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Preso no Paraguai, brasileiro de origem libanesa será extraditado aos EUA

Kassem Mohamad Hijazi é levado pelos policiais do Paraguai, em Ciudad del Este, 24 de agosto de 2021 [Senad Paraguay/Divulgação]
Kassem Mohamad Hijazi é levado pelos policiais do Paraguai, em Ciudad del Este, 24 de agosto de 2021 [Senad Paraguay/Divulgação]

O empresário brasileiro de origem libanesa, Kassem Mohamad Hijazi, foi preso no Paraguai, nesta terça-feira, suspeito de chefiar um esquema de corrupção na Tríplice Fronteira, entre Brasil, Paraguai e Argentina, segundo a Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai (Senad). Ele, que estava escondido na Ciudad del Este, era considerado o braço financeiro do narcotráfico internacional e era procurado pelo governo dos Estados Unidos.

“Em um procedimento bem-sucedido liderado pelo promotor Marcelo Pecci, Kassem Mohamand Hijazi, procurado por lavagem de dinheiro proveniente do narcotráfico, foi preso para fins de extradição. Destaco a coordenação e cooperação com as autoridades das agências de aplicação da lei dos EUA, principalmente o Departamento de Justiça, o DEA e o Departamento de Investigações de Segurança Nacional”, anunciou em sua conta no Twitter a procuradora-geral do Estado, Sandra Quiñonez.

O promotor paraguaio Marcelo Pecci afirmou que a investigação está em andamento há dois anos e “o detido é um alvo de alto valor estratégico para os Estados Unidos, e é por isso que ações de cooperação internacional estão sendo tomadas”.  Em coletiva de imprensa, Pecci disse que Hijazi é acusado de lavagem de dinheiro proveniente do narcotráfico em valores estimados inicialmente em 1,6 bilhão de dólares.

Segundo o jornal paraguaio ABC, o mandato enviado ao Paraguai pela justiça dos EUA revela detalhes das operações de Hijazi, que teria chegado a depositar 1,6 milhões de dólares em vinte bancos, em menos de dois anos. “Uma investigação realizada pelas autoridades policiais identificou Hijazi como lavador de dinheiro de alto escalão que operava em Ciudad del Este, Paraguai. A investigação revelou que, entre maio de 2019 e dezembro de 2020, Hijazi realizou uma série de aproximadamente seis transações financeiras para lavar fundos que eles representavam e que ele acreditava serem fundos provenientes do tráfico de drogas”, diz o relatório.

Antes da prisão, o governo americano havia sancionado, no Paraguai, três pessoas e cinco empresas, acusadas de participar do processo, com operações em escala global e capacidade de lavar centenas de milhões de dólares com apoio de autoridades e policiais. As sanções, sob a Lei Global Magnitsky, foram aplicadas contra Kassem Hijazi, seu irmão Khalil Ahmad Hijazi e Liz Paola Doldan González. Também foram bloqueadas as empresas conectadas a eles; España Informática S.A., Emprendimientos Inmobiliarios Misiones S.A., Apolo Informatica S.A., Mundo Informatico Paraguay S.A. e Mobile Zone International Import-Export S.R.L.

Segundo a Senad, Kassem e seu irmão foram condenados em 2004 por crimes relacionados à lavagem de dinheiro. “Kassem Mohamad Hijazi estaria habilmente permeando as fraquezas do sistema financeiro nacional e internacional para colocar e estratificar fundos de atividades ilícitas, incluindo o tráfico de drogas, gerando transações comerciais fraudulentas. O responsável realizava transferências de quantias em dinheiro para os mercados internacionais por meio de diferentes técnicas, fugindo dos controles financeiros para finalmente legitimar a origem ilícita do dinheiro, integrando-o a critério de quem contrata seus serviços”, afirmou a Senad, em nota.

Doldan González foi sancionada por atuar como intermediária nos embarques para os Estados Unidos mediante o pagamento de propinas a funcionários da alfândega, já havia sido alvo em 2019 de uma operação da procuradoria anticorrupção do Paraguai.

“O tesouro americano sancionou três indivíduos por suas funções em esquemas de corrupção no Paraguai. Os Estados Unidos estão empenhados em combater a corrupção, promovendo responsabilização e protegendo o sistema financeiro dos EUA de abusos”, escreveu no Twitter o Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken.

“Tomadas em coordenação com a agência de combate às drogas (DEA) e o Departamento de Segurança Interna (DHS), essas ações representam um esforço de todo o governo para combater a corrupção na área da Tríplice Fronteira de Argentina, Brasil e Paraguai”, declarou Blinken, em comunicado. “Os Estados Unidos estão empenhados em apoiar os esforços do Paraguai para combater a corrupção e promover a responsabilização daqueles que prejudicam as instituições governamentais”.

Segundo o jornal paraguaio Última Hora, o promotor de Assuntos Internacionais do Paraguai, Manuel Doldán, afirmou em entrevista coletiva que o brasileiro de origem libanesa Kassem Hijazi não tinha um mandado de prisão vindo diretamente da justiça paraguaia, mas sua captura visava um pedido formal do Governo dos Estados Unidos da América ao Paraguai. Ele explicou que o pedido de detenção para fins de extradição é temporário e que coincide com a presença da equipe de avaliadores da Força-Tarefa de Ação Financeira da América Latina (Gafilat) no país, ele disse que “é uma circunstância totalmente alheia” ao funcionamento do sistema de justiça criminal em particular. Ele assegurou que a única pessoa que tinha um mandado de prisão para este procedimento era Hijazi, que é acusado de lavagem de dinheiro proveniente do narcotráfico, e seria extraditado para os EUA.

O tesouro americano acusou Kassem Mohamad Hijazi de dirigir, como despachante aduaneiro, uma organização de lavagem de dinheiro, com sede em Ciudad del Este, desde pelo menos 2017. “Kassem mantém fortes laços com políticos paraguaios, policiais, promotores distritais e vários corretores de câmbio localizados em Ciudad del Este que lhe proporcionam facilidade, segurança, garantia e poder econômico que lhe permite operar na área desde pelo menos 2018. Ele também mantém conexões com funcionários do governo paraguaio para evitar ações de aplicação da lei contra sua organização de lavagem de dinheiro”, afirma o Tesouro, citando investigações da DEA e do escritório do DHS.

Segundo a acusação, policiais de Alto Paraná recebem mensalmente para trabalhar para Kassem, e a “Rede Hijazi” atua nos Estados Unidos, América do Sul, Europa, Oriente Médio e China.

Segundo a CNN, o advogado de Hijazi, Enrique Giménez, afirmou que o cliente é “inocente de todas as acusações e que ele se dedica apenas ao comércio e não está ligado à lavagem de dinheiro”. E acrescentou que Hijazi “pertence a uma conhecida família de origem libanesa baseada em Ciudad del Este, um dos primeiros grupos de imigrantes a se estabelecer na região fronteiriça”.

Após a prisão, Hijazi foi transferido para Assunção pela Senad, em um avião da Força Aérea Paraguaia, onde permanecerá detido, de acordo com as autoridades, aguardando o processo de extradição para os Estados Unidos.

Em 2007, o Paraguai julgou Kassem Hijazi, acusado de comandar a lavagem dos US $100 milhões que teriam sido destinados à organização libanesa Hezbollah, considerada como terrorista nos Estados Unidos.  Segundo o inquérito, entre 1998 e 2003, com a ajuda de 46 pessoas, Hizaji teria usado 130 casas de câmbio e bancos no Brasil e no Paraguai para realizar transferências ilegais a 1.500 contas bancárias no Líbano, EUA e Chile.

Um tribunal de condenação o absolveu em 2008 por não haver provas suficientes. O ex-promotor e atual vice-presidente, Hugo Velásquez, disse à ABCTV que havia reunido muitas provas para acusá-lo, “trouxemos muitas informações para o Ministério Público e um computador muito importante no qual foi estabelecida a rota de dinheiro da Tríplice Fronteira que ia para o Oriente Médio via bancos americanos”. “O Ministério Público chegou a um julgamento oral. E o Judiciário disse que ‘não houve elementos suficientes para a condenação’. Ou seja, o Ministério Público fez todo o seu trabalho e ele foi absolvido pelo Juizado de Penas”, afirmou.

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