a imagem de seu movimento. Quanto ao futuro do Afeganistão, falou sobre a retirada inevitável da ocupação americana, ao observar ainda as complexidades conjecturais, devido à localização geográfica do país, encravado entre China, Rússia, Irã e Paquistão. A intervenção americana, sugeriu, assumiria outras maneiras, como a formação de milícias ou tropas paramilitares — precisamente o que ocorreu em solo iraquiano.

A ironia é que, agora, após a humilhante retirada militar, ouvimos declarações de “compromisso sólido” com o Iraque, como insistiu o premiê britânico Boris Johnson, sem conceder quaisquer explicações sobre os meios para tanto e ignorando os enormes crimes perpetrados pela agressiva ocupação estrangeira e as violentas repercussões ainda vivenciadas no Iraque. A aterradora dupla moral torna-se ainda mais clara ao passo que redes ocidentais de imprensa — emuladas pela mídia árabe e páginas do Facebook —, ingênua ou deliberadamente, concentram-se em caricaturas dos combatentes do Talibã e sua aparência, sob uma linguagem vulgar para tentar degradá-los. Trata-se de uma reminiscência da linguagem adotada por forças da invasão americana em 2003, que descreviam os iraquianos como “cabeças de pano”, entre outros termos racistas, tática que facilitou despojá-los de sua humanidade — e então torturá-los e assassiná-los. Ainda assim, a degradação dos valores humanos por meio do foco nas aparências não se restringe a tabloides ou redes sensacionalistas, pois mesmo a BBC em árabe caiu nessa armadilha, ao prejulgar o grupo com estereótipos: “O Talibã não mudou suas roupas, seu cabelo ou suas barbas … por que mudariam suas ideias?”

Boris Johnson afirmou ao parlamento britânico que seu governo “julgará o regime [do Talibã] por suas escolhas e ações, ao invés de palavras, sua atitude perante o terrorismo, o crime organizado e o tráfico de drogas, além do acesso humanitário e dos direitos das meninas à educação”. Pois não serão estes justamente os marcos fundamentais que os governos em Londres e Washington não conseguiram alcançar ao “libertar o Iraque”? De fato — dois pesos, duas medidas.

Este artigo foi publicado originalmente em árabe pela rede Al-Quds Al-Arabi, em 23 de agosto de 2021

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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