Meshaal lidera o Hamas mais uma vez

Após sua ausência na liderança do Hamas durante o mandato de 2017 a 2021, o movimento anunciou outra vez a eleição de Khaled Meshaal, ex-chefe do gabinete político, para coordenar o escritório da diáspora do grupo islâmico palestino entre 2021 e 2025. A medida torna Meshaal o segundo homem mais poderoso da organização e marca o início de sua gradual reintegração ao topo do movimento mais outra vez.

Os palestinos recordam que Meshaal renunciou pronta e voluntariamente da liderança do movimento no ápice de sua carreira, quando possuía uma influente rede de relações locais, regionais e internacionais. Além disso, Meshaal desfrutava de apoio popular representado por membros e aliados do Hamas, que lhe pediram para permanecer no posto, em maio de 2017.

Encontrei Meshaal em diversos eventos políticos e de imprensa em Damasco, Doha e quando visitei a Faixa de Gaza. Vi nele um líder carismático e extraordinário com as qualidades de um estadista perspicaz e visionário. Como fiz com muitos outros durante momentos políticos cruciais, concordei e discordei dele, mas sempre mantivemos uma atitude aberta e tolerante mesmo ao expressar duras críticas.

Por renunciar à liderança do Hamas, Meshaal sempre será lembrado pelo precedente histórico conquistado por ele junto dos movimentos políticos palestinos. Meshaal entregou a liderança a seu sucessor eleito, Ismail Haniyeh, embora fisicamente apto, com excelente memória e no pico de sua carreira política. Meshaal renunciou apesar de apelos internos e externos para permanecer no cargo perante iminentes momentos críticos vivenciados pelo Hamas, em particular, e pela causa palestina, em geral.

Na ocasião, senti em Meshaal um forte anseio pelo justo repouso de um velho guerreiro. Ao mesmo tempo, questionava o cumprimento estrito às regulações internas que o proibiam de concorrer novamente, após quase vinte anos na liderança do movimento, com a perspectiva de trazer sangue novo ao comando do grupo – frequentemente descrito por Meshaal como “prolífero”. Meshaal acostumou-se a dizer que queria ouvir o prefixo “ex” vinculado ao título do próximo presidente do gabinete político do Hamas.

Este retrato da personalidade de Meshaal é talvez uma introdução essencial a qualquer tentativa de antecipar o futuro do Hamas após ele ser eleito a seu gabinete na diáspora. Desafios internos e externos requerem um enorme senso de sabedoria, coletividade na tomada de decisões e habilidade extraordinária para superar ameaças ao redor do movimento, tanto em casa quanto no exterior.

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Após renunciar da liderança do Hamas, porém, Meshaal não descansou, tampouco sentou-se em casa, preocupado apenas consigo mesmo e sua família. Ao contrário, permaneceu próximo dos círculos decisivos do movimento. Consequentemente, a distinta relação de Meshaal com Haniyeh, seu sucessor eleito, tornou-se talvez um dos principais fatores que o ajudaram a manter-se íntimo do centro de poder.

Neste sentido, podemos afirmar que Haniyeh possui um vasto sentimento de gratidão a Meshaal, dado que seu relacionamento tem história. Não é segredo que Meshaal queria que Haniyeh permanecesse como presidente do gabinete político durante o mandato de 2021 a 2025, devido a seus princípios em comum e à harmonia que ambos demonstraram ao gerenciar os assuntos do movimento nos últimos anos.

Ex-líder do Hamas Khaled Meshaal na Cidade do Cabo, África, do Sul, 21 de outubro de 2015 [Rodger Bosch/AFP/Getty Images]

Meshaal, que vive no Catar e transita entre diversas capitais, ainda possui uma rede de relações próximas dentro do Hamas nos territórios palestinos – algo esperado de um líder do movimento que desfruta de ampla presença geográfica dentro e fora da Palestina. Os laços de Meshaal com quadros e líderes do Hamas refletem uma qualidade de influência suficiente para concedê-lo informações contínuas sobre as atividades do movimento na Palestina ocupada mesmo a quilômetros de distância. Tudo isso manteve Meshaal perto dos mecanismos de tomada de decisão e lhe conferiu oportunidades excepcionais para exercer seu prestígio ao longo de importantes eventos.

Vale notar que Meshaal, porventura, obteve acesso exclusivo a algumas dessas oportunidades substanciais, em comparação com outros líderes do Hamas, dado o fato de que outros líderes do grupo admiram seu caráter e carisma. Meshaal é humano e pode estar certo ou errado, vez e outra, mas qualquer um que possa aproximar-se dele, seja em nível pessoal ou político, verá as qualidades e características que levam o Hamas a orbitar sua figura. Mesmo após renunciar de seu posto prévio, o movimento continuou a buscar seus conselhos para beneficiar-se de sua experiência como líder político.

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Quem sabe, trabalhar lado a lado com Haniyeh possa ajudar Meshaal em sua nova missão de liderança. Ambos não são cópia em carbono um do outro; contudo, a harmonia entre eles pode de fato poupar grande esforço e tempo ao debater questões básicas e assuntos internos do movimento palestino. É notório que Meshaal e Haniyeh concordaram em muitas questões nos últimos anos, embora suas posições não sejam idênticas. Ambos compartilham uma compreensão mútua, não obstante, capaz de abrir caminho para o êxito do mandato porvir.

Meshaal, amigo de Haniyeh, retornou oficialmente à liderança do Hamas. Ambos agora possuem canais de comunicação mais abrangentes em termos regionais e internacionais, a fim de restaurar as relações exteriores do movimento palestino. Tudo isso pode ainda implicar em certo otimismo sobre sua habilidade conjunta de liderar o Hamas perante os próximos desafios.

O telefonema de Haniyeh a Meshaal, logo após ser eleito a seu novo cargo, provavelmente retrata um evidente alívio do chefe do gabinete político sobre os acontecimentos internos ao grupo palestino e potencial marco a uma suave rotação de poder de um líder ao outro.

Apesar de sua renúncia da liderança do Hamas, Meshaal conseguiu dobrar suas atividades políticas, o que desde cedo sugeriu um possível retorno, independente dos pesos e contrapesos internos ao movimento. Em âmbito regional, a conjuntura requer de sua liderança desenvolver alianças à sua organização e diversificar recursos militares e financeiros.

O consenso sobre Meshaal e sua competência como líder do Hamas mais outra vez é algo que não pode ser subestimado. Entretanto, os próximos avanços dependem de diversas considerações. Primeiro, se deseja retornar plenamente ou não; segundo, a inclinação do movimento em manter a atual liderança para os próximos mandatos, sobretudo com a presença constante do relacionamento quase perfeito entre Meshaal e Haniyeh, com base em consultas mútuas e permanentes; por último, as aspirações legítimas de outros líderes para ascender ao topo da organização.

Enfim, à medida que o Hamas anuncia o retorno tranquilo de Meshaal à sua liderança no novo mandato do gabinete político, dentro da experiência eleitoral única do movimento, este esboça uma nova página em sua história e assinala o início de uma fase distinta na carreira política de Meshaal. Portanto, devemos testemunhar, nos próximos anos, Meshaal e o Hamas avançarem juntos, ao vocalizar com firmeza seu compromisso ao estabelecimento de estruturas organizadas de estado e ao respeito às regulações eleitorais e princípios da causa palestina.

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