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Do Dia Mundial da Saúde ao 1º de Maio, a luta contra a pandemia já não conta com Bolsonaro

Ação Solidária do MST e protesto por vacina em Serrana – SP. [: Filipe Augusto Peres/MST]
Ação Solidária do MST e protesto por vacina em Serrana – SP. [: Filipe Augusto Peres/MST]

Para quem espera com seus doentes às portas fechadas das UTIs, a tragédia é visível e os agravantes também. É por causa dos entraves criados pelo governo federal que as vacinas não chegaram antes. É pelo exibicionismo das aglomerações que muitos negacionistas contribuíram para as festas virulentas que até hoje se repetem, clandestinas ou descaradas, debochando dos decretos de lockdown.

Por certo é doloroso, para os que acreditaram no discurso das armas para disciplinar um país que prefere a democracia, acordar do transe de ódio eleitoral de 2018 para um pesadelo que parece a volta de um cruel bumerangue: mais de 330 mil vidas perdidas e 13 milhões de infectados. E lembrar que milhões de vacinas ofertadas ao Brasil – e barradas pelo governo – já poderiam ter chegado em dezembro alterando essa contabilidade crescente e macabra.

O combate ao coronavírus a estas alturas requer artilharia pesada, que também já poderia ter sido empregada antes. Sem uma diplomacia empenhada em trazer muito mais vacinas, insumos e remédios, bem mais rapidamente do que temos agora; sem uma decisão firme de fechamento controlado em todo país e um auxílio contra a pobreza maior do que está aí, a festa será do vírus e da fome, com todas as suas variantes mortais.

Vacina, lockdown nacional decretado a partir das prefeituras e estados, e auxílio real à sobrevivência são as condições simultâneas propostas por setores mobilizados da sociedade, em diversidade cada vez maior, para reverter as contaminações e a mortalidade. Mas estes setores já se deram conta de que um governo com vontade política para o enfrentamento à crise não será possível com Bolsonaro no comando.

A novidade que vai se configurando é que essa diversidade de setores, agrupados em grandes frentes nacionais, está convergindo para tornar-se uma frente só, mobilizada e unificada pelo mesmo entendimento.

É no meio desse conflito e dessa clareza que chegamos ao Dia Mundial da Saúde, data que recorda a fundação, em 7 de abril 1948, da Organização Mundial da Saúde (OMS), entidade que o Brasil de hoje desdenha, mas que está sendo fundamental no combate mundial à covid-19.

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A triste celebração da saúde marca o início de uma jornada pelo país para defender o SUS. É para o nosso Sistema Único de Saúde, desfalcado de recursos, que o povo brasileiro leva seus doentes de covid-19. Nada justifica que o orçamento da saúde pública para 2021 seja menor do que o de 2020. Mas a pandemia, aliada ao teto e gastos, não encontra barreiras no Brasil.

Brasileiros sabem que capacidade de vacinação nunca foi o problema. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) já mostrou que consegue vacinar mais de dois milhões de pessoas por dia. Mas não há doses para vacinar tão cedo mais do que os mais idosos, nem insumos para fabricá-las na quantidade e tempo necessários. No ritmo atual, os grupos prioritários, de mais um menos um terço da população, não estarão imunizados antes de setembro, segundo projeções de especialistas divulgadas pelo jornal O Estado.

O país provoca medo internacional. As fronteiras estão fechadas de fora para dentro, com países vizinhos criando cordões de isolamento aos brasileiros. A Bolívia de Evo Morales decidiu vacinar todos os moradores da divisa com o Brasil a partir dos 18 anos. 18 anos! E o Brasil ainda não chegou aos 65 anos, com a primeira dose.

Nem a direita liberal, que ajudou a eleger o atual governo, pelo que poderia render de ofertas privatizantes ao sistema financeiro internacional, tenta poupá-lo agora. A britânica The Economist, afirma que a má gestão da covid-19 no Brasil “ameaça o mundo”, com todas as letras. E chama Bolsonaro de charlatão. O americano Whashington Post, ao registrar que Lula volta à cena, diz que Bolsonaro parece mais ocupado em pensar em golpe do que em lutar contra o coronavírus. Empresários brasileiros também decidiram se manifestar, com uma carta crítica ao presidente no final de março.

Um primeiro grande problema para atacar a crise é o descrédito do Brasil na diplomacia mundial, especialmente os problemas criados justamente com grandes produtores de vacinas, testes, insumos, etc. Prefeitos, governadores e parlamentares estão sendo obrigados a tomar a dianteira e a brigar pelo direito de negociar vacinas com fornecedores que deixaram o Brasil no final da fila. Outro problema é o ataque do governo federal às medidas de lockdown adotadas por estados e municípios. Sem isolamento social, o Brasil está se tornando um criadouro de variantes do coronavírus. E uma coordenação nacional para combater a pandemia exige rigor nessas medidas. Mas um outro enorme problema reside justamente na economia, que o governo alega defender.

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Dentro do país, a pandemia de covid-19 não veio sozinha. Ela trouxe junto a pandemia da fome. O Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 traz resultados assustadores de uma pesquisa feita em áreas urbanas e rurais no mês de dezembro de 2020 – e de lá para cá as coisas só pioraram. Em números absolutos, no período abrangido pela pesquisa, 116,8 milhões de brasileiros, ou 55,2% dos domicílios, não tinham acesso pleno e permanente a alimentos. Desses, 43,4 milhões não contavam com alimentos em quantidade suficiente (insegurança alimentar moderada ou grave) e 19,1 milhões (9% da população) estavam passando fome (insegurança alimentar grave). O quadro, de acordo com o instituto, não deixa dúvidas de que a combinação das crises econômica, política e sanitária provocou uma imensa redução da segurança alimentar em todo o Brasil.

Um dado preocupante é a velocidade da pobreza que se alastra mais do que o vírus, que já contaminou 13 milhões de brasileiros. A Fundação Getúlio Vargas apurou que o número de pobres saltou de 9,5 milhões em agosto de 2020 para mais de 27 milhões em fevereiro de 2021.

Sob o atual governo, a indústria automotiva e outras estão deixando o país sem olhar para trás, em São Paulo, Bahia, Ceará. Na busca de recursos, o governo mira setores estratégicos, especialmente o energético, canibalizando a exploração dos sistemas da Petrobras e da Eletrobras, com as privatizações. Aproveita-se da pandemia para tentar passar a boiada.

É óbvio também que o auxílio emergencial que o governo interrompeu e agora reduziu a valores irrisórios, não vai tirar nenhum desempregado do desespero. É preciso enfrentar o teto de gastos e o que for preciso para que as famílias pobres recebam pelo menos os R$ 600,00 defendidos pelas centrais sindicais, um socorro que ajudaria também a movimentar o combalido mercado interno.

No dia 8 de Abril, a Frente pela Vida (formada pelas diversas entidades de saúde) irá ao STF entregar a “Carta aberta ao povo brasileiro”, na qual defendem a parada total por 21 dias, combinado com o auxílio emergencial de R$600 para conter a pandemia no Brasil.

Estão juntas nessa artilharia política contra a covid-19, com as mesmas propostas, a Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo, Frente pela Vida e Frente pela Democracia liderando a campanha unificada por #vacinajá #auxilio600reais e #ForaBolsonaro.

As frentes congregam movimentos sociais, os sem teto e os sem terra, cientistas, parlamentares, sindicalistas, partidos, prefeitos e parlamentares, que preparam um mês de abril de mobilização nas redes e pressão sobre as instituições.

Atos inter-religiosos no dia 11, serão seguidos por outros, que tendem a crescer até o Dia Internacional da luta pela terra e Dia Nacional pela Reforma agrária, em 17 de abril, que recorda o massacre de Eldorado dos Carajás e depois ao dia das e dos trabalhadores. O 1º de Maio 2021 poderá ocorrer no isolamento, mas não será silencioso, nem intimidado.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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