Portuguese / Spanish / English

Middle East Near You

O sadismo dos Bolsonaro contra palestinos e o lindo legado de uma família palestina ao Paraná

Ualid Rabah, Presidente da FEPAL- Federação Árabe Palestina do Brasil [ Foto: Leandro Taques]
Ualid Rabah, Presidente da FEPAL- Federação Árabe Palestina do Brasil [ Foto: Leandro Taques]

A noite gélida de um inverno inesperado no Rio de Janeiro caía sobre a cidade quando comecei a ver os primeiros relatos do senador de origem palestina, Omar Aziz, sobre as ofensas e intimidações que tem recebido como presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga todos os possíveis responsáveis pelas mortes de quase 600 mil brasileiros, pelo descaso com a vida humana, pela negligência e prática de desvios financeiros durante o combate à pandemia de covid-19 no Brasil.

Intimidações dessa magnitude não chegam a ser algo novo na história da humanidade, do Império Romano ao Terceiro Reich, passando pela Ditadura Militar brasileira. Mas o que me assustou e me entristeceu profundamente no caso de Omar Aziz foi que, após críticas fundamentadas na realidade e no próprio cenário sombrio que estamos testemunhando, ele tenha sido alvo de ataques racistas, criminosos e de xenofobia explícita. Aziz relata que os bolsonaristas passaram a se referir a ele como “o palestino”, reutilizando a forma pejorativa como o Serviço Nacional de Informações (SNI) se referia a ele em documentos secretos durante a sua luta pelas Diretas Já, e contra a Ditadura Militar, o regime que sequestrou o Brasil durante 21 anos.

Aziz relatou que esses documentos estranhamente “vazaram” nos últimos dias, depois que os militares passaram a constrangê-lo para que fossem interrompidas as investigações sobre as centenas de milhares de vidas perdidas no Brasil.  A resposta do senador naquele momento aos militares ficará para sempre tatuada nos corações de todos os brasileiros de origem árabe, como eu, que também sinto imenso orgulho de minha origem, e nos corações de quase doze milhões de árabe-brasileiros (quase todos, porque alguns deles, por desonestidade ou analfabetismo político, ainda apoiam Jair Bolsonaro) que testemunharam seu relato.

Como árabe e alguém de uma geração mais jovem que a do senador Aziz, tenho constatado com imensa perplexidade as ofensas, o desconhecimento e o sadismo da família Bolsonaro para com os descendentes de árabes no Brasil.

LEIA: “A unidade palestina é fundamental contra a ocupação”

O presidente que um dia foi expulso do Exército brasileiro por desvio moral já chegou a afirmar que os refugiados sírios, palestinos e outros que chegaram ao Brasil nos últimos anos eram “a escória do mundo”. O sujeito que ocupa o mais alto cargo do Brasil hoje já chegou a bradar que palestinos são “ todos terroristas “ e a celebrar os bombardeios de Israel a Gaza que deixaram quase seis mil civis e crianças palestinas mortas nos últimos anos. O sujeito que ocupa o mais alto cargo do Brasil já chegou a afirmar que “quilombolas não serviam nem para procriar”, e que não empregaria mulheres com o seu dinheiro “porque as mulheres engravidam”.  Já chegou a afirmar que apoiava Israel em todas as suas decisões, inclusive na decisão de não entregar os corpos de jovens palestinos mortos pelo estado sionista para que suas mães pudessem ao menos enterrar seus corpos. O sujeito que hoje ocupa a presidência já disse, às gargalhadas, sobre as mães de jovens desaparecidos brasileiros que procuram seus corpos para dar-lhes um enterro digno, que ” quem procura osso é cachorro”. O sujeito que ocupa o mais alto cargo do Brasil fechou as portas do país para todos os refugiados árabes, para mulheres e jovens fugindo de guerras ou do Apartheid, cujo único sonho é ver seus filhos crescerem em paz, sem serem mortos por um bombardeio israelense aos 8 anos de vida. Os únicos refugiados que hoje entram no Brasil são os venezuelanos, que merecem recomeçar suas vidas aqui com dignidade, sem serem usados como “ troféus” de Bolsonaro em seu discurso de ódio.

Do alto de sua imensa limitação moral e boçalidade, a família Bolsonaro talvez não saiba nada sobre a imensa contribuição dos árabes, tanto cristãos como muçulmanos, à Europa e ao mundo. Talvez desconheça que a linda língua portuguesa tem mais de mil palavras árabes usadas por nós hoje. Do alto de seu ódio aos árabes, os Bolsonaro talvez devessem parar de usar a palavra “algarismo”, que homenageia o muçulmano Al Khaarismi, o matemático que inventou os algarismos como os conhecemos hoje ou parar de usar a própria palavra medicina, que homenageia um dos primeiros e maiores médicos da História, o muçulmano Avicena, ou IBIN SINA, o médico que inventou os hospitais como os conhecemos hoje, que iniciou a oftalmologia, que descobriu a catarata e o primeiro tratamento para ela, que escreveu o Canône de Medicina, o primeiro livro de Medicina da História, escrito em árabe e traduzido para mais de cinquenta línguas, usado pelo mundo inteiro por mais de sete séculos. Os Bolsonaro deveriam parar também de usar a máquina fotográfica pois a palavra CAMERA vem do árabe antigo, kamra, para um local escuro, onde eram reveladas as primeiras fotos feitas no mundo. Deveriam jamais usar a Álgebra, jamais usar uma bússola, jamais procurar um “almirante” e , acima de tudo, deveriam jamais usar a palavra BÍBLIA, que vem de BIBLOS, a linda cidade litorânea do Líbano, onde se fabricavam manualmente os papiros para os primeiros textos sagrados do mundo, de onde vieram as palavras Bíblia, bibliografia e biblioteca.

Do alto de seu sadismo, os Bolsonaros continuam a ignorar o legado mais recente dos refugiados palestinos ao Brasil, um legado que me emociona todos os dias, desde que comecei a pesquisar mais sobre, e a conhecer centenas de palestinos que estarão para sempre tatuados em meu coração. Um dos mais lindos legados que conheci é o da família Rabah, refugiados palestinos no Paraná, uma história que começou ainda nos anos 1960 com os pais de Ualid Rabah, hoje presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil, a FEPAL.

Ualid Rabah , um líder  humanista e  com larga  experiência em comunicação tem revolucionado a maneira como o Brasil enxergava a Palestina. Através da FEPAL, uma  organização  de representação da diáspora palestina brasileira,  criada em 1979 em um encontro em Brasília, ano em que já existia o reconhecimento pelo governo brasileiro da OLP, tem sido fundamental. Em 1980 foi realizado o primeiro congresso que formalizou a Fepal, que não é um partido político ou uma visão segmentada do mundo, mas é claramente anti-imperialista, antirracista e multilateralista, na mesma linha que o movimento palestino sempre teve. É uma organização que representa a totalidade dos palestinos, sejam conservadores ou progressistas, religiosos ou não, cristãos ou muçulmanos e luta de forma incansável pela união dos palestinos em torno da independência da Palestina.

Conversando com Ruayda Rabah em Ramallah, a irmã de Ualid me contou que os pais chegaram ao Brasil vindos da região de Kobar. O pai havia deixado a jovem esposa na Palestina até se estabelecer aqui, vindo para o Brasil em busca de uma vida de paz e sem o sofrimento cotidiano imposto por Israel aos palestinos. Ele já havia vivenciado as muitas invasões e mortes causadas por Israel a centenas de inocentes e, quando chegou ao Sul do Brasil, sem saber falar uma palavra em português, trazia apenas uma pequena mala repleta de sonhos e esperanças de paz.

Hussein Rabah foi trabalhar como “mascate”, como eram chamados os vendedores que iam de cidade em cidade oferecendo mercadorias, histórias e sonhos para os brasileiros da época. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, os Rabah prosperaram, a esposa chegou ao Brasil logo em seguida, os dois criaram quatro filhos e ensinaram a eles o respeito às diferenças religiosas, o amor pelo ser humano e o valor do conhecimento e do trabalho. Dedicaram-se ao comércio, abriram uma loja, deram empregos, prosperaram e se tornaram especiais e queridos na cidade que os adotou.

Hussein Rabah havia perdido o direito de retorno à Palestina, pois não havia voltado antes de 1967 e, com a nova invasão de Israel e a Guerra dos Seis Dias, perdeu a cidadania palestina.

Somente em 1997 seu pai conseguiria voltar à Palestina, não mais como um palestino, mas como um brasileiro, já idoso e com a saúde muito debilitada. Viveu durante 37 anos no Brasil e apenas 37 dias na Palestina ao voltar a vê-la. Faleceu na terra de seus antepassados, na linda terra dos olivais, à sombra das árvores que tanto amava, e foi enterrado lá, como um dia sonhara, mas sem jamais ver a liberdade da Palestina.

ASSISTA: MEMO conversa com Ualid Rabah

Ruayda me relatara que se apaixonou por um palestino e acabou se casando com ele e voltando à Palestina. No início sentia uma imensa dor, seja por presenciar os crimes cometidos pelos sionistas, pelas injustiças que testemunhava e por uma perda pessoal, mas foi superando a dor, recomeçando a sonhar, lutando por sua terra, dando aulas de Português para os palestinos, construindo uma vida e uma casa em Kobar, a cidade de seus antepassados, e cuidando dos lindos olivais da família, as árvores que são quase uma metáfora da história do povo palestino e de sua família. De todas as histórias que ouvi pessoalmente de Ruayda e Ualid Rabah, a que me entristeceu e me tocou profundamente aconteceu há poucos meses.

Ualid discursa na seção especial no Senado, alusiva aos 40 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Palestina – [Foto arquivo pessoal]

Ualid revelara naquela semana a imensa dor pela morte do irmão Jomah Rabah. “Muitos perdem seus melhores amigos, mas coincidiu que meu melhor amigo era também meu irmão. Era a segunda morte que enfrentávamos no exílio e a morte de meu irmão por covid foi devastadora para mim. Há muitas maneiras de se interpretar o que seja o exílio. Para nós, palestinos, meu pai, minha mãe e seus descendentes, Haula Rabah, Ruayda Rabah, Jomah e eu, a diáspora que enfrentamos é um doloroso exílio. Chamam-nos imigrantes aqui no Brasil, mas quem sai de sua terra porque há quem lhe torne a vida difícil, insuportável ou impossível, não é imigrante, mas um exilado. O exílio pode ser ainda mais profundo em seu próprio curso. Meu pai, Hussein, o camponês que saiu de Kobar, uma pequena cidade na região de Ramallah e chegou ao Brasil depois de mais de um mês em navio que singrou o Mediterrâneo e o Atlântico, aportando em Santos. Trabalhou duro por quase cinco anos para trazer minha mãe, Farha, ou a dona Vera, ao Brasil.  Aqui ele se tornou o nosso pai e ela nossa mãe. No exílio viveram e nele nos ensinaram a ser o que somos, nos incutiram a palestinidade e nos fizeram também seres exilados. Quando pequenos, mal compreendíamos isso. Só sentíamos quando éramos chamados de “turcos” na escola, seja por alunos tão pequenos quanto nós, seja por alguns professores. No curso dos anos fomos compreendendo a razão de termos nascido fora da terra que nossos ancestrais habitam há pelo menos dez mil anos e fizemos das nossas vidas um sacerdócio. Os anos se passaram e muitas coisas aconteceram. O camponês pobre virou comerciante em Toledo e nos fez estudar. Lembro que minha mãe, mesmo ainda analfabeta, me ajudou a aprender a escrever”, contara Ualid naquele dia. “Meu pai faria cem anos em 2021 e não nos vimos na derradeira hora. Não velamos aquele camponês palestino a quem devemos muito. Nós nos despedimos separados por um oceano. Esta dor é indescritível. Hoje vivemos a dor da partida injusta e prematura do Jomah. E novamente tudo se dá num exílio cruel. O covid o exilou numa UTI. Não o vimos antes de ingressar a esta masmorra, da qual poucos têm saído com vida. Por alguns minutos alimentamos a esperança de vê-lo ainda com vida. Eles nos permitiram, devidamente paramentados, vê-lo e dar-lhe o adeus que jamais nos passou pela cabeça”.

O irmão mais novo a quem se referia Ualid era Jomah Hussein Rabah, advogado e professor de Direito de uma das melhores universidades públicas do Brasil, assessor jurídico e mestre em Direito. Jomah marcou a vida de milhares de brasileiros que o conheceram, milhares de jovens a quem ensinou a lutar por justiça e cidadania.

Os alunos, centenas deles, se reuniram recentemente para homenagear Jomah  Rabah, e suas redes estão repletas de depoimentos que emocionam.

“Ele era um grande ser humano. Estava sempre disposto a ensinar, a ajudar, tanto a universidade quanto as pessoas que nela trabalham”, diria Plínio Ribeiro Fajardo Campos, Diretor Geral do Campus de Toledo, sobre Jomah Rabah.

O professor Jomah, como os alunos o chamavam, seus ensinamentos e sua humanidade ficarão para sempre e são, assim como a trajetória de Ualid e Ruayda, e sua luta por uma Palestina livre e um Brasil mais justo, o grande legado dos palestinos Hussein e Farha Rabah ao Brasil que os acolheu. E não há ódio, preconceito ou xenofobia que supere a força dessas histórias e da esperança que elas nos trazem.

LEIA: Quem é a mulher alemã com ideias neonazistas recebida por Bolsonaro?

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

Categorias
América LatinaArtigoÁsia & AméricasBrasilIsraelOpiniãoOriente MédioPalestina
Show Comments
Expulsão dos Palestinos, O conceito de 'transferência' no pensamento político sionista (1882-1948)
Show Comments