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É hora da Turquia e da OTAN construírem pontes, não queimá-las

O Presidente dos EUA Joe Biden (dir.) fala com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, na cúpula da OTAN em Bruxelas, em 14 de junho de 2021 [Olivier Matthys/Pool/AFP/Getty Images]

A cúpula da OTAN em Bruxelas, na segunda-feira, começou com o embaraçoso cumprimento do presidente americano Joe Biden com seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan. A reunião deles aconteceu semanas depois que Biden arriscou irritar o presidente turco ao reconhecer o genocídio armênio. Estes dois pontos à parte, há também outras questões entre a OTAN e a Turquia que precisam ser abordadas.

Enquanto trabalhava como jornalista em Istambul, em 2017, participei de uma reunião da OTAN. Foi um caso de alto nível com acadêmicos, embaixadores e jornalistas veteranos. A maioria dos diplomatas estrangeiros que entrevistei disse que o aumento das responsabilidades da OTAN após 1991 não deveria substituir seu objetivo principal de defesa coletiva e dissuasão de agressores, e a Turquia deveria ter cuidado com as sanções dos caças F-35. Eles também disseram que o sistema russo de defesa contra mísseis S-400 adquirido pela Turquia não poderia se tornar parte das defesas compartilhadas da OTAN. A Turquia, porém, tinha outros sistemas que continuariam a fazer parte das capacidades de defesa da OTAN.

Embora a Turquia tivesse bloqueado brevemente os planos de defesa da OTAN em 2019 e lançado uma ofensiva contra os rebeldes curdos apoiados pelos EUA – o YPG – na Síria, levando o presidente francês Emmanuel Macron a afirmar que a aliança estava “sofrendo morte cerebral”, o secretário de Estado norte-americano Antony Blinken disse que, apesar das divergências públicas com Ancara, os EUA e a OTAN têm um forte interesse em manter a Turquia a bordo, por uma série de razões.

A Turquia, por exemplo, tem sido um membro chave da OTAN desde 1952. Em particular, ela apóia as parcerias da OTAN nos Bálcãs. Durante meu tempo como enviada cultural em Sarajevo, tive muitas oportunidades para visitar as forças da OTAN da Turquia na Bósnia. Com seu apoio à Força de Estabilização na Bósnia e Herzegovina (SFOR), a Turquia acredita que a integração de todos os países dos Balcãs Ocidentais nas estruturas euro-atlânticas é a chave para uma paz e estabilidade duradouras na região. Portanto, apoia a adesão à OTAN dos países interessados, em particular a Macedônia e a Bósnia-Herzegovina; o reforço irreversível da segurança no Kosovo; e a normalização das relações entre a Sérvia e o Kosovo.

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Ancara também acredita que uma relação construtiva baseada na compreensão mútua, transparência e cooperação entre a OTAN e a Rússia é importante para a paz e estabilidade euro-atlântica. O Conselho OTAN-Rússia, diz, proporciona o fórum necessário para tal relacionamento.

O governo turco apoiou a transformação da OTAN, após a Guerra Fria, de uma aliança de autodefesa em uma organização de segurança coletiva, respondendo a uma ampla gama de ameaças decorrentes de um ambiente de segurança incerto na região do Oriente Médio Norte da África (MENA). Estando às margens da Europa e do Oriente Médio, a Turquia se identifica com ambos. Como tal, ela pode desempenhar um papel fundamental na obtenção e coordenação de respostas internacionais, mediando em intenso diálogo e consultas.

Além disso, como membro da OTAN, a Turquia foi o primeiro país muçulmano a aderir à campanha militar liderada pelos EUA no Afeganistão e atualmente dirige o Comando-Capital de Assistência ao Treinamento (TAAC, na sigla em inglês) da OTAN em Cabul. Tem, portanto, um papel fundamental na política da OTAN no Afeganistão, atuando como ponte entre Cabul e os Estados membros da OTAN. Segundo o Ministério das Relações Exteriores em Ancara, a Turquia baseou sua política externa para o Afeganistão em quatro objetivos: manter a estabilidade política e a unidade do país; fortalecer as estruturas e instituições políticas existentes; apoiar a estabilidade de seu ambiente de segurança; e restaurar a paz e a prosperidade através da eliminação do terrorismo e do extremismo. Desde 2001, Ancara investiu cerca de US$ 1,1 bilhão em segurança, saúde, educação e infra-estrutura no Afeganistão. Além disso, a Turquia acolhe dezenas de milhares de afegãos que fugiram do caos em seu país. De acordo com o ACNUR, há 116.403 afegãos requerentes de asilo e 980 refugiados afegãos vivendo na Turquia.

Além disso, a Turquia é importante para a OTAN na batalha contra grupos terroristas, especialmente na Síria. Os aliados da OTAN têm utilizado a infraestrutura militar na Turquia em operações contra Daesh (Estado Islâmico), por exemplo.

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Finalmente, a OTAN sabe que a Turquia é um importante parceiro militar, geográfico e estratégico, e é fundamental para a proteção dos membros da OTAN contra as ambições de rivais ferozes como a Rússia e a China. A situação exige tato e diplomacia, e a Turquia tem vínculos com ambos os Estados.

Considerando que a Turquia é um parceiro da China em sua iniciativa One Belt One Road ( conhecida como Rota da Seda) para o desenvolvimento econômico, ela pode atuar como mediadora entre a OTAN e Pequim. Em dezembro de 2019, os líderes da OTAN emitiram a Declaração de Londres: “Reconhecemos que a crescente influência da China e as políticas internacionais apresentam tanto oportunidades quanto desafios que precisamos enfrentar juntos como uma aliança”. A Turquia foi signatária desta declaração, mas é preciso mais; ela deve ajudar a OTAN a desenvolver uma nova política para seu relacionamento com a China.

Somente por estas razões, é importante para os EUA e a OTAN manter a Turquia como um aliado próximo. O esforço para estabelecer um período de defesa e segurança coletiva, assim como para desenvolver uma parceria estratégica na região do MENA e da Ásia, exige que a Turquia e a OTAN tenham um relacionamento mais coordenado e confiável. É hora de construir pontes, em vez de queimá-las, se o respeito mútuo quiser proporcionar uma situação vantajosa tanto para Ancara quanto para a aliança.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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