Portuguese / Spanish / English

Middle East Near You

Como a Europa sustenta Israel

Manifestantes demandam o fim do bloqueio a Gaza, durante o Eurovision, em Tel Aviv, 14 de maio de 2019 [Faiz Abu Rmeleh/Agência Anadolu]
Manifestantes demandam o fim do bloqueio a Gaza, durante o Eurovision, em Tel Aviv, 14 de maio de 2019 [Faiz Abu Rmeleh/Agência Anadolu]

Muitas pessoas duvidam ao saber que Israel participa do Festival Eurovisão da Canção — conhecido internacionalmente como Eurovision.

Por que um regime tão notoriamente marcado por violência, racismo e abusos de direitos humanos pode participar de uma competição internacional como essa? Ademais, Israel sequer fica na Europa, mas sim no continente asiático.

Evidentemente, concordo com o primeiro ponto. Israel certamente deveria ser boicotado e expulso de tais torneios até que dê fim às suas violações da lei internacional e sua ocupação de terras palestinas, sírias e libanesas.

Tecnicamente, o segundo ponto também é correto. Entretanto, a verdade é que Israel é, em essência, uma colônia europeia de assentamentos imposta ao coração do mundo árabe. A Austrália também participa do Eurovision — outra colônia branca europeia, embora ainda mais distante geograficamente do continente em questão.

LEIA: Outro escândalo sobre livro didático expõe a indignação seletiva da União Europeia

O fundador do sionismo, Theodor Herzl, foi bastante explícito sobre isso: o estado sionista na Palestina deveria ser um fenômeno colonial europeu. Na ocasião, a Palestina estava sob domínio do Império Otomano. Em sua obra O Estado Judeu, postulou Herzl: “Caso Sua Majestade, o Sultão, nos conceda a Palestina … devemos formar ali uma parte do antemuro da Europa contra a Ásia, um posto avançado da civilização, em contraponto à barbárie”.

Este suposto “barbarismo” asiático que o sionismo europeu estabeleceu como inimigo jamais foi explicado de fato pela cartilha de Herzl. Porém, há uma pista sugestiva naquele mesmo parágrafo, na qual o líder sionista aponta o cristianismo (europeu) como uma religião superior àquela da maioria dos nativos palestinos — isto é, o Islã. Sobre o futuro estado judaico, prosseguiu: “Os santuários do cristianismo devem ser salvaguardados ao lhes designar um status extraterritorial, como bem conhecido pela lei das nações. Devemos instaurar uma guarda de honra para tais santuários, a fim de cumprir este dever pressuposto por nossa existência”.

Tais termos efetivamente racistas, coloniais e anacrônicos são, no entanto, os mesmos utilizados atualmente por Israel para definir a si mesmo: um posto avançado de “civilização” contra árabes “bárbaros” no Oriente Médio. Israel é, portanto, uma entidade europeia; afinal, trata-se de um fenômeno colonial europeu de assentamento e expropriação.

Ironicamente, é claro, o judaísmo não é uma religião europeia, mas sim nascida em solo asiático, assim como o cristianismo fundado na Palestina histórica. Herzl concebia assim uma identidade judaica exclusivamente europeia, a serviço de judeus europeus, cujas raízes remetem a populações convertidas ao longo de séculos.

Hoje, a maioria dos fanáticos sionistas que chegam à Palestina ocupada para expropriar terras árabes, sob escolta das leis discriminatórias de Israel, ainda tem origem da Europa ou dos Estados Unidos — obviamente, outra colônia europeia de assentamentos.

LEIA: Os palestinos já chamavam Israel de estado de apartheid décadas atrás

Muito mais exitoso do que o apelo de Herzl ao sultão otomano para entregar a Palestina ao colonialismo sionista foi sua intervenção junto ao Reino Unido.

Pouco após o infame imperialista britânico Cecil Rhodes colonizar as terras do povo shona, na África, e renomeá-la em sua própria homenagem como Rodésia, Herzl escreveu a ele. Mais tarde, o estado da Rodésia representaria talvez o pior e mais brutal dos regimes de apartheid estabelecidos pelas forças europeias no continente africano, até sua independência como Zimbábue, em 1979.

Em sua carta a Rhodes, conclamou Herzl: “Eu o convido a ajudar-nos a fazer história. Não envolve a África, mas um pedaço da Ásia Menor; não envolve ingleses, mas sim judeus … Por que então ouso abordá-lo sobre uma pauta alheia ao senhor? Por que de fato? Pois é um avanço colonial. O senhor, sr. Rhodes, é um visionário tanto em termos políticos como práticos … Quero tê-lo ao meu lado … para carimbar a autoridade do plano sionista”.

Herzl não viveu para ver, mas o apelo de seu movimento ao colonialismo britânico foi bem-sucedido em 1917, quando Londres declarou sua intenção de entregar a Palestina às forças coloniais judaicas, contra a vontade da população nativa. A carta do então chanceler ficou conhecida como Declaração Balfour.

Herzl prometeu em sua cartilha que a entidade sionista “permaneceria em contato com toda a Europa, que deveria garantir sua existência”.

Com Balfour, a maior potência imperial da época de fato avalizava a existência do projeto sionista. Décadas depois, as coisas mudaram um pouco — salvo o fato de que Washington foi quem herdou o manto de potência imperial em todo o planeta.

Não obstante, a Europa em si ainda exerce um papel fundamental para assegurar a preservação do violento regime racista que ocupa a Palestina.

A União Europeia, por exemplo, envia milhões de dólares à pesquisa científica israelense destinada a seu comércio militar. David Cronin, meu colega na rede The Electronic Intifada, revelou ainda nesta semana discussões entre as partes sobre uma eventual cooperação para o desenvolvimento da indústria nuclear israelense.

Com tais forças tão poderosas ainda alinhadas contra os palestinos, cabe ao povo da Europa manter suas campanhas e sua luta por direitos humanos, para pressionar seus governos a encerrar o apoio ao apartheid de Israel.

LEIA: Não ignorem a luta palestina

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

Categorias
ArtigoInquéritoIsraelOpiniãoOriente MédioPalestina
Show Comments
Show Comments